terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

III - NÃO SE ESCREVE MAIS DESSE JEITO, MÁRIO AUGUSTO. DEIXE DE SER TÃO SENTIMENTAL. SE FAZER DE VITIMAZINHA.

VEIO A NOITE.Perambulei pelos arredores da Praça. Saudei alguns carinhas. Fumei um cigarro sozinho olhando a juventude triste e seca da minha cidade. Olhava também os prédios baixos, feios e mancos. Os tilintares dos bares não me comovem mais. Fico assim mesmo, quando a noite cai. Terrivelmente deprimido. Seco. Novamente a sombra oca e seca e triste de Jeanne Moreau vagando sem rumo. Passando em frente a “Juir Nuit” com suas luzes azuis lacrimais piscando no fundo; olhando os homens nas vitrines. Como num sonho abandonado e doce. A tristeza é doce. Por que será que escritores são tristes? NÃO TODOS, é claro. Há aqueles que são felizes. Os que estão em perfeita comunhão com Deus. Os que estão por cima. Os degenerados, não. Os amaldiçoados, como bem afirmou a velha insolente da livraria. Dessa vez é “Around Midnight” que ouço tocar bem lá no fundo de mim. O trompete doce-amargo de Miles Davis. A síntese do belo e do triste. Caminho. Dou murros em ponta de faca. Manaus, á noite, é uma apunhalada no coração.
Não se escreve mais desse jeito, Mário Augusto. Deixe de ser tão sentimental. Se fazer de vitimazinha.
Entrei no Castelo. Arrancaram o grande espelho de narciso. Me abanquei frente ao abismo branco de cal gélido e morto que ocupou todo aquele espaço, agora vazio. Não verei mais meu rosto. Nunca mais saberei o que havia do outro lado daquele velho espelho além de mim. Não é justo. Eu pertencia aquele espelho. Eu morava dentro daquele enorme espelho atrás das garrafas desempregadas. Desde que me confrontei com aquele espelho pela primeira vez ali naquele bar, eu sabia que minha outra alma repousava ali dentro. Bêbada. Terna. Cálida. Flutuante. Sabia que eu estava lá. Sempre estive. “Uma cerveja, meu poeta?” “Sim, mas bem gelada, querido”. Bebo minha primeira cerveja sem ser amolado com as velhas perguntas de sempre cheias de malícia e interesse falso: “O que andas escrevendo, Mário Augusto?” Ás vezes digo-lhes que estou escrevendo um grande romance. Outras vezes, só pra sacanear, digo que estou escrevendo um livro de autoajuda chamado "O PODER DA VONTADE". Ás vezes digo que estou com bloqueios. Soa elegante. Chic. Outras vezes não respondo nada. Bebo minha cerveja e pronto. Que as formigas se encarreguem das folhas enquanto os besouros giram em torno da luz. Aí o celular tocou: Era Álex do outro lado da linha. Fungava:
“O que foi querido?”
“O bolo, não sei fazer bolo...”
“O que foi que houve com o bolo, meu querido?”
“Ele encolheu, queimou, sei lá...” E fungava como uma mocinha do outro lado. Depois eu é que era o sentimental.
“Queria te fazer uma surpresinha, mas faço tudo errado.”
“O mundo não vai acabar por causa de um bolo, meu querido. Controle-se.” Fiquei ouvindo ele fungar. Estava tendo uma de suas crises de ardor juvenil.
“Vai demorar muito por aí?”
“Só o tempo de terminar esta cerveja”.
“Você parece que não me entende ás vezes.”
“É claro que entendo, meu lindo.”
“Não, não entende, não.”
“Entendo sim.”
“Não, não entende não.” ‘
“Tá bem, não entendo.”
“Você é egoísta, como os outros.”
“Sou egoísta, tá bom, reconheço.”
“Viu só?”
“Vi.“
“Então eu estou certo em dizer que você é egoísta?”
