sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O HOMEM QUE PERDEU O CU - CAPÍTULO V


uma amiga insistiu tanto que eu publicasse um capítulo da novela que estou escrevendo que acabei concordando. Aí vai então:

CAPITULO V – UM COLÓQUIO COM O CU NUM BOTECO SUJO ANTES DE DESCEREM AO PUTEIRO.

Bom, não vou entrar em detalhes, mas era um botecozinho desses bem chinfrin, bem nojentinho mesmo. O Cu arredou sua cadeira para mais junto de FraNZ, olhou bem dentro de seus olhos e disse:
_Você é Hilda, o autor de O LIVRO DOS DESEJOS ANAIS, não é mesmo?” FraNZ não disse nada, apenas que sorriu desconsertadamente como um dos sinos desafinados da Igreja dos Remédios.
_Não adianta me esconder nada, rapaz, eu sinto essas coisas exteriores. Disse o Cu. Franz TRIS-TO-NHA-MEN-TE DOIS PONTOS “Se não convenci um Cu de minha representação, não convencerei nem mesmo a própria academia.
_Você não precisa convencer ninguém. E eu não sou um Cu. Eu sou o Cu. E ao contrário do que se imagina, todo Cu tem um nome. O meu é Barros. Barros de Alencar.e Silva. Muito prazer!”
_ FraNZ, prazer!!
FraNZ ficara mesmo meio sem jeito ao cumprimentá-lo. A moça com uma verruga enorme no nariz e que trazia a cerveja, fingiu cinicamente que aquilo não estava acontecendo, assim como também fingiu sua vida inteira que aquela verruga enorme e feia em seu nariz, nunca existira. Moscas azuis sobrevoavam curiosamente o Cu. Mas ele parecia não se importar. Era ficha limpa.

AGORA DÊEM-ME SÓ UM SEGUNDINHO PARA PENSAR NA FRASE SEGUINTE RETICENCIAS

Bom, é isso. Olhando ao redor, O Cu que se chamava Barros de Alencar. e Silva, falou com nostalgia:
_ Víamos sempre aqui, o velhinho e eu, discutir literatura clássica. Ahh, um saco, todo aquele papo helênico. Você me libertou e agora devo tudo a você, FraNZ, querrido.
PORRA, O CU COMO OS OUTROS TAMBÉM ARRANHAVA O “N” E O “Z” E AINDA POR CIMA HAVIA AQUELE ERRE DOBRADO E FRANZ OBVIAMENTE COMEÇARIA A DETESTAR AQUILO.
Franz desfilou aquele gestozinho clássico com a mão direita porque FraNZ era destro, tipo TRAVESSÃO Ora quê isso, esquece _Sério mesmo, o velhinho era um saco, e digo-lhe mais, vivi todo esse tempo na bosta daquela academia servindo aquele velho escroto no meio de toda aquela gente escrota, e portanto chata; uma vida toda desperdiçada, vivendo na mais absoluta escuridão pueril e enferma de ideias e palavras reinantes naquela merda de academia.
_ Bom _ FraNZ ia dizer _ Fico contente em ajudar OU então mas eu não fiz nada, mas Barros de Alencar. e Silva o interrompeu dizendo:
_Não, você não entende querrido, sua alma é livre e você me libertou, e agora me sinto culpado por não ter dinheiro para pagar nem esta cerveja, é que o velho era misarento e não me deixou um único centavo RETICENCIAS TRISTES

