Ahh, as putas, não dou muita sorte comn elas não, e as minhas noites vadiamente sujas estão se tornando cada vez mais amargas...
Desço levemente trôpego a Lobo D'Almada em direção á Praça da Matriz. Ainda é uma da manhã e a noite amordaçada pelo silêncio é entrecortada apenas pelos TOKS TOKS surdos-secos dos saltos altos dos travecos que fazem ponto pelas esquinas, acordando da vida, a morte.
A lua é roxa. Macilenta. Doce-fria. Defunta sonhos. Penso acidentalmente na frase de Spinosa: "O homem é seu destino." Sim. E tudo neste homem são verdades e mentiras. Verdade e mentira caminham juntas. São juntas de uma mesma mão. Não pode existir a verdade sem a mentira. Uma é premissa da outra e viceversa. O universo é um grande moedor de carne na fase indigesta de Deus. Estamos dentro do grande moedor de carne que moe moe e moe os intestinos do homem, a mentgira da carne, a verdade do espírito. Verdade e mentira caminham juntas. São juntas de uma mesma mão. O homem é seu próprio destino.
Vou filosofando essas coisas estranhas enquanto acerto meus passos levetrôpegos em direção ao anfiteatro da morte. Vou abraçá-la. Ouvir o estalido de seus ossos. Olhar sua cárie. Comer seu câncer. Um traveco se aproxima e me diz com voz sedutora: "vamos faqzer um programinha, amor?" O traveco é bastante alto e o seu queixo é pontiagudo como as lâminas de seusn saltos. Faço um gesto negativo e amigável com a mão e sigo em frente. Alguns deles se valem de sua altura e massa muscular para roubar os transeuntes feridos, mas este não me causa mal algum. Mas é preciso ter sempre cuidado: controlar o pau que causa a ereção da alma.
Ao final da rua dobro a direita e sigo fazendo o contorno pela XV de novembro. E é exatamente ali, escorada ao muro da Biblioteca Arthur Reis, bem na entrada do Suadouro - na então conhecida Itamaracá - que uma puta em completo desmazelo da vida, me chama bastante atenção. A tipa fuma sossegadamente um cigarro e seus olhos são pequenos e brilhantes como as de uma tarântula. Endireito meus passos e vou ao seu encontro. É um pouco mais baixa e graciosa. Quase um milagre. Baixa ou alta. Bonita ou feia. Suja ou limpa. Gorda ou tísica. Branca ou negra, a esta altura já sinto o mecanismo da solidão corroendo por dentro. Putas são girassóis girando dentro de nossa amargura de muletas. Trato de anotar esta frase que me vem á cabeça: Putas são girassóis girando dentro de nossa amargura de muletas...
"O que faz por aqui uma hora dessas, bebê?" Pergunta ela.
"Estou atrás do amor de uma puta." Falo desse modo porque já me encontro bêbado e mais gaiato. Ela desgruda-se da parede rugosa do prédio e me examina dosm pés á cabeça com a sedução nos olhos, orgasmo nos lábios e a falta de respeito que só as putas sabem demonstrar. Olho bem pra ela que parece ter saído de um quadro machucado da vida. A vida é um mosaico de pancadas. Mas uma frase que me risca a mente e que também trato logo de anotar em meu bloquinho. Olha aquilo curiosa e pergunta:
"Você é pesquisador?"
"Pode ser. Logo ali tem um bar. Pago-lhe uma dose de conhaque."
"Não bebo conhaque."
"Uma cerveja então."
Comncorda e vamos ao bar que fica na esquina da XV com a Mauá.
