quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

fracasso


é no mínimo engraçada e curiosa a palavra JUBILAÇÃO. jubilar vem de júbilo que significa alegria, contentamento, satisfação, alguma dádiva. na prática não é bem assim. para alguns, o efeito dessa palavra, a grosso modo, pode significar o contrário, algo do tipo, tristeza, derrota, desapontamento, fracasso ou algo parecido. o fato é que nesta manhã cinza de dezembro, recebi minha carta de jubilação. nunca pensei que fosse receber uma carta como aquela. enfim, peguei a carta, sentei na cadeira da sala de minha nova casa, e li cuidadosamente o que estava escrito nela. foram curtos e grossos:

Sr. Márcio Santana, o senhor foi jubilado.”

havia sido finalmente jubilado daquela faculdade e eu não tenho vergonha alguma de tornar público o fato. não me arrependo nem um pouco. Se fui o grande responsável pela minha jubilação ou não, isso pouco importa. o fato é que não dava mais pra eu ficar enganando a mim mesmo e a ninguém. Então eu mesmo me jubilei. Joguei a toalha da minha farsa. nem sei por que estou escrevendo sobre essas coisas. ah, sim, talvez o ocorrido faça parte de mais um fracasso meu. e foram muitos até aqui.
nasci numa cidade fracassada. na adolescência sonhei em ser jogador profissional de salão do Santos Futebol Clube, mas fracassei. um dia o técnico chegou e disse que não dava, que eu era um péssimo ala esquerda e delicado demais nas divididas. desisti do futebol muito cedo. meus amores de juventude também foram recheados de fracassos um atrás do outro. nunca tive tato com as mulheres, mas que para esconder bem escondidinho minha homossexualidade, tinha que encarar elas de frente, aí que meu coração batia mais forte pelos garotos. um dia tomei coragem e declarei meu amor para um coleguinha de classe e ele me arrebentou a cara no banheiro da escola. O pior foi que, para ele não espalhar que eu era viadinho e acabar comigo, tinha que pagar-lhe pedágio todas as vezes que adentrava o portão daquela escola.
meu professor de Literatura do turno noturno foi minha primeira e grande paixão platônica de rito de passagem da adolescência á fase adulta, só que infelizmente o cara era hétero (sei que não existe isso), casado e não tinha como rolar mesmo. então ficava da minha cadeira ouvindo ele declamar os poemas de Olavo e Cecília Meireles suspirando e sonhando com ele. na fase adulta, falhei como professor, talvez por ganhar um salário indecente, trabalhar nas piores escolas e nunca acreditar de verdade na educação. larguei o magistério esse ano. Não casei, não tive filhos, não vou deixar legado algum. considero isso um fracasso também? não sei. talvez. no fundo dou vivas a Machado. “Aos vencedores, as batatas.” na faculdade fui um fiasco, tendo que me arrastar por quase 10 anos fazendo o mesmo curso que não me dava curso algum. faltando um período e meio, fui jubilado. minha mãe a qual não lhe dei nora e nem netos, morreu acreditando que um dia eu pudesse ao menos me formar. enfim, restou-me a literatura que sobreviveu a tudo, no entanto, meus livros todos até aqui foram um fracasso. nenhum merecidamente reconhecido. mas continuo tentando. é tudo que de verdade me resta. se um dia eu fracassar como escritor, então eu não fui realmente nada. me consolo na frase de FraNZ - um dos personagens da novela que estou escrevendo e que se chama O Homem que perdeu o cu: “O HOMEM É FEITO DE DERROTAS E DELA SE ALIMENTA PARA FICAR FORTE.” Ou até mesmo do próprio Cu que afirma: “O FRACASSO É UM BOLERO TOCADO AO AVESSO.” mas vai que FraNZ e o Cu tenham razão.Um dia conversando com uma amiga sobre meus fracassos, ela virou seu copo e disse: "para alguém que sobreviveu a sete facadas no útero e está aqui falando de seus fracassos, não consideras isso uma vitória?" aquilo me deu certo alento, mas não foi convincente.sei que pareço autopiedoso se lamentando no meio da vida diante de coisas aparentemente tolas e irrelevantes com tantas outras coisas que ainda virão, mas foi a carta que me fez repensar o que EU FUI ou o que EU FIZ até aqui, o que, de certo modo, me fez acordar.
Enfim, olhei uma ultima vez para a carta jubilada e a atirei ao lixo, depois fui até a cozinha e abri uma garrafa e meia de vinho que havia sobrado da ceia do natal e brindei a mais um fracasso meu e também a muitos outros que certamente virão. Por que pensar em vitórias? Numa época de vencedores artificiais, não me arrependo nem um pouco em ser um fracassado assumido.

