sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

FINAL - GRANSCY DE VOLTA A ORIGEM


Granscy fez sozinho o trajeto de volta da torre. Alcançou a plataforma mais próxima e comprou o seu bilhete. A ânsia de voltar para casa era por demais. Não tinha mais cigarros e por isso estava desolado. Só queria voltar para casa. Para o vazio de tudo; para o vazio das linhas que sempre pontuaram sua vida até ali. Sentou-se abatido e olhou abestalhado as plataformas. Pessoas entrando e saindo. O sentido da vida não estaria no breve fluxo metafísico do ir e vir dessas pessoas? Refletiu no instante em que uma voz metálica anunciava o próximo expresso que partia. Ele conferiu sua passagem e caminhou para lá. Num planoseqüência, observou os rostos brancos e apreensivos dos passageiros. Intuiu-lhe algo. A nave partiu atirando os corpos para trás. Ao passo de algumas horas, aconteceu o que ninguém queria. A nave fez um desvio entrando nas regiões ondulatórias da Experimental-Quantum. Houve gritos e protestos. Granscy foi sentindo estranhas modificações de ordem hormonal, a começar pela ânima feminina azunhando-lhe a epiderme. O rosto, ganhando contornos delicados, alongava-se um pouco mais. Emergiam peitinhos atrevidos fazendo escândalo. Não sentia tanto a perda dos pêlos, pois que sempre lhes foram escassos por natureza. Viu-se assustado, olhando sem graça para os lados. Um homem acompanhava curioso aquela transformação. Houve uma forte turbulência em razão do novo fluxo atemporal que aqui traduziremos como: Desvio de Destino.

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

Piscavam luzes intermitentes alertando.
Granscy sentiu cólicas e foi ao banheiro. O estranho homem a seguiu. Frente ao espelho, acariciou a pele alva, a maciez da carne, os mamilos intumescidos... Uma vasta e negra cabeleira descia-lhe mansa sobre as omoplatas. Sorriu. Os lábios pediram batom. Ornou-os sem exageros. Um pouco de blush no rosto, também. Fez trejeitos, girou nos elegantes saltos e por fim refletiu acerca de seu novo hospedeiro. Foi quando ouviu uma voz atrás de si:
– Hylda!!! – Virou-se surpresa dando com um sujeito parado na entrada do banheiro. Trajava paletó cinza (velho e surrado por sinal) e um chapéu de paraíba na cabeça. No rosto, um feio talho na diagonal. Ela quase riu. A presença dele pareceu-lhe um Deja Vu.
– Tão breve é a beleza, enquanto a morte vem inteira. – Disse ele sorrindo. Os dentes em ruínas.
– O que o senhor quer, afinal?
– Acompanho todo o processo.
– E daí?
– Daí que as palavras não valem nada. São nossos pecados jogados no lixo.
- Ixi! – Avizinhou-se dela agarrando-lhe grosseiramente os bracinhos.
– E digo-lhe mais, meu botãozinho. A poesia mente. Ela nada mais é que um grande vácuo que nos chupa a alma.
– O senhor é muito escovado, isso sim.
– No fim da grande reta há sempre o vácuo que nos espera.
- Credo!! Desvencilhou-se dele fugindo às pressas.
– Mas também vendo no atacado, cremes anais e removedores de pêlos. – Gritou.
Bastante aturdida, Granscy, que agora descobriu-se Hylda, por intermédio do homem da cicatriz, não fazia a mínima idéia de como tudo aquilo acabaria. Embora, tão óbvio fosse o seu desfecho, como a cegueira é na velhice e a crista de galo na juventude
A nave entrou na Esfera-Quantum. Um grupo de Glumps-Glumps pulavam e gritavam:

“O SOL É VERDE!” O SOL É VERDE! O SOL É VERDE!”

Pulavam nos assentos e batiam suas cabeças umas nas outras. Um Muloch esperto transformou-se numa pulga. Uma outra subespécie qualquer jurava ver Cristo de olhos apagados no final de um balcão de bar. Á estereozofrenia era total. Á Granscy, coube apenas a breve reflexão de que todo esse tempo ele não buscava outra coisa além de si mesmo.
Tampou os ouvidos fechando os olhos. Havia algo em seu rosto. Não era medo. Tampouco raiva ou tristeza. Quem sabe uma certa incompreensão serena do que foi a vida, aliada agora a uma repulsa estética do que viria ser a morte.

