Você toma algumas aspirinas logo pela manhã e senta em frente do seu computador, Você precisa atualizar seu blog, terminar aquele conto, abrir seus e-mails, viajar, descansar, engravidar, Você está se sentindo muito vazio, Você é o vazio de si mesmo, Você ontem teve uma noite agradável na companhia daquele seu amigo que aprecia o que você escreve, que prefaciou o seu próximo livro de contos, ele o considera um escritor impressionista-realista, "É possível sentir o cheiro, a textura dos teus contos", ele sempre lhe diz isso de cara limpa, seum um gole de álcool na alma, Você então sente que ele fala a verdade, que está sendo sincero e você fica embevecido, TODO TOLO POR DENTRO, Ele acredita nos seus escritos, mas você ás vezes parece que não, parece que não acredita em você, Você foge de você mesmo, quando é que você vai mostrar a sua verdadeira cara, se livrar de vez dessa máscara falsa e covarde, Não há nenhuma mensagem em seu e-mail, nem um recadinho de Clarice, ninguém, também não há postagem nenhuma em seu blog, nem um texto interessante para a revista que você inventou, Sua cabeça dói um pouco, está de ressaquinha meu caro, Você agora tenta se concentrar no conto, mas não consegue, as teclas estão travadas, você tá travado, sua vida travou, mas ainda acho que você está fazendo charme, marketing de escritor, Tudo que tem a fazer é debulhar as palavras, é um domingo eu sei, e os domingos são como facas amoladas, Você está se saindo bem no trabalho, na sua velha função de professor, tem cumprido as goras direitinho, enrolado menos, isso é um motivo de orgulho pra você, você tem agora uma profissão, não é mais aquele vagabundo iluminado, as notinhas caiiinnndo, hein? hein? Esquece um pouco o conto, não adianta ficar así sentado com tua alma expirando dentro desse teu corpo, dentro desse quarto porque não vais conseguir espremer nada, só não esqueça de uma coisa, você é um herói escrevendo nessa cidade sonolenta, feia, tola e retrógrada, por isso que adoro essa tua teimosia,
que a poronga nunca se apague dos teus olhos...
domingo, 10 de julho de 2011
quarta-feira, 6 de julho de 2011
A BARATA CASCUDA DA BANHEIRO OU A DIALÉTICA DA ALMA III
Você não esperava por essa, não é mesmo meu camarada? esta barata cascuda aí no pia do seu banheiro, o ser mais repugnante que existe, o mais nojento de todos, o teu pior pesadelo acordado, sim, pois que não estás dentro de um sonho, tudo em tua volta é real, repara os ladrilhos, as paredes, o vaso, o espelho, as horas, Olha as horas que são, quase três da manhã de um sábado e você aí bêbado com seu chinelo nas mãos diante de uma barata cascuda daquelas bem grandes e você não sabe o que fazer, Ela está na pia onde você costuma levar o seu rosto todas as manhãs, onde escova bem a sua alma, onde se regenera, Você se aproxima dela e ela se volta e olha bem no fundo de seus olhos, aí você treme porque, bem, porque não és corajoso o suficiente para esmagá-la com seu chinelo, quem sabe dialogar um pouco com ela, você ainda é capaz disso, de dialogar, mas você e ela estão muito cansados, mortos por dentro, talvez um precise do outro, e é ela que inicia dizendo, "Escuta meu rapaz, faz logo o que você tem que fazer, já não me resta mais nada mesmo, sou uma barata velha e cansada disso tudo", Você, é claro, dá um passo para trás bastante assustado com a reação dela e ela continua, "Sei que te causo repulsa, enjoo de mulherzinha, portanto, acaba logo com isso antes que eu avance em você e te devore", Você se aproxima dela com sua chinela, parece decidido agora e ela esperta, apela,"saiba que você é pior que eu, você não tem amor próprio, você é egoista, anda por aí sem norte e sem identidade, e o que é pior, não sabe o que fazer da sua vida", Sua vez, "E você, você não passa de uma barata desprezível, uma merda de barata cascuda e eu estou no controle da situação, posso te matar, e aí?" Vez da barata, "Aí que isso não vai acontecer porque você só tem a você e a sua covardia, vacilas diante daquilo que podes pôr fim num segundo, mas não o faz, por isso, anda, acaba logo com essa estória antes que eu avance