sábado, 25 de dezembro de 2010


Vou fechando este ano trabalhando na minha mais nova novela chamada O HOMEM QUE PERDEU O CU. Tenho me concentrado e trabalhado nela com uma certa exaustividade. Na verdade, ela faz parte da segunda trilogia que denominei de trilogia dos órgãos e que se iniciou com O Homem com a Abertuna na Testa, segue com a odisséia do Cu, e terminará supostamente na Saga do Pênis. é prazeroso e muito divertido trabalhar na literatura esses elementos falocráticos do corpo e que acabam se personificando, criando uma identidade própria. É claro que não é nenhuma novidade, Rabelais já havia trabalhado isso em uma de suas obras, William Burroughs também já havia dado vida ao Cu, cada um - é claro - com sua maneira irônica e critica e também sagaz de abordar a questão. O Homem que Perdeu o Cu é uma novela que não segue um fluxo linear estrutural. É um texto onde pela primeira vez eu o desconstruo do começo ao fim. Costumo dizer, um FLUXO-ALUCÍNOGENO-DEVANEIATIVO, ONDE PELA PRIMEIRA VEZ, eu consigo me perder e me achar de verdade dentro dos meandros dadaístas daquilo que vou criando de um fôlego único. É como o FraNZ, - protagonista desta novela que diz a certa altura de um dos capítulos: escrever é perder-se. Abaixo um trecho da novela:

"FraNZ estava ali para ver um pouco de gente e tentar quem sabe escrever um pouco. FraNZ anda com a porra da sua novelamaluca empancada há trës semanas desde que mudou-se para aquele bairro novo e ele não consegue retomar o fio de ariadne, mas sabe, NO DURO, considero o que FraNZ anda escrevendo uma espécie de FLUXO-ALUCÍNOGENO-DEVANEIATIVO e penso eu que a intenção de FraNZ é essa mesmo, perder-se nos labirintos da criação, então porque raios preocupar-se com o fio de ariadne para lhe conduzir se, escrever é perder-se, ESCREVER É PERDER-SE, BINGO!"

elogoabaixo um breve apelo a Dadá enquanto as ideias não vem

"DIONISIO NÃO TEM ROSTO NINGUÉM TEM ROSTO EU PROCURO MEU ROSTO NO MEIO DE UMA MULTIDÃO DE ROSTOS E SOU MESMO UM ESQUELETO DE PAPAGAIO DE CARNE PRESO AOS FIOS DE ALTA TENSÃO QUE OLHO AGORA E QUE O VENTO DE DOMINGO SOPRA SÁBADO NÃO E QUANDO SUA SOMBRA SE PERDE DE VOCÊ NÃO ADIANTA IR MAIS EM BUSCA DELA POR ISSO FICO DAQUI PENSANDO DA MINHA SACADA NA MINHA BOSTA DE VIDA ENSACADA QUE SOU MESMO ESSE ESQUELETO DE PAPEL DE CARNE PRESO AO FIO E O QUE MAIS PODERIA SER OU SIGNI FICAR AQUI DEBAIXO ENTÃO MIGALHAS DE PÃES AOS PORCOS AOS GRANDES PORCOS QUE SE AGARRAM AS GRADES DAS PAREDES DO MEU PAREDÃO E PAREM TUDO OUÇAM O LATIR DO TEMPO EM NENHUM LUGAR LATEM O TEMPO TODO COMO ENORMES E VERDADEIROS CÃES ATRÁS DA MINHA SOMBRA EMBRIAGADA SOU UMA SOMBRA EMBRIAGADA LATINDO EMBRIAGADAMENTE E POR ONDE ANDARÁ A GRANDE NAU SALVADORA QUE NÃO AVEJO CHEGAR DE NENHUM LUGAR AFUNDADO QUE ESTOU NÃO AVEJO NADA DA NAUAVEJADA? MEU ESPELHO QUEBROU BORRANDO O BATOM DO CUSEMLÁBIOS FAZENDO BIQUINHOS CARINHA DE CHORO QUANDO VOCE PARTIU SEM PROMESSAS DE VOLTA ENTÃO VOU PARA NOITE FERIDO ALVEJADO MINHALMA AMARFANHADA E ESTE CAPÍTULO É PARADIONÍSIO DEUS DO DIA E DA NOITE E OS MEUS DEDOS DOIDOS CANSADOS GRUDAM-SE NAS TECLAS DO PRESENTE COM A ALMA DO PASSADO E É POR ISSO QUE MINHA CABEÇA RELINCHA COMO UM CAVALO SEM ASAS..."