“tão breve é a beleza,
enquanto a morte vem inteira.
no fim da grande reta,
há sempre o vácuo que nos espera.”

Foram essas as palavras.

A nave efetuou um ligeiro “looping” despencando de vez no grande abismo de lábios leporinos.


para Diego Moraes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VI - APÓS O COITO COM A ANÀ GRANSCY DECIDE PÔR FIM A SUA BUSCA E RESOLVE VOLTAR PARA CASA, SEM ANTES SER INTERPELADO PELO HOMEM DA CICATRIZ



Deitado ao lado da anã, Granscy tentava a todo custo entender aqueles símbolos pictográficos no teto da cúpula:
–O que representam afinal, todos estes símbolos?
Ela aproveitou para descolar o ultimo Flywin dele. Logo a sala impregnou-se de vapor barato.
–São os muitos circuitos da consciência humana, manejada pelo Deus da sabedoria e artes mecânicas. – Respondeu.
–E todos aqueles animais?
–São os ancestrais da alma. – Granscy coçou o queixo alongado.
–A arte é mesmo um combate... – Sussurrou. A anã olhou pra ele surpresa.
–Quem lhe disse isso?
–Um impressionista. – Reinou um breve silêncio.
–O que fazia antes de se meter nessa confusão toda? – Quis saber ela.
–Escrevia um livro.
–Um livro?
–Sim, um livro.
–E o que aconteceu?
–Rosa, a companheira, descobriu e me abandonou. Não suportando a perda, me rebelei mergulhando de corpo e alma no Dash. Um dia, abusei demais e quando acordei me achei nessa curvatura.
–Acha que encontrando a tal Hylda, seu sofrimento estará resolvido?
–Uma boa parte dele, creio que sim.
–Um homem nunca é feito de partes. Somos a projeção de um todo.
–Mas as partes não fazem um todo?
–Não quando elas são distorcidas. Uma questão bifocal da alma. Da consciência da alma.
–Mas e a razão?
–Não descarto aqui a razão, que também é bifocal.
–Razão e alma bifocais?
–Sim.
–E a verdade?
–Impura.
–E os instintos?
–Verdadeiros, pois que são meras trocas de interesses.
Granscy tornou a coçar o queixo longo.
–Você é Hylda, não é?
–Já disse que não.
–Como se chama então?
–Íris.
–E Hylda? Quem é Hylda?
A anã que se chamava Íris atirou com elegância o toco de cigarro para o alto.
–O que vai fazer quando sair daqui?
–Já nem sei mais.
–Se resolveres voltar para casa, e por alguma razão atravessares a Experimental-Quantum, vai descobrir tudo.
Granscy vestiu-se apressado. Íris olhava para ele como uma garotinha chorosa.
–A Experimental-Quantum ainda é uma nebulosa. Um risco a que todos nós corremos.
–Que seja, mas eu preciso voltar.
–Voltar para onde?
–Para casa. Hylda não existe e tudo isso aqui é uma porra onírica. Tenho mais o que fazer.
–Então me beije e vá!

Granscy beijou Íris e partiu.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

V - GRANSCY FAZ AMOR COM A ANÃ NA CÚPULA GEODÉSICA DO POLÍGONO g.



Advertência: Capítulo desaconselhável às mães.