“Está sim, Álex.”
“Então repita: EU SOU EGOISTA.”
“Não ferra, pô.”
“Diz.”
“Quer parar?”
“Diz, anda!”
“Ok. Eu sou egoísta.”
“Não ouvi direito.”
“EU SOU EGOISTA.”
“Viu só? Você mesmo reconhece que é uma pessoa egoísta.”
“Você me obrigou. Você ligou só pra isso?”
“Não.”
“Sabe qual é o seu problema, Álex?”
“Qual é?”
“É que você anda colocando muito fermento no bolo.” Ia dizer-lhe outra coisa.
“Vá se ferrar, Mário Augusto.” Desligou. Não demorou nem meio minuto, o celular tocou de novo. Era ele:
“Grosso! Por que desligou?”
“Não fui eu quem desligou. Foi você.”
“Um dia quando chegares aqui não vai sentir nem o meu cheiro. Terei evaporado da tua vida.”
E dessa vez desligou pra valer. Um ano juntos e eu conhecia tão bem aquele garoto. Já me sentia responsável por ele. Como um pai que ama incestuosamente seu filho. Voltando a parede branca. Ou melhor. Basta. Paguei a cerveja e deixei o Castelo. Continuei minha ronda noturna. Dali ha pouco eu descia a Avenida Eduardo Ribeiro dobrando a 10 de julho, indo em direção ao bar do Lusitano outra vez. Ao me aproximar, dei logo de cara com a mesa dos célebres doutores. A figura da tese estava sentada bem ao centro com seus colares indígenas em volta de seu pescoço fino e comprido. Sentei por ali e fiquei olhando pra eles. No mínimo aguardavam a chegada do celebrado escritor. Bebiam com elegância e provavelmente discutiam literatura. Eu podia ouvi-los dali. Com exceção da sulista, eu não sabia quem eram os outros. Mas eles precisavam saber quem eu era. Ela também. Não sei se posso chamar isso de arrogância. Talvez. Sou mesmo arrogante. O fato é que levantei-me e fui até a mesa deles com os meus livros. Cumprimentei-os educadamente, mas eles não deram muita atenção. Mirei na direção da sulista e mostrei-lhe o meu livro:
“Se me permite, sou escritor e este aqui é o meu livro.” Ela me lançou um sorriso azedo e continuou a falar com o amigo ao seu lado. De perto notei que seus olhos eram bem azuis. Um azul amargo. Como o azul de um céu amargo. Fiquei ali falando sobre o livro, mas ela não deu muita importância não. Insisti mais um pouco. Aí ela disse: “Outra hora, querido.” Aquilo me enrolou as tripas. “Por que não agora?” O amigo dela ao lado me lançou um olhar severo e disse: “Por que estamos conversando sobre outras coisas, você nos dá licença?” Ouvi quando alguém falou sobre Chardin e a necessidade de eliminar de vez com os receios do pantheísmo literário. Um papo elevado. Eu já tinha ouvido falar de Chardin. Me senti novamente um clown idiota. Voltei pra minha mesa como um cão atropelado. Meu interior gania. O português novamente por ali como uma sombra penada, tornou a perguntar:
“Então Gajo, o que aprontaste com a velha esta tarde?”
“Ah, é o senhor, seu Orlando, que susto. Nada, não aprontei nada. Aquela velha é que não bate bem, já disse.”