e por aí vai meus camaradas, acho que no ano que vem ,quem sabe, termino isto aqui...vamos todos aguardar né?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

COINSIDERAÇÕES SOBRE ZADIG DE VOLTAIRE

Bom, enquanto idéias não me vem ä cabeça, me ocupo lendo "Zadig ou o Destino", do célebre Voltaire. Zadig é um livro de contos muito louco. Voltaire gostava de tratar temas filosóficos, sociais, religiosos e morais por meio de seus contos. Escreveu dezenas deles não somente para expor suas idéias sobre determinado assunto, mas também para ressaltar sua opinião sobre temas controversos e, não poucas vezes, para responder a posições contrárias de pensadores de sua época. Com frequencia, retrata personalidades de destaque na sociedade em seus contos e com Zadig não podia ser diferente. Nele pode ser reconhecidos várias personalidades da sociedade monarca francesa refletindo a própia situação do reino francês mergulhado no caos da anarquia já prevendo anos mais tarde - depois de sua morte - a revolução francesa de 1789. De qualquer forma, Zadig é a história de um cidadão da babilonia envolvido em peripécias que o destino lhe reserva. Sua vida é feita de altos e baixos que acontecem de uma maneira que, ä primeira vista, nos parecem inconcebíveis e fora de propósito. Mas o destino é feito de surpresas, aliás, o próprio Zadig é uma surpresa, é o novo que evolui e involui, que se completa, se faz e se refaz, que abre caminhos onde não há, que constrói e destrói, que alegra e entristece. O elemento humano aqui é eternizado. Todas essas questöes e outras, Voltaire trata especificamente em seu Zadig, como o homem justo, honesto, sensato, sábio, virtuoso que, mesmo assim, sua vida se perfila num perde-ganha interminável.
Mas a grande sacada do livro é a grande pergunta sobre o que é o destino afinal? Seria uma viagem pelos meandros da vida? Uma fatalidade? Algo pré-escrito pela divindade? Um condicionamento de nascença? Você, assim como eu, também deve ter se questionado acerca do destino. O autor, entretanto, não quer dar uma resposta definitiva sobre o tema proposto, mas o define como uma força ora suscetível de ser domada ora fora de controle sintetizando a vida do homem. Por tudo isso, Zadig eo Destino é uma leitura instigante e agradável.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