E MAIS, SE O CU TIVESSE MÃOZINHAS TERIA ENFIADO ELAS EM SEUS BOLSOS IMAGINÁRIOS SIMULANDO DUREZA E TAMBÉM TERIA FEITO AQUELA CARA DE MUXOXO, MAS FRANZ ENTENDEU PERFEITAMENTE PORQUE FRANZ JÁ PASSARA POR ISSO, ANTES DE SE TORNAR UM PROFESSORZINHO DE ENSINO MÉDIO COM UMA ÚNICA CADEIRA E MAL PAGO (...) IDEM A MAIS
_ Esquenta não! Deixa que eu pago. FraNZ disse.
_ FIIIIIUUUUU O Cu assobiou animadinho pedindo outra: _FraNZ meu querrido, quero ouvir mais de você... e não me venha com teorias, Á MERDA COM TEORIAS.
O Cu parecia mesmo excitado.
_ Não tenho muito o que falar de mim, apenas que escrevo para poder suportar o fardo da vida. _ Os olhos do Cu brilharam. Um ventilador de teto ordinário de marca paraguaia girava sobre suas cabeças. Algumas poucas pessoas incomodadas pelo odor que se espalhava pelo botecozinho, retiravam-se dali em silenciosos protestos. FraNZ olhou pela ultima vez a verruga enorme e feia no nariz da garçonete e jurou que nunca mais olharia aquilo outra vez enquanto ele permanecesse naquele lugar espeluquento. Aí o Cu desandou a falar ES-PAS-MO-DI-CA-MENTE: _ FraNZ, meu querrido, anote bem isso: “A VIDA É UMA TELA VANGOGHIANA MAL FEITA E MAL COMPREENDIDA”, você tem brilho, talento, meu rapaz, não precisa mais se esconder atrás dessa máscara de Carlitos, seja você mesmo, deixe o seu Cu falar por si, FraNZ, vivemos a época do esvaziamento criativo, da falta da compreensão anal, veja o Joyce, por exemplo, ele ainda é o que é hoje porque deixou seu cu falar, deixe o seu cu falar FraNZ, temos muito o que dizer e o que ensinar, é preciso dosar as coisas, amar e perverter, você está anotando isso, querrido, não está? o amor sem a perversão não existe, e você está no caminho certo, os escritores de hoje precisam abrir seus cus e viver a plenitude do amor e da perversão, o amor não está somente na penetração, não é apenas quando se mete, mas quando se tira também, a palavra é um grande esporão do amor, deixe que ela repouse dentro de você depois de gozar, porque a pressa? a pressa não existe para os amantes, não é mesmo? ela não nos permite chegar a nenhum lugar, FraNZ meu querrido, você me libertou e eu não posso nem pagar-lhe uma cerveja, mas veja bem, estamos bebendo nessa espeluncazinha minúscula e fedida, mas podemos ainda beber em outro lugar mais amplo, que tal, só que não tenho dinheiro, o velhinho era misarento, não me deixou nada, eu catei seus bolsos, você viu, mas ele não tinha mais nada, ele se foi para sempre devendo as pessoas e o mundo, tentei ajudá-lo direcionando-o a uma escrita mais livre, mas ele era teimoso, nunca me ouvia, é um problema dos escritores de hoje, não ouvem seus próprios cus, nos subestimam, para eles somos apenas uma pequena peça do mecanismo fisiológico que faz a máquina humana funcionar, mas nós pensamos e jogamos também de forma diversificada, escrever não é só uma questão racional, é ter a carta certa nas mãos certas, é saber girar a roleta, é dar um novo corpo ao mundo, lembra-se de Dostô, ah, o nosso velho Dostô, este sim sabia jogar e ouvir o próprio cu, quanto mais se perde mais se ganha, GRIFO MEU, NÃO, DE FraNZ, NÃO, DO CU, OKEI OKEY, MEU MESMO AH, QUE DIFERENÇA FAZ. AH, FraNZ, vamos aos puteiros, o velhinho não era apreciador desses lugares, tratava-se de uma alma ranzinza e bastante recatada, e acredite, ia à Igreja aos domingos e me fazia ouvir My Way, um beato, agora imagine FraNZ, todos esses longos e torturantes anos levando uma vida chata, a escrita é livre, imploda mesmo as fibras arquitetônicas do dizer velho, as hierarquias morais, o homem é uma pequena amostra da infelicidade, e daí, foda-se, se um dia você acabar sozinho e cego, não acredite na escuridão, as palavras seguem a voz de dentro.