C
conto: SUADOURO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
parte II - putas são girassóis girando dentro de nossa amargura de muletas
R
ua Mauá. Ou beco Mauá. Ou viela Mauá. Ou então Avenida Mauá. Quem se importa? Certas vias públicas fazem-me lembrar um grande reto cancerígeno expelindo cotidianamente sua larva de pus e seres microbiantes. Mauá é um exemplo disso: uma pequena artéria escondidinha no reto sujo de minha cidade. E caminhar sobre ela a qualquer hora do dia ou da noite, é caminhar sobre o dorso de uma mariposa que se debate, que agoniza, mas que teimosamente ainda expele seu veneno: o veneno do tempo da morte. Ela segue apressada. Não a morte. Calma. A prostitutazinha. Eu não tenho pressa. Já disse que nao tenho? Seguir ou não é uma questão de escolha. Nada na vida é uma imposição do destino. Tudo é uma escolha. A escolha está entre o bem e o mal. Entre a raiz e o nervo. Entre o sujo e o limpo. Entre a vida e a morte. Escolhe-se morrer e não nascer. A morte é ajustável. A vida, uma forma egoísta de adequação. O que buscamos no fundo é uma forma egoísta de se adequar e nada mais. Olho agora minhas mãos no escuro. Veias saltam das costas das minhas mãos. Esgotos gorgolejam. Sombras monstruosas de ratos escapelados correm para as galerias. Odores fétidos desprendem-se das paredes do tempo. E o tempo é este VELHO que me olha passar e se masturba. "Vem ou não vem?" A voz dela interrompe-me estes meus pensamentos que nunca vão se completar. Sou uma ponte sobre este abismo que não se completa jamais.
"Não sinto firmeza onde estou."Digo a ela quando lá chegamos.
do conto: "SUADOURO"
ua Mauá. Ou beco Mauá. Ou viela Mauá. Ou então Avenida Mauá. Quem se importa? Certas vias públicas fazem-me lembrar um grande reto cancerígeno expelindo cotidianamente sua larva de pus e seres microbiantes. Mauá é um exemplo disso: uma pequena artéria escondidinha no reto sujo de minha cidade. E caminhar sobre ela a qualquer hora do dia ou da noite, é caminhar sobre o dorso de uma mariposa que se debate, que agoniza, mas que teimosamente ainda expele seu veneno: o veneno do tempo da morte. Ela segue apressada. Não a morte. Calma. A prostitutazinha. Eu não tenho pressa. Já disse que nao tenho? Seguir ou não é uma questão de escolha. Nada na vida é uma imposição do destino. Tudo é uma escolha. A escolha está entre o bem e o mal. Entre a raiz e o nervo. Entre o sujo e o limpo. Entre a vida e a morte. Escolhe-se morrer e não nascer. A morte é ajustável. A vida, uma forma egoísta de adequação. O que buscamos no fundo é uma forma egoísta de se adequar e nada mais. Olho agora minhas mãos no escuro. Veias saltam das costas das minhas mãos. Esgotos gorgolejam. Sombras monstruosas de ratos escapelados correm para as galerias. Odores fétidos desprendem-se das paredes do tempo. E o tempo é este VELHO que me olha passar e se masturba. "Vem ou não vem?" A voz dela interrompe-me estes meus pensamentos que nunca vão se completar. Sou uma ponte sobre este abismo que não se completa jamais.
"Não sinto firmeza onde estou."Digo a ela quando lá chegamos.
do conto: "SUADOURO"
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
ontem recebi as visitas dos amigos Max Caracol e do poeta Rojjefferson Moraes. um dia agradável na companhia desses dois caras. Rojjefferson ainda peleja com a publicação do seu "POESIA-CRÔNICA", e o Max veio trazer-me um texto novo chamado "PRECISA-SE DE GATUNOS VIRTUOSOS - UMA FUSILAGEM EM 03 PARTES" - que ele pretende publicar no zine "A GASTRITE" (nossa mais nova invenção). ele também veio reacender a idéia de publicarmos a oitava edição da Revista Sirrose. Disse-me que esteve em Paricatuba com Adriano Furtado discutindo uma possivel retomada da revista ainda para o mês de março. me pareceu muito entusiasmado mesmo o Max. ao contrário de mim que já havia deixado muito claro alguns meses atrás que não daria mais pé continuarmos com a idéia da revista. e na verdade não vejo razão alguma de continuarmos com ela. mas isso é apenas uma decisão particular minha o que invalida ou não a possibilidade que continuarmos com ela. afinal de contas, a revista não me pertence e não sou eu que determino se ela deve continuar existindo ou não. se os colegas acham conveniente seguirmos com as edições, eu até me comprometo em ajudar enviando textos e participando dos eventos. não mais como antes em que me empenhava de corpo e alma correndo atrás de patrocinadores que nos ajudasse na compra da tinta e do papel da encadernação, colhendo e digitando textos dos camaradas, pressionando a gráfica na agilização da impressão da revista, organizando eventos, etc. tracei outras metas literárias para minha vida. há este romance que se tornou uma obsessão e que preciso terminar de escrevê-lo, além do quê, preciso pensar também o que farei de agora em diante da minha vida como escritor. o tempo é foda com a gente e eu já tenho 41 anos de idade. o mundo lá fora nem sequer sabe que eu existo. e cara, embora não pareça, eu tenho ambição, tenho sim, de um dia ser reconhecido como escritor.