FINAL - GRANSCY DE VOLTA A ORIGEM


Granscy fez sozinho o trajeto de volta da torre. Alcançou a plataforma mais próxima e comprou o seu bilhete. A ânsia de voltar para casa era por demais. Não tinha mais cigarros e por isso estava desolado. Só queria voltar para casa. Para o vazio de tudo; para o vazio das linhas que sempre pontuaram sua vida até ali. Sentou-se abatido e olhou abestalhado as plataformas. Pessoas entrando e saindo. O sentido da vida não estaria no breve fluxo metafísico do ir e vir dessas pessoas? Refletiu no instante em que uma voz metálica anunciava o próximo expresso que partia. Ele conferiu sua passagem e caminhou para lá. Num planoseqüência, observou os rostos brancos e apreensivos dos passageiros. Intuiu-lhe algo. A nave partiu atirando os corpos para trás. Ao passo de algumas horas, aconteceu o que ninguém queria. A nave fez um desvio entrando nas regiões ondulatórias da Experimental-Quantum. Houve gritos e protestos. Granscy foi sentindo estranhas modificações de ordem hormonal, a começar pela ânima feminina azunhando-lhe a epiderme. O rosto, ganhando contornos delicados, alongava-se um pouco mais. Emergiam peitinhos atrevidos fazendo escândalo. Não sentia tanto a perda dos pêlos, pois que sempre lhes foram escassos por natureza. Viu-se assustado, olhando sem graça para os lados. Um homem acompanhava curioso aquela transformação. Houve uma forte turbulência em razão do novo fluxo atemporal que aqui traduziremos como: Desvio de Destino.

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

FLUXO ZERO

Piscavam luzes intermitentes alertando.
Granscy sentiu cólicas e foi ao banheiro. O estranho homem a seguiu. Frente ao espelho, acariciou a pele alva, a maciez da carne, os mamilos intumescidos... Uma vasta e negra cabeleira descia-lhe mansa sobre as omoplatas. Sorriu. Os lábios pediram batom. Ornou-os sem exageros. Um pouco de blush no rosto, também. Fez trejeitos, girou nos elegantes saltos e por fim refletiu acerca de seu novo hospedeiro. Foi quando ouviu uma voz atrás de si:
– Hylda!!! – Virou-se surpresa dando com um sujeito parado na entrada do banheiro. Trajava paletó cinza (velho e surrado por sinal) e um chapéu de paraíba na cabeça. No rosto, um feio talho na diagonal. Ela quase riu. A presença dele pareceu-lhe um Deja Vu.
– Tão breve é a beleza, enquanto a morte vem inteira. – Disse ele sorrindo. Os dentes em ruínas.
– O que o senhor quer, afinal?
– Acompanho todo o processo.
– E daí?
– Daí que as palavras não valem nada. São nossos pecados jogados no lixo.
- Ixi! – Avizinhou-se dela agarrando-lhe grosseiramente os bracinhos.
– E digo-lhe mais, meu botãozinho. A poesia mente. Ela nada mais é que um grande vácuo que nos chupa a alma.
– O senhor é muito escovado, isso sim.
– No fim da grande reta há sempre o vácuo que nos espera.
- Credo!! Desvencilhou-se dele fugindo às pressas.
– Mas também vendo no atacado, cremes anais e removedores de pêlos. – Gritou.
Bastante aturdida, Granscy, que agora descobriu-se Hylda, por intermédio do homem da cicatriz, não fazia a mínima idéia de como tudo aquilo acabaria. Embora, tão óbvio fosse o seu desfecho, como a cegueira é na velhice e a crista de galo na juventude
A nave entrou na Esfera-Quantum. Um grupo de Glumps-Glumps pulavam e gritavam:

“O SOL É VERDE!” O SOL É VERDE! O SOL É VERDE!”

Pulavam nos assentos e batiam suas cabeças umas nas outras. Um Muloch esperto transformou-se numa pulga. Uma outra subespécie qualquer jurava ver Cristo de olhos apagados no final de um balcão de bar. Á estereozofrenia era total. Á Granscy, coube apenas a breve reflexão de que todo esse tempo ele não buscava outra coisa além de si mesmo.
Tampou os ouvidos fechando os olhos. Havia algo em seu rosto. Não era medo. Tampouco raiva ou tristeza. Quem sabe uma certa incompreensão serena do que foi a vida, aliada agora a uma repulsa estética do que viria ser a morte.

“tão breve é a beleza,
enquanto a morte vem inteira.
no fim da grande reta,
há sempre o vácuo que nos espera.”