Não me perguntem como, mas a astúcia da anã aliada ao imenso desejo de possuir Granscy a levou burlar a segurança do Polígono g, colocando em risco tanto a sua vida como a do nosso herói. Mas eis que enfim, ali estavam eles.
A torre era alta demais, de modo que nenhum olho humano conseguia ver lá debaixo o seu cume que desaparecia no firmamento tragado pelas densas nuvens de clorozyl. A torre tinha lá a sua história. Foi construída a custa de muito suor e sangue dos anões, mas que ao longo do tempo souberam relevar o fato e hoje sua construção é motivo de orgulho para todos eles. Prova maior dessa estranha veneração era o belo canteiro em volta da torre que os próprios anões construíram e que a cada 01 de maio de cada ano, depositam girassóis em razão de seu aniversário.
Outro aspecto interessante e que também envolvia a torre, constituindo-se, portanto, um grande enigma, era o objetivo de sua construção. Ninguém sabia ao certo explicar o porque e o pra quê de sua existência. Várias correntes teóricas foram levantadas, dentre elas, duas das mais interessantes e engraçadas são sem dúvida dos Mulocs e a dos Glumps-Glumps. Os Mulocs, por exemplo, acreditavam piamente que a torre fora construída para que a espécie humana se aproximasse de Deusnada, o que para eles era uma grande blasfêmia. Já os Glumps-Glumps, talvez para sacanear os Mulocs ou porque eram ingênuos ou burros mesmos, diziam que a torre fora construída para salvar a todos da grande maré profetizada. A verdade é que ela mantinha-se ali, firme, ereta, como um falo imponente com medo de ficar impotente, resistindo bravamente às intempéries do tempo e as especulações do homem moderno.
Para se escalar os incontáveis andares da torre e atingir sua cúpula geodésica, portanto, só era possível através da bolha panorâmica acrilizada puxada por grossos cabos de juta fibrosa. A anã acionou o dispositivo e a bolha pôs-se em movimento subindo bem lentamente. A medida em que a bolha subia Granscy via com os olhos marejados a cidade miniaturizar-se lá embaixo. As chaminés dos módulos-fábricas, em formas de narinas dilatadas, apontadas para o céu, funcionavam á todo vapor expelindo fumaças de clorozyl desenhando no ar espectros diabólicos de mães a confabularem entre si. A anã inclinou-se um pouco baixando com a boca o zíper da calça folgada de Granscy:
– Quê cê tá fazendo? – Perguntou ele, surpreso.
– Relaxa... – Um sorriso maroteou-lhe o rosto.
– Bem que me disseram que os anões são vulgares.
– Tisc-tisc-tisc-tisc-tisc-tisc... não senhor. Somos apenas seletivas. – Retrucou ela com o membro rijo de Granscy tufando-lhe a lateral da boca. Um dos espectros de mães horrorizou-se:
– Pois veja! Ela está chupando ele! Que horror!
– Mas ele não gostava não era de tubos vasculares? – Indagou um segundo espectro em espiral.
– Que eu saiba, meu filho sempre apreciou as ostras. – Interviu um outro.
– Mãe? – Granscy a reconheceu pela verruga na ponta do nariz. – É que ele está nervoso, coitado. É a primeira vez dele com uma anjã, e nós que somos mães, convenhamos, não é nada fácil para um filho copular com uma anã, ainda mais com talydomida.
– Um pederastazinho, isso sim. Nunca me enganou esse rapaz. – Tornou o segundo espectro.
– Os filhos sempre esconderam de suas mães os instintos mais abissais da carne. – Contornou o primeiro.