as visitas de Max e do Rojjefferson regado a cerveja e alguns "peguinhas"de preto, me valeram a tarde e me deixaram de certa forma entusiasmado. e compensado. e vivo também. e com mais coragem. sim, com mais coragem sim, de fazer algo por mim, apenas por mim...
segunda feira - 10.01.2011
as visitas de Max e do Rojjefferson regado a cerveja e alguns "peguinhas"de preto, me valeram a tarde e me deixaram de certa forma entusiasmado. e compensado. e vivo também. e com mais coragem. sim, com mais coragem sim, de fazer algo por mim, apenas por mim...
segunda feira - 10.01.2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

(...) o bar era flácido. mas a vida também é flácida. e o tempo é flácido. e o universo todo ele é uma flacidez. um sujeito tosco e flácido nos serviu as bebidas: uma dose de conhaque negro pra mim e uma cerveja pra ela. dei logo uma talagada no meu conhaque e o líquido negro desceu rasgando por dentro. pedi outra dose e ela veio. com três doses de conhaque na alma e eu já estava naquele modelo. comecei então a dançar, uma dança estranha e descompassada que nada tinha a ver com a música sórdida que tocava. eu queria estar feliz e não me importava os motivos.
_ voce fuma também?" ela perguntou.
_ depende o quê? chegou bem perto de mim e sussurrou com uma voz amaciante de carne. _Mel. olhei para os lados. um corpo celestialmente imundo e pesado de homem desabou pesadamente sobre o balcão ensebado.
_nada contra.
apertou minhas bochechas flácidas e disse:
_vamos queimar um, então.
_onde?
_lá atrás, no estacionamento.
paguei mais uma dose de conhaque e acompanhei ela. queria estar com alguém custasse o que custasse. subimos então uma Mauá estreita e deserta. passamos pelos restos de uma puta que soluçava escorada em um muro. a solidão nasce dos charcos. contem em si o dialeto mais nobre da dor humana. é, eu havia pensado naquilo enquanto caminhávamos...
trecho do conto: "Suadouro"
terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Comecei o ano de 2011 indo a um concerto de flautas no CAUA. As operetas de Brahms, Bizet e Bach me machucaram bem a alma. Depois - é claro - fui ao Bar Castelinho rever alguns amigos de copo. Não consegui digerir legal a cerveja por senti-la terrivelmente quente. As pessoas que me cumprimentavam conseguiam se tornar insuportavelmente desnecessárias. Pensei em ir mais cedo para casa. Agora que estou morando longe, minha rotina mudou consideravelmente. Tornei-me um boemio diurno. O que não deixa de ser interessante. Tentei falar tolamente com alguem sobre o romance novo que estou escrevendo e ele resumiu tudo: "FraNZ é você: Homossexual e jogador. Sua noção de tempo é imperfeita." As coisas iam me irritando a medida que o tempo ia me engolindo. Fiquei um pouco sozinho no balcão olhando para uma hélice branca e enferrujada e comecei a duvidar de tudo. Até de mim mesmo. Eu era agora um espelho branco e de repente não existia nada do outro lado daquele espelho branco. A canção que eu ouvia era estranha e vazia. Puta de uma segunda feira. O dia é uma grande arena de morte. Um dia voce tá lá no meio dos porcos. Você tem quarenta e um e não mais vinte ou trinta e poucos. Tudo vai ficando para trás como poeira. Você tá lá simplesmente rindo no meio dos porcos, sendo como eles, morrendo como eles, sem esperanças ou com alguma esperança morta. Pasarinho machucado. Ninguém sabe o rumo da bala. Deus está lá em cima de nós com seu grande estilingue pronto para nos acertar e depois ir dormir ou se masturbar. A morte dança alegre e eu flerto com ela nos meus sonhos acordado.