“É verdade. Dizem que ela matou o marido e escondeu o corpo no freezer.” Olhei surpreso para o português. Logo eu, um maravilhado por “Crime e Castigo”. Matar pode ser uma arte refinadíssima. Um tema apaixonante. Tudo de que um escritor precisa é se informar e escrever. Umas boas aulas de anatomia humana aliada a uma boa dosagem de psicologia Raskolnikoviana. E pronto! Sempre desejei escrever uma estória policial. Com requintes de crueldade. Essa cidade está precisando disso. De um assassino frio. Altamente periculoso. Algum tempo atrás criei dois personagens que infelizmente não vingaram. Um chamava-se Mirella – uma serial killer adolescente que usava seus próprios saltos afiadíssimos para matar suas vítimas. E o outro chamava-se Roberval. Um senhor de meia idade que matava putas e transformava a carne delas em pastéis pra vender. Dois criminosos e seus crimes insolúveis. Dignos de uma cidade que não se soluciona crime algum. Eles ainda devem estar em alguma parte do meu cérebro criminoso. Amadurecendo seus crimes. Quando eles tiverem prontos de verdade, eu os deixarei sair. Os libertarei. Apaixona-me a ideia de um assassino perfeito em meio á loucura, ao calor e a incoerência dessa provinciazinha ingenuamente soberba. Um romance policial ainda é uma obsessão minha.
“Mais uma, gajo?” “Sim, seu Orlando, por favor.” Foi aí então que no meio daquela cerveja, vejo o escritor aclamado juntar-se ao grupo. Aquela seria minha chance. No fundo sou um cara teimoso. Obstinado por coisas que o leitor deve estar achando tolas demais. Mas é que quando encuco com uma coisa na cabeça só sossego quando consigo o que quero. Por mais que sejam mesmo bobas, tolas, como deve estar supondo mesmo o leitor. O que eu queria tão somente naquela noite era me valorizar e ser valorizado. Me vingar daquela mesa. Pronto. Me aproximei deles novamente. Dessa vez fui direto ao alvo. Peguei o por trás. Na catraca:
“Assisti sua palestra. Gostei muito do seu último livro.” Dizia a mais absoluta verdade. Há caras que mentem. A mentira é uma verdade dissimulada. “Este é o meu livro.” O escritor de verdade pegou o livro. Pôs-se a ler a orelha. O seu cãozinho fiel parou de conversar um pouco e olhou pra nós. A mesa toda silenciou um pouco quando ele disse: “Interessante, o seu livro. Está vendendo?” “Sim, estou.” “Por que não fazemos o seguinte.” Propôs. Pegou sua enorme bolsa, abriu-a, apanhou lá de dentro um livro e disse: “Por que não fazemos uma troca? Você leva este meu último aqui, e eu fico com este seu.” “Pô, será um prazer.” “Então assina.” Assinei. Ele também. A mesa estava em silencio. Vi um deles olhando para mim com mais respeito. A sulista sorria dessa vez com seus olhos bem azulados. Cumprimentei o celebrado escritor e o deixei em paz. Voltei pra minha mesa e pra minha cerveja. Se ele ia ler ou não, eu nunca saberei. Não era mais problema meu. Respirei fundo com ar de missão cumprida. O ego menos machucado. Não sabia exatamente o que eu queria provar com aquilo. Um mero capricho besta de escritor, sei lá. Só sabia que eu agora, de algum modo, existia.
Era quase onze quando deixei o Bar do Lusitano. Sentado nos fundos do coletivo, o rosto encostado na janela, sentia agora o frescor do vento noturno soprar em meu rosto. Fechei meus olhos e por alguma razão me vi chegando em casa; abrindo a porta do quarto devagarinho. Álex dormindo como um anjo. Ali, ao meu alcance: tão perto e tão longe das tempestades da vida. Uma parte de suas coxas insinuantes descobertas. Beijo-lhe aquela parte do corpo. Em seguida – devagarzinho – a altura de suas ancas leitosas. Beijo-lhe também o dorso. A nuca. Cheiro seus cabelos louiros e ele então desperta. Sorri. O sorriso mais doce, mais puro e mais lindo. Apago a luz. Fazemos amor. Depois dormimos.