E ELE ENCERROU DIZENDO
a vida não é uma novelinha barata, FraNZ querrido, a vida é um romance puro, este século não vai nos cheirar, esqueça a academia, vamos aos puteiros!

E CAÍMOS FORA DALI

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

KEROUAC - O VIAJANTE SOLITÁRIO


(...) "ASSIM, AQUI ESTOU EU AO ROMPER DO DIA EM MINHA CELA SOMBRIA, faltando 2 1/2 horas para enfiar o relógio de ferroviário no bolso dos meus jeans e cair fora..."
terminei de ler esta manhã o "Viajante Solitário" do Jack Kerouac. meu livro de cabeceira desde que mudei-me para cá. o devorei em três dias. um livro delicado, humano e generoso. ahh, queria ser Jack Kerouac. ter sua coragem e sua espontaneidade no trato com as palavras. ter esse sopro, essa tragédia doce da vida. mas Kerouac foi um viajante de estradas. sem pátria. um vagabundo iluminado das estradas abertas e perdidas da vida. um vagabundo em extinção. u eu ainda estou ancorado no meu cais de pedra. imóvel. transparente. emfim. li quase todas as suas obras e sempre quando algo novo seu vem á tona, trato logo de inteirar-me do assunto. como é o caso de uma peça que foi publicada recentemente numa versão espanhol junto com uma nova edição de Junkie, do Burroughs. a peça, como não poderia deixar de ser, é também autobiográfica. aliás, toda sua obra, desde a poesia, até a prosa e teatro, são triunfos autobiográficos. história de uma geração. sua escrita pessoal centrada numa busca pela verdade e pela iluminação, é contagiante e inspiradora. essa força espiritual que se dá através de sua escrita, atinge o universal, o que faz dele um grande escritor, o melhor, ao lado de Jack London e de Fante. e aqui me refiro apenas á literatura americana.
"Visões of Cody", que é um tijolão, é um livro que até hoje não consigo largar. parece que cada vez volto á leitura daquelas páginas surrealistas, mas me deparo com algo novo e deslumbrante a ser revelado, talvez por ser o livro mais experimental - depois de O LIVRO DOS SONHOS. Visões of Cody é outro livro desse autor que recomendo aos meus amigos. A obra chega a superar - e essa é minha opinião particular - o então clássico ON THE ROAD, o mesmo que o colocou no panteão dos imortais da literatura americana, mas que por outro lado, foi um livro considerado injustiçado por ter sofrido várias amputações, para que ele fosse publicado. tive o privilégio alguns anos atrás de ler na internet um trecho de um dos rascunhos originais de On the Road, E CARA, é de uma fruição verborragica visceral impressionante. Lembra "Finnergan Awake" o o próprio "Ulisses" do James Joyce, no sentido da descontrução e do experimentalismo linear da narrativa; uma espécie de reminescencias proustianas com fortes doses de alcool e mescalina.
o "Viajante Solitário" é um livro que trata de um tema aparentemente comum: viagens. viagens que percorrem o sul dos Estados Unidos de costa a costa, atravesando todo o México, chegando até Marrocos, Paris e Londres, abordo de navios e trens de carga (Kerouac foi lavador de pratos de navios, limpador de convés de cargueiros, empregado de posto de gasolina, vigia florestal e também jornalista)A sua viagem não é uma viagem commum. Trata-se de uma viagem pelos meandros da vida em busca da verdade ou de um sentido universal. o propósito do livro como ele próprio afirma, é simplesmente poesia, ou meramente uma descrição natural da vida.
a literatura de Kerouac é uma literatura essencial e obrigatória para a geração presente.