não aguento mais isso aqui!
paguei a conta e caí fora.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O HOMEM QUE PERDEU O CU - CAPÍTULO V

uma amiga insistiu tanto que eu publicasse um capítulo da novela que estou escrevendo que acabei concordando. Aí vai então:
CAPITULO V – UM COLÓQUIO COM O CU NUM BOTECO SUJO ANTES DE DESCEREM AO PUTEIRO.
Bom, não vou entrar em detalhes, mas era um botecozinho desses bem chinfrin, bem nojentinho mesmo. O Cu arredou sua cadeira para mais junto de FraNZ, olhou bem dentro de seus olhos e disse:
_Você é Hilda, o autor de O LIVRO DOS DESEJOS ANAIS, não é mesmo?” FraNZ não disse nada, apenas que sorriu desconsertadamente como um dos sinos desafinados da Igreja dos Remédios.
_Não adianta me esconder nada, rapaz, eu sinto essas coisas exteriores. Disse o Cu. Franz TRIS-TO-NHA-MEN-TE DOIS PONTOS “Se não convenci um Cu de minha representação, não convencerei nem mesmo a própria academia.
_Você não precisa convencer ninguém. E eu não sou um Cu. Eu sou o Cu. E ao contrário do que se imagina, todo Cu tem um nome. O meu é Barros. Barros de Alencar.e Silva. Muito prazer!”
_ FraNZ, prazer!!
FraNZ ficara mesmo meio sem jeito ao cumprimentá-lo. A moça com uma verruga enorme no nariz e que trazia a cerveja, fingiu cinicamente que aquilo não estava acontecendo, assim como também fingiu sua vida inteira que aquela verruga enorme e feia em seu nariz, nunca existira. Moscas azuis sobrevoavam curiosamente o Cu. Mas ele parecia não se importar. Era ficha limpa.
AGORA DÊEM-ME SÓ UM SEGUNDINHO PARA PENSAR NA FRASE SEGUINTE RETICENCIAS
Bom, é isso. Olhando ao redor, O Cu que se chamava Barros de Alencar. e Silva, falou com nostalgia:
_ Víamos sempre aqui, o velhinho e eu, discutir literatura clássica. Ahh, um saco, todo aquele papo helênico. Você me libertou e agora devo tudo a você, FraNZ, querrido.
PORRA, O CU COMO OS OUTROS TAMBÉM ARRANHAVA O “N” E O “Z” E AINDA POR CIMA HAVIA AQUELE ERRE DOBRADO E FRANZ OBVIAMENTE COMEÇARIA A DETESTAR AQUILO.
Franz desfilou aquele gestozinho clássico com a mão direita porque FraNZ era destro, tipo TRAVESSÃO Ora quê isso, esquece _Sério mesmo, o velhinho era um saco, e digo-lhe mais, vivi todo esse tempo na bosta daquela academia servindo aquele velho escroto no meio de toda aquela gente escrota, e portanto chata; uma vida toda desperdiçada, vivendo na mais absoluta escuridão pueril e enferma de ideias e palavras reinantes naquela merda de academia.
_ Bom _ FraNZ ia dizer _ Fico contente em ajudar OU então mas eu não fiz nada, mas Barros de Alencar. e Silva o interrompeu dizendo:
_Não, você não entende querrido, sua alma é livre e você me libertou, e agora me sinto culpado por não ter dinheiro para pagar nem esta cerveja, é que o velho era misarento e não me deixou um único centavo RETICENCIAS TRISTES
E MAIS, SE O CU TIVESSE MÃOZINHAS TERIA ENFIADO ELAS EM SEUS BOLSOS IMAGINÁRIOS SIMULANDO DUREZA E TAMBÉM TERIA FEITO AQUELA CARA DE MUXOXO, MAS FRANZ ENTENDEU PERFEITAMENTE PORQUE FRANZ JÁ PASSARA POR ISSO, ANTES DE SE TORNAR UM PROFESSORZINHO DE ENSINO MÉDIO COM UMA ÚNICA CADEIRA E MAL PAGO (...) IDEM A MAIS
_ Esquenta não! Deixa que eu pago. FraNZ disse.