Sabe, no fundo, o amor compensa tudo. Não via a hora de chegar...

"O nascimento do amor" (Botticelli)

sábado, 29 de janeiro de 2011

PARTE II - QUAL O CONSELHO QUE O SENHOR DARIA A UM ESCRITOR QUE ALMEJA CHEGAR A ACADEMIA DE LETRAS?

O CARA TAVA MORANDO EM OUTRO LUGAR. Na Europa. Dava aulas de literatura em Soborne. Havia escapado do covil dos porcos. Era agora celebrado. Bem merecido. Também gosto do que escreve. Olhei. O lugar já estava abarrotado de gente. Professores, alunos, doutores, leitores, a nata letrada de Manaus. Ou quase. Desconfio dessa gente. Me acomodei por ali no meio deles. Já começava a ficar irritado com tanta formalidade antes do cara começar a falar. Há poucos minutos ficava o Bar Castelinho e eu já começava a ficar com sede. Aí chamaram um poeta chato para declamar um poema longo e chato. Depois de declamar seu poema longo e chato o poeta ficou ali de bla bla blá nostálgico. Aquela gente toda ria e aplaudia. Estavam gostando daquilo, é claro. Eu não. Ficava ali olhando pra aquilo. Como se não bastasse, alguém começou a tocar no violão a porra do Porto de Lenha. Eles chamam por aqui de hino da terra. Se orgulham disso. Não aguento mais ouvir Porto de Lenha. Dia desses comentei sobre isso num encontro literário e alguém disse que eu não tenho amor pelas coisas da terra. É, acho que não tenho mesmo. Foda-se.
Foi então a vez de uma mulher alta e branca, com colares indígenas espalhados pelo pescoço e uma saia indiana – sentada bem ao ladinho do escritor celebrado - começar a falar por quase uma hora acerca de seu trabalho de doutorado sobre o mito na literatura do tal escritor. Tinha um sotaque sulista. Fui fumar um pouco na varanda. Olhar a noite que vinha chegando. Me sentia asfixiado. Fumei um cigarro. Depois outro. Voltei pra lá e a mulher continuava a tagarelar seu doutorado. Comecei a refletir sobre essa gente que faz doutorado acerca da obra de escritores. Parecem cãezinhos fiéis e bajuladores quando estão ao lado dos seus mestres. Eles sacodem negativamente a cabeça e eles também. Eles fazem uma carinha de aprovação e eles também. Eles coçam a fronte e eles também. Fazem um gesto de prece com as mãos e eles também. Esperava ansioso ele coçar os colhões pra ver se ela fazia o mesmo. Mas aí já era demais. Cãeszinhos amestrados é o que são. Comecei a rir sozinho. Olhei ao redor e as pessoas estavam muito sérias. Ainda bem que Álex não viera, pensei. Ia pedir pra sair e não voltar mais.
Depois de muito bla bla blá e enchimento de saco, o tal escritor celebrado começou a falar. E falou divinamente bem. Que timbre. Que domínio. Que autocritica. Um escritor admirável, não resta dúvidas. Falou pausadamente belo, da importância dos clássicos: “Mais valioso ainda é ler primeiro a literatura de nosso tempo, que é enorme. Muito mais valioso, pelo menos, para um escritor, é ler o que lhe cai em mãos, seguir o nariz.” Bobo o que disse, mas sincero, sei lá. Uma hora depois encerrava sua fala com a mesma eloquência com que iniciou. Todos bateram palma. Eu também. Aí começaram as perguntas. Todas idiotas do tipo: “O que levou você a escrever?” “Qual seu processo de criação?” “Qual o conselho que você daria a um jovem escritor?” “Qual a influencia que Flaubert teve na sua literatura?” PUTZ! Esta última Já tinha ouvido uma centena de vezes. Sempre vindo do mesmo cara. Olhei para trás e era justamente ele. Todos os encontros que vou do celebrado escritor sempre encontro o mesmo cara fazendo a mesma pergunta. Já tive até pesadelos. Em um deles, ele se erguia do meio de uma multidão e me perguntava: “Qual a influência que Flaubert teve na sua literatura?” Um dia vou chegar até ele e dizer-lhe o seguinte: “Escuta, meu chapa, por que sempre faz a mesma pergunta? Ou melhor dizendo, por que não deixa o pobre do Flaubert em paz?” Juro que da próxima vez eu lhe direi isso.
A sessão de perguntas não parava. Uma enxurrada. As perguntas aparentemente inteligentes, o escritor aclamado fazia um gesto de aprovação fisionómica, e o seu fiel cãozinho fazia o mesmo. Quando a pergunta era estúpida, ele coçava a testa e o seu fiel cãozinho também. As definitivamente não compreendidas, ele torcia a boca e o seu fiel cãozinho também. Houve uma que extrapolou todas: veio da fileira da frente. O cara perguntou: “Qual o conselho que o senhor daria para um escritor que almeja chegar á academia de letras?” Juro que senti vontade de pular no pescoço do figura. O escritor aclamado fechou bem os olhos como se sentisse muita dor e o seu fiel cãozinho fez o mesmo. Não fiquei pra ouvir a resposta. Abri caminho no meio do povo e me mandei dali.