Foram essas as palavras.

A nave efetuou um ligeiro “looping” despencando de vez no grande abismo de lábios leporinos.


para Diego Moraes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VI - APÓS O COITO COM A ANÀ GRANSCY DECIDE PÔR FIM A SUA BUSCA E RESOLVE VOLTAR PARA CASA, SEM ANTES SER INTERPELADO PELO HOMEM DA CICATRIZ



Deitado ao lado da anã, Granscy tentava a todo custo entender aqueles símbolos pictográficos no teto da cúpula:
–O que representam afinal, todos estes símbolos?
Ela aproveitou para descolar o ultimo Flywin dele. Logo a sala impregnou-se de vapor barato.
–São os muitos circuitos da consciência humana, manejada pelo Deus da sabedoria e artes mecânicas. – Respondeu.
–E todos aqueles animais?
–São os ancestrais da alma. – Granscy coçou o queixo alongado.
–A arte é mesmo um combate... – Sussurrou. A anã olhou pra ele surpresa.
–Quem lhe disse isso?
–Um impressionista. – Reinou um breve silêncio.
–O que fazia antes de se meter nessa confusão toda? – Quis saber ela.
–Escrevia um livro.
–Um livro?
–Sim, um livro.
–E o que aconteceu?
–Rosa, a companheira, descobriu e me abandonou. Não suportando a perda, me rebelei mergulhando de corpo e alma no Dash. Um dia, abusei demais e quando acordei me achei nessa curvatura.
–Acha que encontrando a tal Hylda, seu sofrimento estará resolvido?
–Uma boa parte dele, creio que sim.
–Um homem nunca é feito de partes. Somos a projeção de um todo.
–Mas as partes não fazem um todo?
–Não quando elas são distorcidas. Uma questão bifocal da alma. Da consciência da alma.
–Mas e a razão?
–Não descarto aqui a razão, que também é bifocal.
–Razão e alma bifocais?
–Sim.
–E a verdade?
–Impura.
–E os instintos?
–Verdadeiros, pois que são meras trocas de interesses.
Granscy tornou a coçar o queixo longo.
–Você é Hylda, não é?
–Já disse que não.
–Como se chama então?
–Íris.
–E Hylda? Quem é Hylda?
A anã que se chamava Íris atirou com elegância o toco de cigarro para o alto.
–O que vai fazer quando sair daqui?
–Já nem sei mais.
–Se resolveres voltar para casa, e por alguma razão atravessares a Experimental-Quantum, vai descobrir tudo.
Granscy vestiu-se apressado. Íris olhava para ele como uma garotinha chorosa.
–A Experimental-Quantum ainda é uma nebulosa. Um risco a que todos nós corremos.
–Que seja, mas eu preciso voltar.
–Voltar para onde?
–Para casa. Hylda não existe e tudo isso aqui é uma porra onírica. Tenho mais o que fazer.
–Então me beije e vá!

Granscy beijou Íris e partiu.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

V - GRANSCY FAZ AMOR COM A ANÃ NA CÚPULA GEODÉSICA DO POLÍGONO g.



Advertência: Capítulo desaconselhável às mães.