(...) não há nada mais nobre do que aturar algumas inconveniências como cobras e poeira por amor á liberdade absoluta. Eu próprio fui um vagabundo, mas só até certo ponto, como se vê, porque sabia que algum dia meus esforços literários seriam recompensados com a proteção social - não fui um vagabundo autêntico, sem esperanças, exceto aquela eterna esperança secreta que se adquire dormindo em vagões vazios que atravessam o vale de Salinas sob o sol quente de janeiro cheio de Dourada Eternidade...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

fracasso


é no mínimo engraçada e curiosa a palavra JUBILAÇÃO. jubilar vem de júbilo que significa alegria, contentamento, satisfação, alguma dádiva. na prática não é bem assim. para alguns, o efeito dessa palavra, a grosso modo, pode significar o contrário, algo do tipo, tristeza, derrota, desapontamento, fracasso ou algo parecido. o fato é que nesta manhã cinza de dezembro, recebi minha carta de jubilação. nunca pensei que fosse receber uma carta como aquela. enfim, peguei a carta, sentei na cadeira da sala de minha nova casa, e li cuidadosamente o que estava escrito nela. foram curtos e grossos:

Sr. Márcio Santana, o senhor foi jubilado.”

havia sido finalmente jubilado daquela faculdade e eu não tenho vergonha alguma de tornar público o fato. não me arrependo nem um pouco. Se fui o grande responsável pela minha jubilação ou não, isso pouco importa. o fato é que não dava mais pra eu ficar enganando a mim mesmo e a ninguém. Então eu mesmo me jubilei. Joguei a toalha da minha farsa. nem sei por que estou escrevendo sobre essas coisas. ah, sim, talvez o ocorrido faça parte de mais um fracasso meu. e foram muitos até aqui.
nasci numa cidade fracassada. na adolescência sonhei em ser jogador profissional de salão do Santos Futebol Clube, mas fracassei. um dia o técnico chegou e disse que não dava, que eu era um péssimo ala esquerda e delicado demais nas divididas. desisti do futebol muito cedo. meus amores de juventude também foram recheados de fracassos um atrás do outro. nunca tive tato com as mulheres, mas que para esconder bem escondidinho minha homossexualidade, tinha que encarar elas de frente, aí que meu coração batia mais forte pelos garotos. um dia tomei coragem e declarei meu amor para um coleguinha de classe e ele me arrebentou a cara no banheiro da escola. O pior foi que, para ele não espalhar que eu era viadinho e acabar comigo, tinha que pagar-lhe pedágio todas as vezes que adentrava o portão daquela escola.
meu professor de Literatura do turno noturno foi minha primeira e grande paixão platônica de rito de passagem da adolescência á fase adulta, só que infelizmente o cara era hétero (sei que não existe isso), casado e não tinha como rolar mesmo. então ficava da minha cadeira ouvindo ele declamar os poemas de Olavo e Cecília Meireles suspirando e sonhando com ele. na fase adulta, falhei como professor, talvez por ganhar um salário indecente, trabalhar nas piores escolas e nunca acreditar de verdade na educação. larguei o magistério esse ano. Não casei, não tive filhos, não vou deixar legado algum. considero isso um fracasso também? não sei. talvez. no fundo dou vivas a Machado. “Aos vencedores, as batatas.” na faculdade fui um fiasco, tendo que me arrastar por quase 10 anos fazendo o mesmo curso que não me dava curso algum. faltando um período e meio, fui jubilado. minha mãe a qual não lhe dei nora e nem netos, morreu acreditando que um dia eu pudesse ao menos me formar. enfim, restou-me a literatura que sobreviveu a tudo, no entanto, meus livros todos até aqui foram um fracasso. nenhum merecidamente reconhecido. mas continuo tentando. é tudo que de verdade me resta. se um dia eu fracassar como escritor, então eu não fui realmente nada. me consolo na frase de FraNZ - um dos personagens da novela que estou escrevendo e que se chama O Homem que perdeu o cu: “O HOMEM É FEITO DE DERROTAS E DELA SE ALIMENTA PARA FICAR FORTE.” Ou até mesmo do próprio Cu que afirma: “O FRACASSO É UM BOLERO TOCADO AO AVESSO.” mas vai que FraNZ e o Cu tenham razão.Um dia conversando com uma amiga sobre meus fracassos, ela virou seu copo e disse: "para alguém que sobreviveu a sete facadas no útero e está aqui falando de seus fracassos, não consideras isso uma vitória?" aquilo me deu certo alento, mas não foi convincente.sei que pareço autopiedoso se lamentando no meio da vida diante de coisas aparentemente tolas e irrelevantes com tantas outras coisas que ainda virão, mas foi a carta que me fez repensar o que EU FUI ou o que EU FIZ até aqui, o que, de certo modo, me fez acordar.
Enfim, olhei uma ultima vez para a carta jubilada e a atirei ao lixo, depois fui até a cozinha e abri uma garrafa e meia de vinho que havia sobrado da ceia do natal e brindei a mais um fracasso meu e também a muitos outros que certamente virão. Por que pensar em vitórias? Numa época de vencedores artificiais, não me arrependo nem um pouco em ser um fracassado assumido.