em você e desove dentro dos teus olhos", Você se apavora e tomba vertiginosamente sobre o vaso sanitário, Você não sente mais caber dentro da banheiro, dentro de você mesmo e você sabe que se você não agir logo, a barata vai ocupar todo o espaço de sua casa, de seu mundo, de seu átomo, "Quê que cê tá fazendo aí sentado? que porra de espécie humana é você? Você é feito do quê? Você sente nojo de mim e eu de você, então porque raios não chegas logo a um consenso? deixa eu te dizer uma coisa, vivi mais que a natureza consente a uma barata, vi mais do que você viu com essa sua idade toda, e lhe digo, a aberração humana me assusta, Vocês nos veem como seres asquerosos, mas vocês é que são asquerosos, nunca vão evoluir, quê que há? tá apaixonado? tá amando? sei que está, e você amando é engraçado, fica tão vulnerável às coisas que não consegue pôr fim a essa situação ridícula, o amor torna vocês humanos demais, humanos e cegos, escuta o que vou te dizer, não é todo dia que voltas para casa com um arranhão feio no peito e encontra uma barata cascuda na pia do seu banheiro para conversar, antes que eu assuma o teu corpo e me torne a tua mãe, acaba logo com isso tudo!" Você então se levanta, pega o chinelo e tenta acertar por diversas vezes a barata que se esquiva, Ela agora não duvida mais de sua coragem e apela uma última vez, "Espera um pouco aí, você gosta de Abba? The winner takes it allll, tenho a coleção completa lá em casa, e de fimes iranianos você gosta? sei que gosta, semana passada assisti a um que
PLAFT!!
PLAFT!!
terça-feira, 5 de julho de 2011
03 PUNKS E UM SÔCO INGLÊS
Você está agora no balcão do seu bar preferido, bebendo sua costumeira cerveja quando ela se vira pra você e diz, "Vou vender o Castelo, Mário, e vai ser ainda este ano", A cerveja nessa hora entra enviesada garganta abaixo, a música na Juke Box é uma porcaria, e esses roqueirozinhos de merda em tua volta, "Não dá mais, maninho, são nove anos pelejando com isso aqui, ah, cansei," Você pede outra cerveja e ela vem taciturna, cabisbaixa, deslizando no balcão, "E o que vai ser disso aqui?" Você pergunta a ela enquanto ela enche o seu copo até à borda, "Tem um médico aí interessado em comprar este prédio, quer fazer disso aqui uma clínica," "Porra, uma clínica?" "É, uma clínica, uma clínica psiquiatrica", Você fica um pouco calado, pensativo, você vê pessoas entrando e saindo pela portinhola do Castelo, logo, logo, o lugar vai estar entupidinho de gente, como sangue circulando numa artéria de concreto porque é assim que é o Castelo às sextas-feiras, "Vão demolir tudo isso com certeza", "Acho que sim", "Você pensativo de novo - sobrancelhas levantadas, "Mas se demolirem o Castelo vão estar demolindo um pedaço dessa avenida, dessa cidade, dessas pessoas todas aqui, de mim", Você começa a delirar, o àlcool chegando ao córtex, "Que se dane, nada fica muito tempo em pé e eu estou cansada disso aqui", Você então dá de ombros dizendo, "Sendo assim, você é a dona do Castelo mesmo", Aí você e ela ficam calados para sempre, então ela se afasta e vai até a pia esmagar os limões que é pra cachacinha dos caras duros que frequentam o lugar, mas você também já foi um cara duro e vivia mendigando umas doses - isso antes de descolar esse empregozinho de professor, Você se recusa a lembrar, Você olha ela esmagar os limões com uma avidez esmagadora, há qualquer coisa de estranho nos lábios dela, uma flor amarela? Ela agora lava os copos um por um e os arruma direitinho sobre a prateleira de madeira acima da pia, Você mira agora o espelho bem a sua frente e vê um pedaço do seu rosto espremido entre duas garrafas de vodika vagabunda e você é só um pedaço de você mesmo, UM TOURO ABATIDO NO BALCÃO DO SEU BAR PREFERIDO - assim mesmo, bem maíusculo - Você e a sua morte que sempre lhe escapa, Uma bruxa de babydol negro baila agora no teto do Castelo e a sua atenção é toda dela até você cansar e olhar para o lado, assim, do nada, dois punks se instalam no balcão e iniciam uma conversa num dialeto estranho, Lhes é servida uma cerveja e eles começam a beber e a conversar enquanto o