Não me perguntem como, mas a astúcia da anã aliada ao imenso desejo de possuir Granscy a levou burlar a segurança do Polígono g, colocando em risco tanto a sua vida como a do nosso herói. Mas eis que enfim, ali estavam eles.
A torre era alta demais, de modo que nenhum olho humano conseguia ver lá debaixo o seu cume que desaparecia no firmamento tragado pelas densas nuvens de clorozyl. A torre tinha lá a sua história. Foi construída a custa de muito suor e sangue dos anões, mas que ao longo do tempo souberam relevar o fato e hoje sua construção é motivo de orgulho para todos eles. Prova maior dessa estranha veneração era o belo canteiro em volta da torre que os próprios anões construíram e que a cada 01 de maio de cada ano, depositam girassóis em razão de seu aniversário.
Outro aspecto interessante e que também envolvia a torre, constituindo-se, portanto, um grande enigma, era o objetivo de sua construção. Ninguém sabia ao certo explicar o porque e o pra quê de sua existência. Várias correntes teóricas foram levantadas, dentre elas, duas das mais interessantes e engraçadas são sem dúvida dos Mulocs e a dos Glumps-Glumps. Os Mulocs, por exemplo, acreditavam piamente que a torre fora construída para que a espécie humana se aproximasse de Deusnada, o que para eles era uma grande blasfêmia. Já os Glumps-Glumps, talvez para sacanear os Mulocs ou porque eram ingênuos ou burros mesmos, diziam que a torre fora construída para salvar a todos da grande maré profetizada. A verdade é que ela mantinha-se ali, firme, ereta, como um falo imponente com medo de ficar impotente, resistindo bravamente às intempéries do tempo e as especulações do homem moderno.
Para se escalar os incontáveis andares da torre e atingir sua cúpula geodésica, portanto, só era possível através da bolha panorâmica acrilizada puxada por grossos cabos de juta fibrosa. A anã acionou o dispositivo e a bolha pôs-se em movimento subindo bem lentamente. A medida em que a bolha subia Granscy via com os olhos marejados a cidade miniaturizar-se lá embaixo. As chaminés dos módulos-fábricas, em formas de narinas dilatadas, apontadas para o céu, funcionavam á todo vapor expelindo fumaças de clorozyl desenhando no ar espectros diabólicos de mães a confabularem entre si. A anã inclinou-se um pouco baixando com a boca o zíper da calça folgada de Granscy:
– Quê cê tá fazendo? – Perguntou ele, surpreso.
– Relaxa... – Um sorriso maroteou-lhe o rosto.
– Bem que me disseram que os anões são vulgares.
– Tisc-tisc-tisc-tisc-tisc-tisc... não senhor. Somos apenas seletivas. – Retrucou ela com o membro rijo de Granscy tufando-lhe a lateral da boca. Um dos espectros de mães horrorizou-se:
– Pois veja! Ela está chupando ele! Que horror!
– Mas ele não gostava não era de tubos vasculares? – Indagou um segundo espectro em espiral.
– Que eu saiba, meu filho sempre apreciou as ostras. – Interviu um outro.
– Mãe? – Granscy a reconheceu pela verruga na ponta do nariz. – É que ele está nervoso, coitado. É a primeira vez dele com uma anjã, e nós que somos mães, convenhamos, não é nada fácil para um filho copular com uma anã, ainda mais com talydomida.
– Um pederastazinho, isso sim. Nunca me enganou esse rapaz. – Tornou o segundo espectro.
– Os filhos sempre esconderam de suas mães os instintos mais abissais da carne. – Contornou o primeiro.