sábado, 25 de dezembro de 2010


Vou fechando este ano trabalhando na minha mais nova novela chamada O HOMEM QUE PERDEU O CU. Tenho me concentrado e trabalhado nela com uma certa exaustividade. Na verdade, ela faz parte da segunda trilogia que denominei de trilogia dos órgãos e que se iniciou com O Homem com a Abertuna na Testa, segue com a odisséia do Cu, e terminará supostamente na Saga do Pênis. é prazeroso e muito divertido trabalhar na literatura esses elementos falocráticos do corpo e que acabam se personificando, criando uma identidade própria. É claro que não é nenhuma novidade, Rabelais já havia trabalhado isso em uma de suas obras, William Burroughs também já havia dado vida ao Cu, cada um - é claro - com sua maneira irônica e critica e também sagaz de abordar a questão. O Homem que Perdeu o Cu é uma novela que não segue um fluxo linear estrutural. É um texto onde pela primeira vez eu o desconstruo do começo ao fim. Costumo dizer, um FLUXO-ALUCÍNOGENO-DEVANEIATIVO, ONDE PELA PRIMEIRA VEZ, eu consigo me perder e me achar de verdade dentro dos meandros dadaístas daquilo que vou criando de um fôlego único. É como o FraNZ, - protagonista desta novela que diz a certa altura de um dos capítulos: escrever é perder-se. Abaixo um trecho da novela:

"FraNZ estava ali para ver um pouco de gente e tentar quem sabe escrever um pouco. FraNZ anda com a porra da sua novelamaluca empancada há trës semanas desde que mudou-se para aquele bairro novo e ele não consegue retomar o fio de ariadne, mas sabe, NO DURO, considero o que FraNZ anda escrevendo uma espécie de FLUXO-ALUCÍNOGENO-DEVANEIATIVO e penso eu que a intenção de FraNZ é essa mesmo, perder-se nos labirintos da criação, então porque raios preocupar-se com o fio de ariadne para lhe conduzir se, escrever é perder-se, ESCREVER É PERDER-SE, BINGO!"