– Por isso sofrem seus desígnios. – Atalhou o segundo.
– Não é o caso de Granscy, por certo. O cerne de sua formação sempre foi religiosa. Enterrei minha vida toda para criá-lo; para vê-lo crescer. Tornar-se homem. Não vamos culpar as curvas do tempo que delineiam as nossas vidas, pois que o próprio tempo tem suas retas a que todos nós devemos retomar. As mães passam, mas os úteros ficam. É a mais pura verdade. – Dito isso, os espectros fundiram-se num único e denso vapor de clorozyl assemelhando-se a um imenso útero de Hiroshima. De olhos esbugalhados ante a pantomima dantesca daqueles fantasmas maternos, Granscy por um instante cogitou ainda estar sob o efeito de Hidrofyl. Foi preciso uma leve mordidela na cabeça de seu pênis para colocá-lo ciente de que tudo aquilo era verossímil, como também para alertá-lo que haviam chegado à cúpula.
A anã tomou Granscy pelo pênis e o conduziu para dentro da cúpula. Ele sentia o corpo congelar e respirava com dificuldades. Ela nem tanto, pois que parecia acostumada à pressão. Uma vez lá dentro, as luzes foram acessas e os pressurizadores todos ligados. Granscy não contava mesmo com o esplendor do lugar, a começar pelas altas colunas de marfim e bronze em cuja pureza geométrica ostentavam em seus cumes, címbalos e harpas com cabeças humanas oriundas do Gabão.
– Vem, filho, vem! – A anã despia-se com desespero. Ele com os olhos calmos e maravilhados de um De la Croix, passeava a vista pelo teto abobadado da cúpula, toda ela ornada de afrescos primitivos; pinturas protagonizando povos chegando de hemisférios distantes, faunas variadas de estranhos antílopes, zebus e serpentes do estreito de BauhausS.
– Vem, querido! A arte espera.
Crocodilos alados e aves gigantes do extinto Congo, como também Dromedários e Guarás das dobraduras de Gaza.
– Cuida, querido!
Tribos inteiras de Pigmeus do vale do Nniger e Vanwatus´s evoluindo num éden exótico e perturbador.
– Benhêêê...
Qabalahs diversas, símbolos criptográficos e estrelas que nasciam e morriam no fim de espirais cósmicas. Tudo numa profusão de cores de força e alma intemporal. Jurar-se-ia poder ouvir os tambores primitivos rufando das entranhas daqueles desenhos vindos do céu.
– Vem, amor! Estou pronta.
Moveu o olhar para a anã que de quatro, no chão, chamava por ele. Despiu-se e foi ao encontro daquela pequena massa de mulher, puxando-a em seguida para perto de si, iniciando o que seria um Kamawhee.*1 Experimentariam todas as posições inimagináveis do reino de Vatyssuana. Alegres atabaques soavam hipnóticos na mente de Granscy. O ritmo acelerava á medida em que ele também acelerava as estocadas. Estocadas que por vezes arrancavam da anã, gritos lancinantes de dor e prazer.
– Mais fundo, bebê! Mais fundo! mais fundo! mais fundo!
Rolou por sobre ele sugerindo uma Hipotenusa seguida de um Pa de Deux. Parecia gostar daquelas posições, pois que gozava à cântaros. Sabedor de seu inevitável priapismo, Granscy obedecia mantendo-a firme, no encaixe. Após o derradeiro coito, os dois amantes ainda permaneceram acoplados por horas a fio, como dois estranhos batráquios. Pareciam perfeitamente sincronizados.
Os tambores, enfim, cessaram de rugir.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