– Por isso sofrem seus desígnios. – Atalhou o segundo.
– Não é o caso de Granscy, por certo. O cerne de sua formação sempre foi religiosa. Enterrei minha vida toda para criá-lo; para vê-lo crescer. Tornar-se homem. Não vamos culpar as curvas do tempo que delineiam as nossas vidas, pois que o próprio tempo tem suas retas a que todos nós devemos retomar. As mães passam, mas os úteros ficam. É a mais pura verdade. – Dito isso, os espectros fundiram-se num único e denso vapor de clorozyl assemelhando-se a um imenso útero de Hiroshima. De olhos esbugalhados ante a pantomima dantesca daqueles fantasmas maternos, Granscy por um instante cogitou ainda estar sob o efeito de Hidrofyl. Foi preciso uma leve mordidela na cabeça de seu pênis para colocá-lo ciente de que tudo aquilo era verossímil, como também para alertá-lo que haviam chegado à cúpula.
A anã tomou Granscy pelo pênis e o conduziu para dentro da cúpula. Ele sentia o corpo congelar e respirava com dificuldades. Ela nem tanto, pois que parecia acostumada à pressão. Uma vez lá dentro, as luzes foram acessas e os pressurizadores todos ligados. Granscy não contava mesmo com o esplendor do lugar, a começar pelas altas colunas de marfim e bronze em cuja pureza geométrica ostentavam em seus cumes, címbalos e harpas com cabeças humanas oriundas do Gabão.
– Vem, filho, vem! – A anã despia-se com desespero. Ele com os olhos calmos e maravilhados de um De la Croix, passeava a vista pelo teto abobadado da cúpula, toda ela ornada de afrescos primitivos; pinturas protagonizando povos chegando de hemisférios distantes, faunas variadas de estranhos antílopes, zebus e serpentes do estreito de BauhausS.
– Vem, querido! A arte espera.
Crocodilos alados e aves gigantes do extinto Congo, como também Dromedários e Guarás das dobraduras de Gaza.
– Cuida, querido!
Tribos inteiras de Pigmeus do vale do Nniger e Vanwatus´s evoluindo num éden exótico e perturbador.
– Benhêêê...
Qabalahs diversas, símbolos criptográficos e estrelas que nasciam e morriam no fim de espirais cósmicas. Tudo numa profusão de cores de força e alma intemporal. Jurar-se-ia poder ouvir os tambores primitivos rufando das entranhas daqueles desenhos vindos do céu.
– Vem, amor! Estou pronta.
Moveu o olhar para a anã que de quatro, no chão, chamava por ele. Despiu-se e foi ao encontro daquela pequena massa de mulher, puxando-a em seguida para perto de si, iniciando o que seria um Kamawhee.*1 Experimentariam todas as posições inimagináveis do reino de Vatyssuana. Alegres atabaques soavam hipnóticos na mente de Granscy. O ritmo acelerava á medida em que ele também acelerava as estocadas. Estocadas que por vezes arrancavam da anã, gritos lancinantes de dor e prazer.
– Mais fundo, bebê! Mais fundo! mais fundo! mais fundo!
Rolou por sobre ele sugerindo uma Hipotenusa seguida de um Pa de Deux. Parecia gostar daquelas posições, pois que gozava à cântaros. Sabedor de seu inevitável priapismo, Granscy obedecia mantendo-a firme, no encaixe. Após o derradeiro coito, os dois amantes ainda permaneceram acoplados por horas a fio, como dois estranhos batráquios. Pareciam perfeitamente sincronizados.
Os tambores, enfim, cessaram de rugir.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