"eyes in the heat" (Jackson Pollock)
DIAS QUENTES DE VERÃO MANAUARA, subia a Dez de Julho feito a sombra curva e amarga de Jeanne Moreau, embalada por “Prelude to a kiss” do Miles Davis, ou por um “Body and Soul”, do John Coltrane mesmo. Amo Jazz. Álex me acha um cara muito fresco. Sentimental demais. Mas o que essa criaturinha entende por sentimentos? Você vive sua vida inteira ou a metade dela ao lado de alguém e nunca vai saber dos seus reais sentimentos. O SER HUMANO É UMA OSTRA. Findo largando esse putinho e arranjando um homem de verdade. O foda é que estou enamorado dele. Viciado em seu corpo; seu cheiro de flor do campo. Falo dele em outra ocasião. Enfim, era uma tarde dessas quentes de agosto e eu entrei naquele Solar para ver como andava a venda dos meus livros. Faço isso pelo menos uma vez na semana desde que publiquei minha mais recente novela. A velha ronda pelas bancas de revistas e livrarias do centro de Manaus com alguma espécie de esperança besta na alma. Apesar de ver meus livros publicados, sou ainda impublicável. O fato é que com o tempo eu vou me sentindo um idiota. Desacreditado. Alguém que ninguém leva muito á sério por aqui. O grande inseto esmagado do Gregor Sansa. “Ah pobrezinho dele...” ÁLEX EM MEU QUARTO ME CURANDO MAIS UMA VEZ DAS MINHAS BEBEDEIRAS VIOLENTAS. “Você precisa se olhar no espelho, paizinho. Tá um bagaço.” Da sua maneira infantil, ele me encoraja. E assim, vai crescendo ao meu lado. Já disse que falo dele em outra ocasião. Pois bem. A dona do lugar - uma senhora de aparência arrogante e com a porra de um sotaque mineiro - é quem sempre me atende:
“Pois não?”
“Vim ver como estão se saindo os meus livros.” Fez uma cara de poucos amigos e disse:
“Ah, o senhor sabe como é, literatura amazonense não vende. O senhor teima em deixar eles aí. Eu lhe avisei.” Respirei fundo. Lá fora um calorzão daqueles. Verão escaldante nos trópicos.
“Não estou vendo eles na prateleira, minha senhora.”
“Qual é o livro, moço?” Dei uma olhadela em volta e os localizei escondidos no canto da prateleira:
“São aqueles espremidos bem ali no canto.” Ela se levantou com um ar irritado e cansado, caminhou até eles e os colocou visivelmente expostos. Contei-os em silencio. Não havia saído nenhum. Seis meses ali expostos e não havia saído nenhum. Será que é pedir muito? “Não adianta, moço, não vende. Ficam aí mofando.” Aí ela me mostrou um outro livro: “Olhe este aqui: Está aqui há mais tempo que o seu. É de um escritor amazonense, mas não vende.” E atirou grossamente o livro sobre a mesa. Fez bum! Tinha um belo acabamento. Peguei-o. Dei uma olhada na orelha. Era sobre a passagem de Chê na Amazonia. Um livro biográfico. Parecia interessante.
“Por que a senhora acha que não vende?”
“Ninguém lê escritores amazonenses. São todos amaldiçoados.”
Senti uma puta vontade de esmurrar a cara enrugada daquela velha. Foda-se o estatuto do idoso. Mas contive a cólera. Ou quase:
“NÃO, NÃO É ISSO NÃO, MINHA SENHORA, O FATO É QUE EXISTEM PESSOAS ASSIM COMO A SENHORA, IGNORANTES, ILETRADAS, EU NÃO SEI COMO A SENHORA TRABALHA COM LIVROS, EU FRANCAMENTE NÃO SEI, A SENHORA DEVIA TÁ FAZENDO OUTRA COISA, SEI LÁ, SABE, MAS NÃO CUIDANDO DE UMA LIVRARIA, TUDO MENOS CUIDANDO DE UMA LIVRARIA, A SENHORA É ALGUMA LOUCA? POR QUE NÃO VOLTA PRA PORRA DA SUA TERRA SUA VELHA MERCENÁRIA DE MERDA!!”
É, eu havia de fato explodido mesmo. Rodado a baiana, como dizem as bichas.
“Saia daqui ou eu chamo a polícia!” Berrou ela.
Peguei os meus livros e caí fora. Ela gritava da porta: “SEU GROSSO! ESTÚPIDO! SE APARECER POR AQUI DE NOVO EU CHAMO A POLÍCIA...”
E É DESSA FORMA QUE SÃO TRATADOS OS ESCRITORES AQUI NESSA TERRA.
Parei no Lusitano e pedi uma cerveja.
“O que aprontaste dessa vez, Gajo?” Perguntou o português. A toalhinha azul sobre o ombro.
“Aquela velha, seu Orlando, ela é doida. Me veja uma cerveja urgente.” Ele foi apanhar a cerveja. Os sinos da São Sebastião começaram a tocar. Aquela hora bem poderia ser o papagaio metamorfoseado no Frei Fugêncio. Só mesmo os contos de Félix para me alegrar. A cerveja veio. Entrou leve goela abaixo. A DOCE E VELHA ANESTESIA DOS DEUSES. O velho Monumento á Abertura dos Portos. Uma criança abestalhada dando milho aos pombos. Uns garotos adoráveis atravessando a praça. A abóboda boba do velho teatro bobo. E ao meu lado, um escriturário do banco afrouxando um pouco a gravata e tomando em seguida uma golada de sua cerveja. Leio em seu tabloide. Letras bem garrafais:
“PEDREIRO ESTÁ ALOJADO COM FLECHA DENTRO DA SUA CABEÇA.” Essa fodeu. O pior que vende. Tomei mais um gole da minha cerveja. Olhei as horas. Aqui o tempo e o calor te devoram num segundo. Quando não, te deixam abestalhado. Como não havia muito o que fazer naquela tarde quente de agosto, terminei minha cerveja e me dirigi até o Cauá. Havia uma palestra de um escritor renomado de Manaus. Não tinha mesmo o que perder. Tinha?