elogoabaixo um breve apelo a Dadá enquanto as ideias não vem

"DIONISIO NÃO TEM ROSTO NINGUÉM TEM ROSTO EU PROCURO MEU ROSTO NO MEIO DE UMA MULTIDÃO DE ROSTOS E SOU MESMO UM ESQUELETO DE PAPAGAIO DE CARNE PRESO AOS FIOS DE ALTA TENSÃO QUE OLHO AGORA E QUE O VENTO DE DOMINGO SOPRA SÁBADO NÃO E QUANDO SUA SOMBRA SE PERDE DE VOCÊ NÃO ADIANTA IR MAIS EM BUSCA DELA POR ISSO FICO DAQUI PENSANDO DA MINHA SACADA NA MINHA BOSTA DE VIDA ENSACADA QUE SOU MESMO ESSE ESQUELETO DE PAPEL DE CARNE PRESO AO FIO E O QUE MAIS PODERIA SER OU SIGNI FICAR AQUI DEBAIXO ENTÃO MIGALHAS DE PÃES AOS PORCOS AOS GRANDES PORCOS QUE SE AGARRAM AS GRADES DAS PAREDES DO MEU PAREDÃO E PAREM TUDO OUÇAM O LATIR DO TEMPO EM NENHUM LUGAR LATEM O TEMPO TODO COMO ENORMES E VERDADEIROS CÃES ATRÁS DA MINHA SOMBRA EMBRIAGADA SOU UMA SOMBRA EMBRIAGADA LATINDO EMBRIAGADAMENTE E POR ONDE ANDARÁ A GRANDE NAU SALVADORA QUE NÃO AVEJO CHEGAR DE NENHUM LUGAR AFUNDADO QUE ESTOU NÃO AVEJO NADA DA NAUAVEJADA? MEU ESPELHO QUEBROU BORRANDO O BATOM DO CUSEMLÁBIOS FAZENDO BIQUINHOS CARINHA DE CHORO QUANDO VOCE PARTIU SEM PROMESSAS DE VOLTA ENTÃO VOU PARA NOITE FERIDO ALVEJADO MINHALMA AMARFANHADA E ESTE CAPÍTULO É PARADIONÍSIO DEUS DO DIA E DA NOITE E OS MEUS DEDOS DOIDOS CANSADOS GRUDAM-SE NAS TECLAS DO PRESENTE COM A ALMA DO PASSADO E É POR ISSO QUE MINHA CABEÇA RELINCHA COMO UM CAVALO SEM ASAS..."

e por aí vai meus camaradas, acho que no ano que vem ,quem sabe, termino isto aqui...vamos todos aguardar né?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

COINSIDERAÇÕES SOBRE ZADIG DE VOLTAIRE

Bom, enquanto idéias não me vem ä cabeça, me ocupo lendo "Zadig ou o Destino", do célebre Voltaire. Zadig é um livro de contos muito louco. Voltaire gostava de tratar temas filosóficos, sociais, religiosos e morais por meio de seus contos. Escreveu dezenas deles não somente para expor suas idéias sobre determinado assunto, mas também para ressaltar sua opinião sobre temas controversos e, não poucas vezes, para responder a posições contrárias de pensadores de sua época. Com frequencia, retrata personalidades de destaque na sociedade em seus contos e com Zadig não podia ser diferente. Nele pode ser reconhecidos várias personalidades da sociedade monarca francesa refletindo a própia situação do reino francês mergulhado no caos da anarquia já prevendo anos mais tarde - depois de sua morte - a revolução francesa de 1789. De qualquer forma, Zadig é a história de um cidadão da babilonia envolvido em peripécias que o destino lhe reserva. Sua vida é feita de altos e baixos que acontecem de uma maneira que, ä primeira vista, nos parecem inconcebíveis e fora de propósito. Mas o destino é feito de surpresas, aliás, o próprio Zadig é uma surpresa, é o novo que evolui e involui, que se completa, se faz e se refaz, que abre caminhos onde não há, que constrói e destrói, que alegra e entristece. O elemento humano aqui é eternizado. Todas essas questöes e outras, Voltaire trata especificamente em seu Zadig, como o homem justo, honesto, sensato, sábio, virtuoso que, mesmo assim, sua vida se perfila num perde-ganha interminável.
Mas a grande sacada do livro é a grande pergunta sobre o que é o destino afinal? Seria uma viagem pelos meandros da vida? Uma fatalidade? Algo pré-escrito pela divindade? Um condicionamento de nascença? Você, assim como eu, também deve ter se questionado acerca do destino. O autor, entretanto, não quer dar uma resposta definitiva sobre o tema proposto, mas o define como uma força ora suscetível de ser domada ora fora de controle sintetizando a vida do homem. Por tudo isso, Zadig eo Destino é uma leitura instigante e agradável.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