_ FIIIIIUUUUU O Cu assobiou animadinho pedindo outra: _FraNZ meu querrido, quero ouvir mais de você... e não me venha com teorias, Á MERDA COM TEORIAS.
O Cu parecia mesmo excitado.
_ Não tenho muito o que falar de mim, apenas que escrevo para poder suportar o fardo da vida. _ Os olhos do Cu brilharam. Um ventilador de teto ordinário de marca paraguaia girava sobre suas cabeças. Algumas poucas pessoas incomodadas pelo odor que se espalhava pelo botecozinho, retiravam-se dali em silenciosos protestos. FraNZ olhou pela ultima vez a verruga enorme e feia no nariz da garçonete e jurou que nunca mais olharia aquilo outra vez enquanto ele permanecesse naquele lugar espeluquento. Aí o Cu desandou a falar ES-PAS-MO-DI-CA-MENTE: _ FraNZ, meu querrido, anote bem isso: “A VIDA É UMA TELA VANGOGHIANA MAL FEITA E MAL COMPREENDIDA”, você tem brilho, talento, meu rapaz, não precisa mais se esconder atrás dessa máscara de Carlitos, seja você mesmo, deixe o seu Cu falar por si, FraNZ, vivemos a época do esvaziamento criativo, da falta da compreensão anal, veja o Joyce, por exemplo, ele ainda é o que é hoje porque deixou seu cu falar, deixe o seu cu falar FraNZ, temos muito o que dizer e o que ensinar, é preciso dosar as coisas, amar e perverter, você está anotando isso, querrido, não está? o amor sem a perversão não existe, e você está no caminho certo, os escritores de hoje precisam abrir seus cus e viver a plenitude do amor e da perversão, o amor não está somente na penetração, não é apenas quando se mete, mas quando se tira também, a palavra é um grande esporão do amor, deixe que ela repouse dentro de você depois de gozar, porque a pressa? a pressa não existe para os amantes, não é mesmo? ela não nos permite chegar a nenhum lugar, FraNZ meu querrido, você me libertou e eu não posso nem pagar-lhe uma cerveja, mas veja bem, estamos bebendo nessa espeluncazinha minúscula e fedida, mas podemos ainda beber em outro lugar mais amplo, que tal, só que não tenho dinheiro, o velhinho era misarento, não me deixou nada, eu catei seus bolsos, você viu, mas ele não tinha mais nada, ele se foi para sempre devendo as pessoas e o mundo, tentei ajudá-lo direcionando-o a uma escrita mais livre, mas ele era teimoso, nunca me ouvia, é um problema dos escritores de hoje, não ouvem seus próprios cus, nos subestimam, para eles somos apenas uma pequena peça do mecanismo fisiológico que faz a máquina humana funcionar, mas nós pensamos e jogamos também de forma diversificada, escrever não é só uma questão racional, é ter a carta certa nas mãos certas, é saber girar a roleta, é dar um novo corpo ao mundo, lembra-se de Dostô, ah, o nosso velho Dostô, este sim sabia jogar e ouvir o próprio cu, quanto mais se perde mais se ganha, GRIFO MEU, NÃO, DE FraNZ, NÃO, DO CU, OKEI OKEY, MEU MESMO AH, QUE DIFERENÇA FAZ. AH, FraNZ, vamos aos puteiros, o velhinho não era apreciador desses lugares, tratava-se de uma alma ranzinza e bastante recatada, e acredite, ia à Igreja aos domingos e me fazia ouvir My Way, um beato, agora imagine FraNZ, todos esses longos e torturantes anos levando uma vida chata, a escrita é livre, imploda mesmo as fibras arquitetônicas do dizer velho, as hierarquias morais, o homem é uma pequena amostra da infelicidade, e daí, foda-se, se um dia você acabar sozinho e cego, não acredite na escuridão, as palavras seguem a voz de dentro.