IV- GRANSCY NA CIDADE DOS ANÕES




Granscy deixou o expresso £££ descendo apressado as enormes escadas de metais em formas de espirais ondulantes, ganhando as ruas constipadas pela chuva de corante acidosférica, que caía lentamente. Para se chegar a Cidade dos Anões, ele ainda tinha que percorrer alguns quarteirões de uma alameda úmida que se estendia de um ponto a outro. Uma alameda ornada por Domos de acrílico sobrepostos cobrindo o que um dia deveria ter sido uma avenida qualquer.
Ele então cruzou um mini-arco de luz néon e deu com um vilarejo único e estreito assediado por casinhas engraçadas feitas de alumínio e latão. Já poder-se-ia ver alguns anõeszinhos zanzando como baratinhas tontas, por ali. Localizou o que parecia ser um Lupanar, e seu chip almanizado iluminou-se. Entrou, indo aboletar-se numa mesa pequena e ignóbil. Sentiu-se ridículo, mas alguém ali poderia lhe informar sobre Hylda. Não estava ali por essa única razão?
Os anões se entreolharam. De estranhos naquele lugar só mesmo Granscy e um ciclope que bebia solitário na outra mesa. Um casal de anões, referindo-se ao ciclope, se indagava:
– Quem me garante que ele não é um Muloc?
– Não, não é. Ele está chorando, vejam!
De fato o ciclope chorava. Ouvia Azavour e chorava. Um anão albino aproximou-se da mesa de Granscy:
– O que o senhor deseja beber, moço?
– Quero algo forte.
– Temos Hydrofil, pode ser?
Granscy, confuso, coçou o cocoroto.
– S-sim, pode. – E até gaguejou.
O anão albino sumiu por uma portinhola e Granscy ficou a olhar o lugar. Sacou da carteira um Flywin amarrotado e passou a fumá-lo com elegância. Olhava os anões que ziguezagueavam curvos e tristes solidarizando-se com a dor do ciclope.
O bar fedia a anões. Anões de todas as espécies; de cafetões a uma variedade estranha de traficantes de sonhos e ilusões. Foi lhe servido o Hydrofil. Ao contrário das outras substâncias que eram ingeridas por via oral, o Hydrofil tinha sua peculiaridade, pois que era inalado por tubos finos de borracha sintética e em seguida expelido delicadamente e sem pressa, impregnando os espaços em derredor com um doce aroma de hortelã absintico e papoulas embriagantes. Ultima moda vindo da China. Ele experimentou. “O que eles ainda faltam inventar”. – Sorriu Granscy. Uma anãzinha vestindo couro e botas sintéticas emergiu das sombras de néon e foi sentar-se à mesa dele:
– Hummmmm... Hydrofil. – Observou a anã que tinha olhos pequenos e insinuantes.
“Puta merda!” Espantou-se Granscy ao reparar que a anã era portadora da Talydomida.
– O rim como o amor ainda filtra direitinho. – Defendeu-se a anã, filosofando. O ciclope pagou a conta e deixou o Lupanar. Um Ba-Tech muito doido começou a tocar parecendo anunciar o fim do mundo. Os anões sob efeito combinatório de Hydrofil e Benzoclina rodopiavam alucinados no meio do salão.
– O que o moço procura? – Perguntou a anã com talydomida.
– Pra ser sincero, ainda não sei.
– Todos nós procuramos por algo que não sabemos, é verdade.
Granscy cerrou os olhos. – Talvez esteja procurando a si. – Complementou a anã. Por um momento ele refletiu sobre aquilo, mas aí, caindo em si, lembrou-se:
– Ah, sim, recordo. Procuro por Hylda.
– Tisc tisc tisc tisc tisc tisc tisc – Onomatopeou a anã. – Não procura, não. Hylda é apenas um subterfugiu que o mantém existindo. Só mais uma fuga.
– Não, não é não. Ela tem as informações a que busco. Vai me ajudar a salvar a cidade do caos. – Granscy agitou-se nervoso quase derrubando seu Hydrofil.
–Você precisa salvar a si, não aos outros.
Daí em diante tudo começou a girar bem devagar. As feições da anã ganhavam feições variadas, indo do belo ao horrendo. O som Ba-Tech emitia agora o som de um obturador cutucando um nervo do dente
–O que quer é me confundir. – Falou ele pra anã. – Me ajude a encontrar Hylda, por favor!
–Faça amor comigo na cúpula geodésica do polígono g. Não busco muito. – Propôs a anã. É claro que para Granscy era impossível imaginar-se copulando com uma anã, ainda mais com talydomida. Mas será que havia outra escolha?
– Prometo depois deixá-lo em paz para prosseguir com sua busca. Talvez consiga ser o que realmente busca ser. – Concluiu ela.
- Sou o que sou. – Rebateu ele.
– Nem sempre somos aquilo que pensamos ser. Há um descontentamento geral com o que somos ou com o que representamos.
- Você é Hylda, não é?
– Claro que não!
A anã arrastou Granscy para o meio do salão e o convenceu a dançar um Transe-Tech que era uma combinação Hindu-Afro-High-Tech duas vezes mais potente que um Ba-Tech causando fortes vibrações captadas pelos tímpanos sob pressão hidrosphérica. Granscy desparafuzou-se. Saltava alucinado do chão jogando os braços para o alto em movimentos rápidos e alternados, tocando o queixo alongado nas extremidades de seus ombros largos. Os anões riam de Granscy sem sequer imaginarem que ele estaria ali revolucionando e tornando moda uma nova forma de expressão corporal. Não sei precisar ao leitor quanto tempo Granscy e a anã ficaram ali naquela dança gamulustérica, mas, uma coisa posso lhes afirmar com veemência, o lupanar e a vida
daquelas criaturinhas nunca mais foi a mesma...

III - GRANSCY NA PLATAFORMA "B"