IV- GRANSCY NA CIDADE DOS ANÕES




Granscy deixou o expresso £££ descendo apressado as enormes escadas de metais em formas de espirais ondulantes, ganhando as ruas constipadas pela chuva de corante acidosférica, que caía lentamente. Para se chegar a Cidade dos Anões, ele ainda tinha que percorrer alguns quarteirões de uma alameda úmida que se estendia de um ponto a outro. Uma alameda ornada por Domos de acrílico sobrepostos cobrindo o que um dia deveria ter sido uma avenida qualquer.
Ele então cruzou um mini-arco de luz néon e deu com um vilarejo único e estreito assediado por casinhas engraçadas feitas de alumínio e latão. Já poder-se-ia ver alguns anõeszinhos zanzando como baratinhas tontas, por ali. Localizou o que parecia ser um Lupanar, e seu chip almanizado iluminou-se. Entrou, indo aboletar-se numa mesa pequena e ignóbil. Sentiu-se ridículo, mas alguém ali poderia lhe informar sobre Hylda. Não estava ali por essa única razão?
Os anões se entreolharam. De estranhos naquele lugar só mesmo Granscy e um ciclope que bebia solitário na outra mesa. Um casal de anões, referindo-se ao ciclope, se indagava:
– Quem me garante que ele não é um Muloc?
– Não, não é. Ele está chorando, vejam!
De fato o ciclope chorava. Ouvia Azavour e chorava. Um anão albino aproximou-se da mesa de Granscy:
– O que o senhor deseja beber, moço?
– Quero algo forte.
– Temos Hydrofil, pode ser?
Granscy, confuso, coçou o cocoroto.
– S-sim, pode. – E até gaguejou.
O anão albino sumiu por uma portinhola e Granscy ficou a olhar o lugar. Sacou da carteira um Flywin amarrotado e passou a fumá-lo com elegância. Olhava os anões que ziguezagueavam curvos e tristes solidarizando-se com a dor do ciclope.
O bar fedia a anões. Anões de todas as espécies; de cafetões a uma variedade estranha de traficantes de sonhos e ilusões. Foi lhe servido o Hydrofil. Ao contrário das outras substâncias que eram ingeridas por via oral, o Hydrofil tinha sua peculiaridade, pois que era inalado por tubos finos de borracha sintética e em seguida expelido delicadamente e sem pressa, impregnando os espaços em derredor com um doce aroma de hortelã absintico e papoulas embriagantes. Ultima moda vindo da China. Ele experimentou. “O que eles ainda faltam inventar”. – Sorriu Granscy. Uma anãzinha vestindo couro e botas sintéticas emergiu das sombras de néon e foi sentar-se à mesa dele:
– Hummmmm... Hydrofil. – Observou a anã que tinha olhos pequenos e insinuantes.
“Puta merda!” Espantou-se Granscy ao reparar que a anã era portadora da Talydomida.
– O rim como o amor ainda filtra direitinho. – Defendeu-se a anã, filosofando. O ciclope pagou a conta e deixou o Lupanar. Um Ba-Tech muito doido começou a tocar parecendo anunciar o fim do mundo. Os anões sob efeito combinatório de Hydrofil e Benzoclina rodopiavam alucinados no meio do salão.
– O que o moço procura? – Perguntou a anã com talydomida.
– Pra ser sincero, ainda não sei.
– Todos nós procuramos por algo que não sabemos, é verdade.
Granscy cerrou os olhos. – Talvez esteja procurando a si. – Complementou a anã. Por um momento ele refletiu sobre aquilo, mas aí, caindo em si, lembrou-se:
– Ah, sim, recordo. Procuro por Hylda.
– Tisc tisc tisc tisc tisc tisc tisc – Onomatopeou a anã. – Não procura, não. Hylda é apenas um subterfugiu que o mantém existindo. Só mais uma fuga.
– Não, não é não. Ela tem as informações a que busco. Vai me ajudar a salvar a cidade do caos. – Granscy agitou-se nervoso quase derrubando seu Hydrofil.
–Você precisa salvar a si, não aos outros.
Daí em diante tudo começou a girar bem devagar. As feições da anã ganhavam feições variadas, indo do belo ao horrendo. O som Ba-Tech emitia agora o som de um obturador cutucando um nervo do dente
–O que quer é me confundir. – Falou ele pra anã. – Me ajude a encontrar Hylda, por favor!
–Faça amor comigo na cúpula geodésica do polígono g. Não busco muito. – Propôs a anã. É claro que para Granscy era impossível imaginar-se copulando com uma anã, ainda mais com talydomida. Mas será que havia outra escolha?
– Prometo depois deixá-lo em paz para prosseguir com sua busca. Talvez consiga ser o que realmente busca ser. – Concluiu ela.
- Sou o que sou. – Rebateu ele.
– Nem sempre somos aquilo que pensamos ser. Há um descontentamento geral com o que somos ou com o que representamos.
- Você é Hylda, não é?
– Claro que não!
A anã arrastou Granscy para o meio do salão e o convenceu a dançar um Transe-Tech que era uma combinação Hindu-Afro-High-Tech duas vezes mais potente que um Ba-Tech causando fortes vibrações captadas pelos tímpanos sob pressão hidrosphérica. Granscy desparafuzou-se. Saltava alucinado do chão jogando os braços para o alto em movimentos rápidos e alternados, tocando o queixo alongado nas extremidades de seus ombros largos. Os anões riam de Granscy sem sequer imaginarem que ele estaria ali revolucionando e tornando moda uma nova forma de expressão corporal. Não sei precisar ao leitor quanto tempo Granscy e a anã ficaram ali naquela dança gamulustérica, mas, uma coisa posso lhes afirmar com veemência, o lupanar e a vida
daquelas criaturinhas nunca mais foi a mesma...