FINAL - GRANSCY DE VOLTA A ORIGEM


Granscy fez sozinho o trajeto de volta da torre. Alcançou a plataforma mais próxima e comprou o seu bilhete. A ânsia de voltar para casa era por demais. Não tinha mais cigarros e por isso estava desolado. Só queria voltar para casa. Para o vazio de tudo; para o vazio das linhas que sempre pontuaram sua vida até ali. Sentou-se abatido e olhou abestalhado as plataformas. Pessoas entrando e saindo. O sentido da vida não estaria no breve fluxo metafísico do ir e vir dessas pessoas? Refletiu no instante em que uma voz metálica anunciava o próximo expresso que partia. Ele conferiu sua passagem e caminhou para lá. Num planoseqüência, observou os rostos brancos e apreensivos dos passageiros. Intuiu-lhe algo. A nave partiu atirando os corpos para trás. Ao passo de algumas horas, aconteceu o que ninguém queria. A nave fez um desvio entrando nas regiões ondulatórias da Experimental-Quantum. Houve gritos e protestos. Granscy foi sentindo estranhas modificações de ordem hormonal, a começar pela ânima feminina azunhando-lhe a epiderme. O rosto, ganhando contornos delicados, alongava-se um pouco mais. Emergiam peitinhos atrevidos fazendo escândalo. Não sentia tanto a perda dos pêlos, pois que sempre lhes foram escassos por natureza. Viu-se assustado, olhando sem graça para os lados. Um homem acompanhava curioso aquela transformação. Houve uma forte turbulência em razão do novo fluxo atemporal que aqui traduziremos como: Desvio de Destino.

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

Piscavam luzes intermitentes alertando.
Granscy sentiu cólicas e foi ao banheiro. O estranho homem a seguiu. Frente ao espelho, acariciou a pele alva, a maciez da carne, os mamilos intumescidos... Uma vasta e negra cabeleira descia-lhe mansa sobre as omoplatas. Sorriu. Os lábios pediram batom. Ornou-os sem exageros. Um pouco de blush no rosto, também. Fez trejeitos, girou nos elegantes saltos e por fim refletiu acerca de seu novo hospedeiro. Foi quando ouviu uma voz atrás de si:
– Hylda!!! – Virou-se surpresa dando com um sujeito parado na entrada do banheiro. Trajava paletó cinza (velho e surrado por sinal) e um chapéu de paraíba na cabeça. No rosto, um feio talho na diagonal. Ela quase riu. A presença dele pareceu-lhe um Deja Vu.
– Tão breve é a beleza, enquanto a morte vem inteira. – Disse ele sorrindo. Os dentes em ruínas.
– O que o senhor quer, afinal?
– Acompanho todo o processo.
– E daí?
– Daí que as palavras não valem nada. São nossos pecados jogados no lixo.
- Ixi! – Avizinhou-se dela agarrando-lhe grosseiramente os bracinhos.
– E digo-lhe mais, meu botãozinho. A poesia mente. Ela nada mais é que um grande vácuo que nos chupa a alma.
– O senhor é muito escovado, isso sim.
– No fim da grande reta há sempre o vácuo que nos espera.
- Credo!! Desvencilhou-se dele fugindo às pressas.
– Mas também vendo no atacado, cremes anais e removedores de pêlos. – Gritou.
Bastante aturdida, Granscy, que agora descobriu-se Hylda, por intermédio do homem da cicatriz, não fazia a mínima idéia de como tudo aquilo acabaria. Embora, tão óbvio fosse o seu desfecho, como a cegueira é na velhice e a crista de galo na juventude
A nave entrou na Esfera-Quantum. Um grupo de Glumps-Glumps pulavam e gritavam:

“O SOL É VERDE!” O SOL É VERDE! O SOL É VERDE!”