continua...
w.kooning - expressionismo abstrata

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O ÚLTIMO TIRO - PARTE III

III – NA PRESENÇA DE ZEUS AS DORES DOS OUTROS DEUSES ERAM PEQUENAS

"Netuno foi chamado ás pressas á presença de Zeus, que o colocou sentado diante de um grande tabuleiro de xadrez de cristal líquido, mostrando a ele o quão a vida é um jogo, e as pedras – quando erroneamente movimentadas – podem causar dilúvio nos olhos e no coração. Netuno ainda possuía os olhos vermelhos de choro e de vingança. Trovões rimbombavam furiosos no espaço do céu, fazendo tremer os pilares do grande templo. Na presença de Zeus, as dores dos outros deuses eram pequenas. Ele portanto, disse:
“Cedi-lhe a mortalidade e movestes as pedras erradas.”
“Foi o amor, Zeus, o amor deles é profundo demais.”
“Mas não vives nas profundezas?”
“A profundeza deles é mais profunda.”
“A sua é que é, e não a deles. Queres o castigo que dei a Atlas?”
“Não! O universo é pesado demais.”
“Então aprendes a mover corretamente as pedras do tabuleiro.”
Aí o celular vibrou sobre a mesa de metal e eu atendi. De novo interrompido. Sou sempre interrompido. Minhas divagações, meditações, minha paz, minhas linhas... mas daquela vez foi diferente. A voz do outro lado era feminina e doce e eu a conhecia tão bem que demorei a acreditar:
_Mário? oi, é a Clarice!
Não acreditei mesmo. Ajeite-me melhor na cadeira.
_C-Clarice? _ A maldita gagueira
_Surpreso?
_Pô, muito. (Se vocês pudessem ver o meu sorriso; minha alma amarela saltitando de alegria.)
_Soube do acidente. Como vai o braço?
_A mão. Foi a mão.
_Como vai a mão?
_No frio ela dói um pouco.
_Vai sarar.
_Não sara não.
_ Não faça drama, Mário. Escreva.
_Não consigo escrever quando estou sentindo dor. A dor atrapalha.
_Dramático como sempre...
Ai fez um pouco de silêncio.
_Quanto tempo depois daquele almoço. _Eu disse.
_ Usei as pétalas como marcador de livros.
_As rosas eram suas.
_Sei...
Outro silêncio.
_E você? O que faz da vida? Perguntei.
_Estou indo pra São Gabriel da Cachoeira. Residência médica.
Senti aquela alfinetada no peito.
_Saudades de nossas tardes...
_Também.
_Quando voltas?
_Um ano de residência.
_E o livro do Garcia Marquez, lestes?
_Adorei.
_Estou aprendendo a ter a paciência de Florentina Ariza.
_Literatura, Mário. Ninguém espera tanto.
_Achas mesmo?
_Acho.
_Espero você voltar.
_Um ano apenas. Nada se compara a 53 anos, 7 meses e 11 dias. Não foi o tempo que Florentino Ariza esperou por Fermina Daza?
_Espero você a bilhões de anos, esqueceu?
Risos do outro lado, e um outro silêncio.
_Estás onde? _Perguntou ela.
_Em um bar.
_Então estás bem. Preciso desligar agora. Beijos querido!
_Quando me ligas de novo? _Quis saber apressado.
_Um dia desses... eu ligo.
E desligou. Olhei para um céu enlutado e não vi estrelas. Nenhuma. Mas elas estavam lá, em algum lugar, escondidas. Rindo. Estrelas não choram. Um vento frio e forte soprava, enfiando seus dedos laminados na minha carne. O aparelho ainda tremia nas minhas mãos. Olhei para os lados. Aquela hora ainda havia pouca gente no Castelo e eu me senti imensamente compensado com o telefonema de Clarice. Segundos de completa felicidade. Era tudo de que eu mais precisava naquele momento. Se existia uma mulher que haveria de me causar alegria súbita na alma, essa mulher era Clarice. Presente nos momentos de fraturas. Expostas ou não. Um tiro. É. Clarice é como um tiro que atravessa a gente e não se aloja em canto algum da imperfeição do espírito. Fiz subir a fumaça do meu cachimbo e respirei bem fundo o ar daquela noite fria. E continuei rascunhando:

"As pedras ali dispostas no imenso tabuleiro de cristal líquido mostravam nítida vantagem a Zeus que, naquele instante, movia sua torre para a casa 05, dando-lhe um mate ao rei. Netuno ficou um longo instante calado. E finalmente disse:
“Procurei achar as variantes certas que justificassem a tentativa de traição e armadilha, mas não consegui.” Lamentou-se olhando a jogada. O tridente entristecido descansava ao seu lado.
“O amor tem um efeito sedativo e causa cegueira também.” Disse Zeus enfastiado.
“Achei que o certo seria jogar com os peões, mas decidi calcular as variantes.” Justificou-se Netuno.
“Deixou a partida ser levada pelas ondas. Erro crasso.”
Netuno levantou os olhos vermelhos.
“E quanto Hérbaro e Cécila, meu Zeus?”
“Serão castigados, ambos. Agora vai e não vaciles mais...”
Foi aí então que começou a cair pingos de dores secretas do céu e eu cambaleei para dentro do Castelo para junto dos outros heróis...

Para Mariza Marques...


em breve "O HOMEM QUE PERDEU O CU".

(novela)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O ÚLTIMO TIRO - PARTE II