Era intensa a agitação na plataforma “B”. Um Muloc pregava as palavras de DEUSNADA com as veias saltando do pescoço. Vale aqui ressaltar que o que diferenciava os Mulocs dos Glumps-Glumps, além de sua crença estúpida, eram seu porte ereto, esguio e a facilidade com que metamorfoseavam-se em tudo aquilo que desejavam ou acreditavam. Os Glumps-Glumps por sua vez, eram baixos, brincalhões, e tinham barbatanas. Não chegaram a um grau de metamorfoseação devido um grave erro durante o processo de vitrificação, ocasionando-lhes sua disfunção genética. As demais espécies pseudo-evolutivas viam os Glumps-Glumps como seres idiotamente felizes. E na verdade o eram. Já os Mulocs eram vistos como seres sisudos e chatos. Pois bem, Granscy acendeu um Flywin e aguardou junto a um aglomerado de gente. A sua direita, uma mulher se desmanchava em prantos desfiando um rosário de sentimentos e rancor com a vida. Um ancião tentava consolá-la:
- O que ela tem? – Quis saber Granscy.
– Vai parir um Glump-Glump. – Granscy piscou várias vezes. Alguém que estava perto e ouviu, horrorizou-se. Fez uma ligeira genoflexão e se afastou às pressas.
– E isso não é bom? – Tornou Granscy.
– Claro que não! – O ancião ecolerizou-se.
– Então por que não tentam o aborto?
– Aborto? Em que mundo e em que tempo o senhor vive? – Granscy não soube responder.
– Daremos um jeito nisso ou pediremos clemência ao Grande Pássaro. – Disse o ancião já mais calmo.
O imenso painel eletrônico anunciava em letreiros tridimensionais a chegada do expresso £££. Todos se apressaram para embarcar. Granscy nunca tinha visto tanta gamulusteria desde o último eclipse que fecundara o sol e banhara os oceanos. Uma vez acomodado no interior do expresso, ele beijou o retratinho 3x4 de Rosa e colou o rosto triste e cansado no vidro da nave. Leu uns dizeres pixado na lateral:
“PIOR QUE A DOR DE UM PARTO, SÓ A DOR DE UMA PARTIDA”.

Pensou em Rosa, é claro. Rosa foi para o Zaire sem promessas de volta. Pior que a dor de um parto só a dor de uma partida. É. A nave viajava pelos tubos de cristais enquanto ele refletia: Impressionante a velocidade da nave. Impressionante a velocidade de tudo; das coisas boas e ruins que nascem e se desintegram tão facilmente e tão fatalmente na mesma proporção e gravidez veloz da luz.

Lacuna para que os senhhores discorra dando prosseguimento à reflexão de Granscy.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

II - GRANSCY E O NOVO TEMPO

O que Granscy viu lá fora o deixou de certa forma maravilhado. Alguém havia mesmo mexido na planta.A cidade nada maos era que um entrelaçamento de tubos de cristais transparentes suspensos no ar servindo de vias para pequenas e grandes naves que transitavam velozmente indo e vindo dentro de fluxuogramas ensandecidos. Outra forma de desobstrução do caos e que também chamou a atenção do nosso herói foram os jatos propulsores preso nas costas dos transeuntes permitindo-lhes trafegarem livremente pelos céus.É claro que alguns dos usuários desses transportes alternativos - sob forte efeito dos metazoydes ou benzoclynas, ou até mesmo de halcaloydes mais levees - colidiam com os aerobus que por sua vez estavam com os dias contados, visto que se rornaram com o tempo, grandes, feios e obsoletos.Gramscy mesmo olhou para um deles que cortava o plúmbeo som numa lentidão idiota. Coçou o nariz e riu.Mirou o olhar na direção norte. O Grande pássaro estava lá. No alto da montanha, com seus pescoço comprido e olhos grandes e bobos.Vigiava a todos porque essa era sua função. A grande sentinela deixou ce ser HÁ muito tempo, o Grande Pêndulo.Com o advento e a ascensão do Grande Pássaro, ficou mais difícil burlar as leis ou criar novas formas de incestos. Para alguns foi sem dúvida uma mudança significativa. Pra outros não. Mas o quê Granscy tinha a ver com isso? Ele olhou as horas e foi até a esquina comprar jornal.Viu estampado em letras garrafais:

PASTELEIRO FAZ MAIS VÍTIMAS. DESSA VEZ, UM CLÃ INTEIRO NO QUADRANTE 9. A POLÍCIA AINDA NÃO TEM PISTAS DO HOMICIDA. POR ENQUANTO ADVERTE: "EVITEM COMER PASTÉIS".
pausas para risos