Pulavam nos assentos e batiam suas cabeças umas nas outras. Um Muloch esperto transformou-se numa pulga. Uma outra subespécie qualquer jurava ver Cristo de olhos apagados no final de um balcão de bar. Á estereozofrenia era total. Á Granscy, coube apenas a breve reflexão de que todo esse tempo ele não buscava outra coisa além de si mesmo.
Tampou os ouvidos fechando os olhos. Havia algo em seu rosto. Não era medo. Tampouco raiva ou tristeza. Quem sabe uma certa incompreensão serena do que foi a vida, aliada agora a uma repulsa estética do que viria ser a morte.

“tão breve é a beleza,
enquanto a morte vem inteira.
no fim da grande reta,
há sempre o vácuo que nos espera.”

Foram essas as palavras.

A nave efetuou um ligeiro “looping” despencando de vez no grande abismo de lábios leporinos.


para Diego Moraes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VI - APÓS O COITO COM A ANÀ GRANSCY DECIDE PÔR FIM A SUA BUSCA E RESOLVE VOLTAR PARA CASA, SEM ANTES SER INTERPELADO PELO HOMEM DA CICATRIZ



Deitado ao lado da anã, Granscy tentava a todo custo entender aqueles símbolos pictográficos no teto da cúpula:
–O que representam afinal, todos estes símbolos?
Ela aproveitou para descolar o ultimo Flywin dele. Logo a sala impregnou-se de vapor barato.
–São os muitos circuitos da consciência humana, manejada pelo Deus da sabedoria e artes mecânicas. – Respondeu.
–E todos aqueles animais?
–São os ancestrais da alma. – Granscy coçou o queixo alongado.
–A arte é mesmo um combate... – Sussurrou. A anã olhou pra ele surpresa.
–Quem lhe disse isso?
–Um impressionista. – Reinou um breve silêncio.
–O que fazia antes de se meter nessa confusão toda? – Quis saber ela.
–Escrevia um livro.
–Um livro?
–Sim, um livro.
–E o que aconteceu?
–Rosa, a companheira, descobriu e me abandonou. Não suportando a perda, me rebelei mergulhando de corpo e alma no Dash. Um dia, abusei demais e quando acordei me achei nessa curvatura.
–Acha que encontrando a tal Hylda, seu sofrimento estará resolvido?
–Uma boa parte dele, creio que sim.
–Um homem nunca é feito de partes. Somos a projeção de um todo.
–Mas as partes não fazem um todo?
–Não quando elas são distorcidas. Uma questão bifocal da alma. Da consciência da alma.
–Mas e a razão?
–Não descarto aqui a razão, que também é bifocal.
–Razão e alma bifocais?
–Sim.
–E a verdade?
–Impura.
–E os instintos?
–Verdadeiros, pois que são meras trocas de interesses.
Granscy tornou a coçar o queixo longo.
–Você é Hylda, não é?
–Já disse que não.
–Como se chama então?
–Íris.
–E Hylda? Quem é Hylda?
A anã que se chamava Íris atirou com elegância o toco de cigarro para o alto.
–O que vai fazer quando sair daqui?
–Já nem sei mais.
–Se resolveres voltar para casa, e por alguma razão atravessares a Experimental-Quantum, vai descobrir tudo.
Granscy vestiu-se apressado. Íris olhava para ele como uma garotinha chorosa.
–A Experimental-Quantum ainda é uma nebulosa. Um risco a que todos nós corremos.
–Que seja, mas eu preciso voltar.
–Voltar para onde?
–Para casa. Hylda não existe e tudo isso aqui é uma porra onírica. Tenho mais o que fazer.
–Então me beije e vá!

Granscy beijou Íris e partiu.