A VIDA PROSSEGUE MOSTRANDO SUA GRANDE LÍNGUA

Segui calado e pensativo, preso ao frescor do ventre de uma tarde aprazível de sábado. Voltava a ficar solteiro e só. Sobrevivente de um verdadeiro tornado que me deixara com alguns arranhões no peito e na alma -além de uma mão quebrada. Mas a vida prossegue mostrando sua grande língua. As coisas voltavam a girar bem devagar ao meu redor: os carros, as vidas, as aves no céu. A Avenida Djalma Batista que se estendia infinita diante de meus olhos. Tudo tão devagar. A cidade ainda me soa belamente estranha. Parece estar sempre acordando de um porre homérico ou de uma hecatombe nuclear. Tudo ainda se regenerando. Um imenso estilhaço de coisas pairando no ar, se espalhando na terra. Via-me agora num bosque que mais parecia um bosque de mortos. Este nome seria o mais apropriado ao lugar: “Bosque dos Mortos”. Andei entre os mortos com a minha doce arrogância e parei diante de um chafariz e ele me fez ficar inebriadamente triste e revoltado. Quem eles pensam que enganam construindo tudo isso aqui? Eu, por exemplo, não quero enganar ninguém. Nem a mim mesmo porque já sou feito de enganos. Mas eles não tem esse direito. Estão transformando essa cidade num grande hospital, e os lugares recreativos, em centros reabilitadores.
Parei em um Café que serviam cervejas e pedi uma. Não pensem que a vida é perfeita, porque eu tinha no bolso os fósforos Paraná que são absurdamente vagabundos e me fizeram pagar um mico ao tentar, a muito custo, acender o meu cachimbo. Uma garçonete com cara de enfermeira, olhando aquilo, veio ao meu socorro:
_O senhor não acha melhor um isqueiro?
_Verdade. É bem mais prático. Quanto custa?
_Tome este. _Olhei para ela e ela parecia cansada. Acendi o cachimbo e uma fumaça densa e compacta subiu. E se espalhou. Um muro branco e sólido, oscilante como um sonho que me separava das outras pessoas. O cachimbo é mesmo um troço interessante. Ele concentra a ação da alma transformando essa ação numa ação morna. Do outro lado do muro, apenas sombras. Espectros de carne ocupando o mesmo espaço oco de suas vidas. Sentada no outro extremo desse espaço oco, havia uma senhora de meia idade a fumar elegantemente uma cigarrilha e ela era uma sombra empertigada e solitária congelada no tempo, lembrando um quadro triste de Manet. Passei por ela me dirigindo ao banheiro e ela sequer se moveu. Também construía seu muro oscilante de densa névoa e aquilo me adoçou um pouco a alma porque eu não era ali o único construtor de muros.
Ao voltar a mesa, fui recepcionado por um sátiro que brincava num ornamento de pedras sob a luz fosca de um abajur. Depois de capturar os insetinhos que rodopiavam em torno da luz, o sátiro mostrava ligeiramente sua língua atrevida e zombeteira. Cogitei que fizesse parte da ornamentação do lugar – uma vez que me encontrava num bosque – e portanto -tomado de admiração pela única coisa que o lugar me proporcionava de alegre, chamei erroneamente a atenção da garçonete com cara de enfermeira e perguntei a ela:
_Ele faz parte da decoração, senhorita?
_Quem, moço?
_O sapinho ali.
_Ai moço, onde?
_Ali, nas pedras.
O sapinho agora mostrava a língua para nós dois.
_Credo, não! Jaime! Jaime! Tem um sapo ali.
_É só um sapinho, senhorita. _Tentei acalmá-la. _Afinal, isto não é um bosque?
Jaime apareceu. Era um mulato alto e forte e ele segurava uma vassoura. Mas Jaime tinha uma alma de anfíbio porque riu e disse:
_É só um sapinho, sua boba. Pensei que fosse um sapo de verdade. _ E enfiou-se lá para dentro com sua vassoura, balançando a cabeça. O sapinho cansou da cena e partiu. E foi assim, que de um modo estranho e repentino, fui acometido de ataques de risos. Ri baixinho. Já era um começo de uma noite de sábado e eu tinha a certeza quase nômade que aquela seria uma noite longa e cheia de revelações. Olhei um instante para a senhora no outro extremo da mesa e ela ainda permanecia elegantemente congelada com sua piteira acesa. E era só o começo de uma noite de sábado. E eu desandei a rir. E depois, parti.


continua...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A P R E S E N T A Ç Ã O - O ÚLTIMO TIRO

O escritor e sua existência, entre aquilo que chamamos de “mundo real” e o mundo interior. Essa é a dimensão de O Último Tiro, de Márcio Santana. Um conto que materializa de forma perfeita toda a dinâmica da vida daqueles que são “amaldiçoados” pela escrita. A dupla dimensão entre as vicissitudes cotidianas de um homem comum e sua transcendente viagem pela imaginação _que alcança patamares mitológicos, olímpicos e sublima sua existência, por vezes frustrante.
Matizado com pinceladas autobiográficas, O Último Tiro é um texto profundo, que gera as mais diversas emoções no leitor e o induz a refletir sobre a fugacidade da condição humana.


Marcelo Farias, Manaus, 11 de janeiro de 2011.