No entanto Granscy não achou nada engraçado. "Onde tem um bar decente por aqui?" Perguntou ao jornaleiro. "Logo ali, no Domo." Apontou com o beiço, o jornaleiro. Granscy olhou para um letreiro neon que piscava luzes intermitentes e se encaminhou para lá.No balcão, ele pediu uma dose de conhaque, o que provocou - é claro - risos de espanto no garçom jovem e franzino. "Conhaque? só servimos Benzentel, senhor." "BEN-ZEN-TEL?" "Sim, senhor, BEN-ZEN-TEL. E só em dose." "Então me vê uma dose disso aí." "Quente ou frio?" "Hein? - Granscy não entendeu. "Quente ou frio? Repetiu o garçom olhando-o de lado para ele, curioso. "Não dá para ser gelado?" "Frio, o senhor quer dizer, senhor. Como quiser." Foi então lhe servido uma dose de Benzentel.Granscy tomou um gole e fez uma careta. "De que raios é feito isso?" "Isto é uma UVA, senhor. UNIÃO DO VEGETAL DO AFEGANISTÃO."
Não tardou paras Granscy viajar nas imagens. Cismou com um sujeito que escondia-se debaixo de uma mesa. "Que diabos ele faz ali socado debaixo daquela mesa?" Por acaso, é algum Glump-Glump?" Perguntou ele ao graçom que ficava mais franzino. "Não, senhor. É só mais alguém envergonhado com sua existencia." "Hummm, deve ter cometido alguma falha, pois não?" "Todos nós temos as nossas falhas, senhor." Retrucou o garçom. A voz ficando cada vez mais inaudível. Passados alguns minutos, ele se dirigiu ao garçom mais uma vez: "Por acaso, sabes onde fica a Cidade dos Anões?" Expresso KYY, plataforma B.Creio eu que o senhor ainda não possui os propulsores em razão de serem caros, portanto, não aconselho os aerobus, embora sejam mais baratos, são lerdos e sujos e levam um dia todo para se chegar aonde se quer." A voz do garçom soara como uma fita sendo rebobinada. Aquele de fato teria sido um esforço imenso para o garçom que desintegrou-se virando pólem sobre o balcão de vidro do Domo. Granscy achou aquilo estranho e engraçado. Ficou ali drenando sua dose de UVA e distraindo-se um pouco com a TELECÉLULA que noticiava com exclusividade o último feito dos cientistas caucasianos. Comemoravam, pois, o clone do novo Papa. Um clone sem aberrações patogênicas,afetações dogmáticas ou coisas do gênero.
"Palhaçada!! Séculos de estudos e avanços científicos e eles ainda acreditam no processo de clonagem." Falou um holograma enfezado, de passagem pelo Domo. Embora houvesse causado um grande espanto em Granscy, ele não lhe dera muito ouvidos. Pagou a conta e deixou o lugar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

HYLDA


I - O CHAMADO


O CHAMADO ACONTECEU AS CINCO EM PONTO daquela manhã de maio arrancando-o de um sono doce e profundo. Viu tudo girando a sua volta; uma ânsia de vômito descia e subia-lhe à garganta. Vomitaria lodomusgo com toda certeza. E tudo por causa do Dash. Ou seria por causa de Rosa? A verdade é que vinha abusando do Dash desde a partida de Rosa para o Zaire. Agora já não havia mais volta.
O telefone seguiu tocando. Ergueu-se da cama e atendeu às cegas o aparelho. Seus movimentos eram lentos e holográficos:
– Siiiimmmm...? – A voz arrastada de um disco em rotação contrária. Era estranho.
- Mas que raios! Por onde andavas? Em que pé está o caso do pasteleiro? Já leu os jornais?
Granscy sacudiu a cabeça, confuso.
– Quem tá falando?
– Quem tá falando? Sabe muito bem quem tá falando. Quero que dê um basta nisso! Dou-lhe um dia.
– Mas... o que eu devo fazer?
– Procure por Hylda na cidade dos anões. Ela tem as informações. Ah, sim, evite os Mulocs e tome muito cuidado com os Glumps-Glumps, eles estão por toda parte. Outra coisa: não esqueça que a cidade mudou, o Grande Pássaro ascendeu e que os anões são vulgares. Tenha um bom dia. Adeus!
E desligou.
Granscy sentou-se atordoado à beira da cama. Uma luz rala e triste penumbrava o pequeno quarto. Alguém finalmente conseguiu metê-lo numa grande encrenca. Talvez tenha sido o homem da cicatriz. Seja lá quem for, pouco importava agora, o que ele precisava mesmo era esquecer o livro e retomar o caso, pondo fim aquilo tudo. Deu uma golfada de lodomusgo sujando as paredes bizantinas do quarto. Banhou-se e saiu para as ruas.