mundo se desmorona, Você olha como eles abusam da indumentária, parecendo dançarinos de xaxado, não ria, Você os encara com aquele seu sorriso irônico nos lábios e prepara-se para o comentário infeliz quando é salvo de um sôco inglês por aquele seu amigo que aprecia seus contos e que prefaciou aquele seu livro que nunca será publicado, Ele o convida para sentarem lá fora e vocês então se acomodam ao lado da velha árvore milenar que tem os braços cruzados por que está de mal com o mundo, Você acende um cigarro, cruza as pernas e espera este seu amigo iniciar a conversa, "Tava lendo teus contos, Mário, cara, tu escreves bem, vais fazer sucesso", Ele vive dizendo a mesma coisa e você parece gostar de ouvir ele dizer estas mesmas coisas, elas o encorajam, Você se envaidece, é como se tudo de repente voltasse a ter algum sentido, e ele continua, "És um escritor impressionista-realista", "Escritor impressionista-realista? Isso existe?" "Se não existe, acabo dce criar", "Tens cada uma", Você levanta o indicador e grita, "Karina, vê mais outra, filhota!" A noite vai chegando e vai mostrando sua gengiva negra, "Seu Maia" é o teu melhor trabalho", E ele faz um gestozinho com os dedos que aqui não dá pra explicar, "Conseguistes penetrar na alma de um velho, ele é todo um poema, um poema em prosa", Mas você está com sua atenção dispersa, voltada para os punks que bebem lá dentro e conversam num dialeto estranho enquanto o mundo se desmorona, Aí chega aquele seu outro amigo que também escreve, O Dean Moriarty amazonense, o mesmo que procurou Sal Paradise para que ele o ensinasse a escrever, e ele nem sonha com essa analogia, Ele ainda é jovem, um garoto aspirante a escritor também, mas que tem uma direita que às vezes te nocauteia e te deixa zonzo, Ele não pede licença e vai logo sentando à mesa, "Escuta isso aqui, Mário: estou escrevendo como um trem descarrilado, meu espírito é uma laranja descendo descabaçada ladeira abaixo, publicarei meus escritos solitários para dançarinos mancos, e não gosto de canetas ou cadernos de capa dura; escrivaninhas me fazem sentir um bonachão de óculos, meu caminho de pedras, se abre no suor assassino dos meus passos..." E ele continua lendo numa sofreguidão, num desespero sem fôlego, como um trem que descarrila mesmo e no final ele ginga seu corpo como um boxeador que prepara seu jab e pergunta, "Que achou?" "Bom, muito bom", "Meu caro, me fez lembrar os beatiniks", Comenta este outro amigo, "É, Miguel é o nosso Dean Moriary amazonense", Você acaba entregando o jogo e se levanta e vai até o banheiro, no caminho cumprimenta alguns rostos conhecidos, inclusive, o daquele carinha que vive insistindo para que você envie uns textos seus para um fanzine imundo que ele inventou, "Tá, vou mandar", Sozinho no banheiro, você mija como um tourinho valente, Você tenta unir uma anafitalina que se separou das outras e está amuadinha no canto e você consegue, mas acaba gerando um motim entre elas porque até as coisas nasceram para ficarem sozinhas, Na parede, uma frase anarquista e sem efeito, "FODA-SE O PAÍS", Você balança bem o seu pênis até que não sobre uma gota sequer que venha manchar sua calça bege que não combina nem um pouco com a sua camisa de polo laranja e foi Clarice que naquela tarde quente e grávida de sonhos lhe disse, "Até que és simpático, Mário Augusto, o problema é que não sabes combinar a calça com a blusa", Ahhh, as mulheres, são tudo de louvável no mundo, Você reflete, Volta para a mesa onde agora eles discutem cinema,
"Acho que deveríamos homenagear nessa edição da revista, o Sganzerla, o que acham?" "É, Sganzerla é uma boa", Você concorda, mas aí alguém diz, "Sganzerla? porra, quem é Sganzerla?
"Acho que deveríamos homenagear nessa edição da revista, o Sganzerla, o que acham?" "É, Sganzerla é uma boa", Você concorda, mas aí alguém diz, "Sganzerla? porra, quem é Sganzerla?
RETORNO DO DEGENERADO
Mil perdões, senhores! andei afastado sem postar nada, mas já estou de volta. Agradeço a visita de todos vocês. Sintam-se à vontade para comentar.
Meu carinho à todos!!
Márcio Santana
Meu carinho à todos!!