E ELE ENCERROU DIZENDO
a vida não é uma novelinha barata, FraNZ querrido, a vida é um romance puro, este século não vai nos cheirar, esqueça a academia, vamos aos puteiros!
E CAÍMOS FORA DALI
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
KEROUAC - O VIAJANTE SOLITÁRIO

(...) "ASSIM, AQUI ESTOU EU AO ROMPER DO DIA EM MINHA CELA SOMBRIA, faltando 2 1/2 horas para enfiar o relógio de ferroviário no bolso dos meus jeans e cair fora..."
terminei de ler esta manhã o "Viajante Solitário" do Jack Kerouac. meu livro de cabeceira desde que mudei-me para cá. o devorei em três dias. um livro delicado, humano e generoso. ahh, queria ser Jack Kerouac. ter sua coragem e sua espontaneidade no trato com as palavras. ter esse sopro, essa tragédia doce da vida. mas Kerouac foi um viajante de estradas. sem pátria. um vagabundo iluminado das estradas abertas e perdidas da vida. um vagabundo em extinção. u eu ainda estou ancorado no meu cais de pedra. imóvel. transparente. emfim. li quase todas as suas obras e sempre quando algo novo seu vem á tona, trato logo de inteirar-me do assunto. como é o caso de uma peça que foi publicada recentemente numa versão espanhol junto com uma nova edição de Junkie, do Burroughs. a peça, como não poderia deixar de ser, é também autobiográfica. aliás, toda sua obra, desde a poesia, até a prosa e teatro, são triunfos autobiográficos. história de uma geração. sua escrita pessoal centrada numa busca pela verdade e pela iluminação, é contagiante e inspiradora. essa força espiritual que se dá através de sua escrita, atinge o universal, o que faz dele um grande escritor, o melhor, ao lado de Jack London e de Fante. e aqui me refiro apenas á literatura americana.
"Visões of Cody", que é um tijolão, é um livro que até hoje não consigo largar. parece que cada vez volto á leitura daquelas páginas surrealistas, mas me deparo com algo novo e deslumbrante a ser revelado, talvez por ser o livro mais experimental - depois de O LIVRO DOS SONHOS. Visões of Cody é outro livro desse autor que recomendo aos meus amigos. A obra chega a superar - e essa é minha opinião particular - o então clássico ON THE ROAD, o mesmo que o colocou no panteão dos imortais da literatura americana, mas que por outro lado, foi um livro considerado injustiçado por ter sofrido várias amputações, para que ele fosse publicado. tive o privilégio alguns anos atrás de ler na internet um trecho de um dos rascunhos originais de On the Road, E CARA, é de uma fruição verborragica visceral impressionante. Lembra "Finnergan Awake" o o próprio "Ulisses" do James Joyce, no sentido da descontrução e do experimentalismo linear da narrativa; uma espécie de reminescencias proustianas com fortes doses de alcool e mescalina.
o "Viajante Solitário" é um livro que trata de um tema aparentemente comum: viagens. viagens que percorrem o sul dos Estados Unidos de costa a costa, atravesando todo o México, chegando até Marrocos, Paris e Londres, abordo de navios e trens de carga (Kerouac foi lavador de pratos de navios, limpador de convés de cargueiros, empregado de posto de gasolina, vigia florestal e também jornalista)A sua viagem não é uma viagem commum. Trata-se de uma viagem pelos meandros da vida em busca da verdade ou de um sentido universal. o propósito do livro como ele próprio afirma, é simplesmente poesia, ou meramente uma descrição natural da vida.
a literatura de Kerouac é uma literatura essencial e obrigatória para a geração presente.
(...) não há nada mais nobre do que aturar algumas inconveniências como cobras e poeira por amor á liberdade absoluta. Eu próprio fui um vagabundo, mas só até certo ponto, como se vê, porque sabia que algum dia meus esforços literários seriam recompensados com a proteção social - não fui um vagabundo autêntico, sem esperanças, exceto aquela eterna esperança secreta que se adquire dormindo em vagões vazios que atravessam o vale de Salinas sob o sol quente de janeiro cheio de Dourada Eternidade...
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