O Ú L T I M O T I R O

PARTE I - A ARTE DO GALANTEIO

"Netuno, traído e abandonado por sua companheira Cécila, que fugira com Hérbaro, o escorpião, numa atitude inumanamente inconcebível aos olhos de Zeus - fez cair, Netuno, sobre a provinciazinha, durante infindáveis dias, lágrimas finas de morte que chicoteavam e ricocheteavam fazendo tremeluzir os lampiões a gás de tons fúnebres e apastelados que se estendiam enforcados por toda a extensão da principal avenida da cidade, onde, á noite, abrigam-se e embriagam-se os heróis em seus castelos e casarões..."
Toma-lhe! A desmitologização. Aí se aproximou uma mulher vestindo preto, portando a droga de um crachá e um radio transmissor e ela me interrompeu dizendo:
_ Não pode fumar aqui não, senhor.
_ Ah, não?
_ Não.
_ Nem cachimbo? É só um cachimbo.
É bom lembrar aos senhores que eu me achava naquela tarde de sábado num shopping center e fumava meu cachimbo novo, enquanto aguardava a sessão das quatro e vinte começar.
_ Há um espaço aqui ao lado só para fumantes. Mas eu não aconselho o senhor a ir, agora não, pois restam poucos minutos para o início da sessão. _Falou polidamente. Concordei apagando meu cachimbo. Fechei meu caderninho de notas, paguei a água e levantei-me, dirigindo-me em seguida á sala de projeção. Confesso a vocês que não suportei ficar vinte minutos ali dentro. O filme era uma porcaria: gravidez na adolescência e autoafirmação de uma geração comedores de cheesburgers, além, é claro, de doses homeopáticas de moralismo antiaborto. Ah, vão enganar outro. Deixei a sala e fiquei andando a esmo um tempo, perdido, olhando o preço das coisas nas vitrines. Entrei numa tabacaria e chequei o preço de alguns tabacos. Na verdade, queria mesmo tornar a ver a atendente com cara de Helen Hunt. A mesma do filme As good as it gets, em que se encanta com Jack Nicholson e o torna mais humano. Veio vindo ela em minha direção, com leve sorriso em seus lábios e disse:
_ Boa tarde!
_ Boa tarde! _Olhou-me com certa curiosidade e indagou:
_ O senhor não esteve aqui da outra vez comprando um cachimbo?
_ Sim, estive.
_ E o que foi isso no braço?
_ Ah, sim, uma cadeirada, senhorita. _ Como mentir para um anjo daqueles.
_Cadeirada?
_Sim, uma cadeirada.
_E quem foi esse mau?
_O canalha do amante da minha ex-mulher, com perdão da palavra.
_E o senhor sabia que estava sendo traído?
_Aquela velha história: o marido é o ultimo que sabe. Eu vagamente desconfiava.
_Errado e ainda fez isso com o senhor?
_Pois é... é a vida.
Sorriu. Era branquinha e tinha um sorriso lindo. Não sou racista, podia ser negra, parda, ruiva, morena, mas quero me ater aos fatos, pois que era branca sim e redimiria todos os meus pecados, além do mais, tinha a cara e o sorriso da Helen Hunt.
_E o que o senhor vai levar hoje?
_Você comigo para tomarmos juntos um bom chopp e apreciarmos esta tarde tão agradável que nos brinda lá fora com seu frescor vesperal. _Tinha de arriscar, ora. Sorriu novamente um sorriso encabulado e respondeu:
_Hoje não posso.
_Ora, mais por quê? Que horas costuma largar?
_Hoje, bem tarde, as onze.
_Hummm... que tal amanhã?
_Também não dá. _ Falávamos agora baixinhos como dois pequenos amantes a conspirar uma felicidade mútua. Eu fingia interesse pelos tabacos nas prateleiras. Mas estava mesmo era imaginando os pelinhos louros de sua vulva rosadinha; a ternura dos lábios vaginais em contato com a minha língua, causando um jorro abissal do néctar dadivoso que compensa toda a existência miseravelmente humana do homem. O mais vil de todos. O mais cachorro. O mais santo. O mais tolo. Também olhei para o volume de suas nádegas sob a saia azul de linho e era um traseiro nem muito grande nem muito pequeno, diria que médio, proporcional ao seu corpinho e também os peitinhos, os tornozelinhos, tudo tão delicado e discretamente espetacular que encaixaríamos perfeito e teríamos lindos filhotes, e você aí do outro lado do papel com certeza vai dizer, machista! Só vê isso na mulher? Não, porra, também vejo o lado humano que justifica sua inteligência, como ela bem demonstrou no início ao preocupar-se com a minha mão quebrada e ao ouvir com interesse a minha história. Então ela notou minha tristeza de cachorro e me disse:
_Semana que vem chegarão uns tabacos novos, tailandeses, cujo aroma é bem gostoso. Por que não passa aqui na quarta para conferir? _Ahh, as mulheres, docemente ardilosas. Sabem mesmo jogar. Meus olhos, é claro, iluminaram.
_São bons mesmo?
_Asseguro ao senhor que sim.
_Então estarei aqui na quarta.
_Vou esperar.
Havia nela, sem dúvida, um invencível encanto que me impelia ao exercício do galanteio. Por isso, antes de sair, ainda lhe disse:
_Alguém já lhe falou que você se parece muito com a Helen Hunt?
_Quem, moço?
_Helen Hunt. Uma atriz americana. Ela fez “Melhor impossível”, com Jack Nicholson. _ Fez que não sabia torcendo o narizinho afilado. Tentei lembrar-lhe de um filmezinho comercial e chato:
_Tornado! Você assistiu Tornado?
_Aquele do furacão que destrói tudo? _Os olhinhos dela brilharam.
_Este mesmo!
_É aquela?
_A própria. Mas precisa mesmo é ver Melhor impossível. Ela está maravilhosa e ela se parece muito com você. Até o sorriso, veja que coisa.
_Sério? Vou acreditar, hein?
E então nos despedimos. Talvez eu tenha cansado o leitor com essa passagem, mas eu precisava falar dela porque acabei voltando lá outro dia fazendo valer o meu intento. Mas isso já é uma outra história.
Seguimos?

continua amanhã