Márcio Santana
segunda-feira, 2 de maio de 2011
A DIALÉTICA DA ALMA I
"Você e eu somos um só, de modo que hoje, nossa vontade prevalecerá sobre nossas obrigações rotineiras, sabes a que me refiro, aquelas caminhadas que costumamos fazer, você e eu, pela cidade compacta, agora não mais, é verdade, pois que ela dilatou-se, assim como nós nos dilatamos e jä não cabemos mais dentro de nossos próprios vãos..." Que droga! A METALINGUAGEM outra vez, Você berra enfurecido riscando com violencia o seu caderninho de notas e, como se jä não bastasse, atira ao longe a canetinha bic que quica muitas vezes, saltando gritinhos de dor caindo desfalecida no chão do quarto, Você escorrega o corpo sobre a cadeira espaldada e fica assim um bom tempo, como um tronco sem alma descendo o rio, Seus olhos pequenos miram agora o radinho digital piscando as horas - quatro e pouco da tarde, O TEMPO, O TEMPO todo vagalumeando-lhe a angústia, "O tempo é metódico, cruel e pesa sobre meus ombros" um lampejo, você tem a memória fraca, por isso se apressa em anotar nas linhas da testa antes que tudo evapore e foi ELA que ensinou-lhe este velho truque: quando se quer guardar algo na lembrança, anota-se nas linhas da testa, un nome, uma data, um número, uma vingança ou até mesmo uma frase, Você então anota a tal frase em sua testa, "O tempo é cruel e metódico e pesa sobre meus ombros", ridículo, você reflete, mas não esqueça que você também é supersticioso como ELA o é, e depois, a frase é interessante, embora faça pouco sentido, ou nenhum sentido, NÃO, NÃO, NÃO, não faz sentido algum, Você apaga a frase das linhas da testa, "o tempo é cruel e metódico e pesa sobre meus ombros" seja ao menos autentico, rapaz, Você volta á sua amargura, o vapor da tarde entra pelas venezianas do quarto formando uma camda espessa e fantasmagórica, Você olha curioso para aquilo, é nesse instante que o telefone começa a tocar, uma-duas-três-quatro, na quinta você atende, "Mário? Mário Augusto?" "É ele, pois não?" "Sei qual é o teu problema, velho, é o teu nome, Mário, Mário Augusto, este nome não te conduzirá a lugar algum", Você ajeita-se na cadeira pra ouvir melhor, "Quem tá falando?" "Quem te quer bem, quer um conselho meu camarada? troca esse nome, um nome mais decente, qualé? e não sou só eu que afirmo isso, são os números, os números, Mário Augusto, os números dizem tudo e se não acreditas nos números, continuarás sendo um mero escritorzinho de província, é isso que tu queres pra tua vida? pra essa profissão que abraçastes de corpo e alma? escuta o que eu te digo!" "Escuta aqui você, VAI-TE-A-PUTA-QUE-TE-PARIU!!, e com aquela classe, você bate o telefone, depois de minutos ali parado, refletindo sobre aquilo tudo, você então reage indo ao quarto DELA, porque é de vida que você precisa e trancafiado em seu casulo jamais se exerce a vaidade da criação,
São quatro e pouco, são os olhos digitais do tempo que piscam pra você, Você caminha até lá, bate á porta DELA, "Entra!" ELA está lá, hipnotizada frente a TELEFOME com o controle remoto nas mãos, "Vou dar uma saidinha", você diZ, "Aonde vais?" A voz dela é metálica como de um personagem saído de uma ficção cyber punk,"Trocar esta camisa, ficou pequena", "É porque não prestas atenção, a cabeça nas nuvens, e depois?" "Vou á biblioteca pegar um livro pra ler", "E depois?" "Lê-lo em algum lugar, no porto, talvez", "E depois?" "Vou ao Gebes, hoje é sexta e tem jazz de graça", "E depois?" "E depois?",
r e t i c ê n c i a s
Você repara que o vapor denso e fantasmagórico também entra pelas venezianas do quarto DELA, tudo muito estranho, "Vou a um bar espairecer um pouco", O quarto fica em silencio, ELA aponta com o controle sem tirar os olhos da TELEFOME e diz, "Ali na gaveta tem os trocados da feira, vê se não chega tarde, olha tua dor de estômago, Já arrumou emprego?"
São quatro e pouco, são os olhos digitais do tempo que piscam pra você, Você caminha até lá, bate á porta DELA, "Entra!" ELA está lá, hipnotizada frente a TELEFOME com o controle remoto nas mãos, "Vou dar uma saidinha", você diZ, "Aonde vais?" A voz dela é metálica como de um personagem saído de uma ficção cyber punk,"Trocar esta camisa, ficou pequena", "É porque não prestas atenção, a cabeça nas nuvens, e depois?" "Vou á biblioteca pegar um livro pra ler", "E depois?" "Lê-lo em algum lugar, no porto, talvez", "E depois?" "Vou ao Gebes, hoje é sexta e tem jazz de graça", "E depois?" "E depois?",
r e t i c ê n c i a s
Você repara que o vapor denso e fantasmagórico também entra pelas venezianas do quarto DELA, tudo muito estranho, "Vou a um bar espairecer um pouco", O quarto fica em silencio, ELA aponta com o controle sem tirar os olhos da TELEFOME e diz, "Ali na gaveta tem os trocados da feira, vê se não chega tarde, olha tua dor de estômago, Já arrumou emprego?"
segunda-feira, 18 de abril de 2011
JESUÍNO MARABÁ - FINAL
"Conceição teve um novo acesso de tosse e dessa vez não conseguiu me dizer mais nada..."
"E onde ela está agora?" Perguntei a Algemiro. "Como ela não tivesse para aonde ir, pois que o fogaréu se espalhou, engolindo o barraco todo, ficando ela sen teto portanto, então eu a levei para minha casa. Nunca mais voltou a falar, Morreu poucos dias depois. Voltei então para Rio do Sol. Na viagem de volta, conheci Leonor que estava vindo para enterrar o pai. Criou-se entre nós um forte laço que dura até hoje. E esta é a história da minha vida vida, seu Paulo. Não é uma história bonita de se ouvir..."
Ainda chovia. Mais bem pouco. Olhei para a garrafa de cachaça vazia sobre o chão de barro batido. Contemplei por um instante a chuva fina que continuava a cair e então eu disse:
"É, amigo, mas a vida continua, não é mesmo?" Foi tudo o que eu covardemente pude dizer aquele homem. Leonorm veio juntar-se a nós. Nela, Algemiro finalmente encontrara amor, compreensão, afeto, calor humano, enfim, a paz verdadeira cuja existencia os anos de sofrimento o fizeram duvidar que existissem. Ao menois aquele desabafo servira para Algemiro exorcizar todos os fantasmas do seu passado.
Pegou Leonor cintura e puseram-se a dançar no terreiro. Foi a primeira e última vez que o vi assim: feliz, sorrindo e até dançando, antes de eu vir morar definitivamente em Manaus e nunca mais saber notícias suas.
(do livro Doze Contos Amazônicos, publicado em 1999)
"E onde ela está agora?" Perguntei a Algemiro. "Como ela não tivesse para aonde ir, pois que o fogaréu se espalhou, engolindo o barraco todo, ficando ela sen teto portanto, então eu a levei para minha casa. Nunca mais voltou a falar, Morreu poucos dias depois. Voltei então para Rio do Sol. Na viagem de volta, conheci Leonor que estava vindo para enterrar o pai. Criou-se entre nós um forte laço que dura até hoje. E esta é a história da minha vida vida, seu Paulo. Não é uma história bonita de se ouvir..."
Ainda chovia. Mais bem pouco. Olhei para a garrafa de cachaça vazia sobre o chão de barro batido. Contemplei por um instante a chuva fina que continuava a cair e então eu disse:
"É, amigo, mas a vida continua, não é mesmo?" Foi tudo o que eu covardemente pude dizer aquele homem. Leonorm veio juntar-se a nós. Nela, Algemiro finalmente encontrara amor, compreensão, afeto, calor humano, enfim, a paz verdadeira cuja existencia os anos de sofrimento o fizeram duvidar que existissem. Ao menois aquele desabafo servira para Algemiro exorcizar todos os fantasmas do seu passado.
Pegou Leonor cintura e puseram-se a dançar no terreiro. Foi a primeira e última vez que o vi assim: feliz, sorrindo e até dançando, antes de eu vir morar definitivamente em Manaus e nunca mais saber notícias suas.
(do livro Doze Contos Amazônicos, publicado em 1999)
sexta-feira, 15 de abril de 2011
JESUÍNO MARABÁ - PARTE VI
QUERIA MINHA LIBERDADE E NÃO TINHA OUTRO JEITO A NÃO SER MATAR JESUÍNO
Jesuíno me obrigou a acompanhar ele. Me trouxe para cá e aqui me fez de puta. Se tornou meu cafetão. Passei a sustentar ele e quando eu chegava em casa sem dinheiro, ele me espancava. O desgraçado batia em mim por qualquer motivo. Fugi dele muitas vezes, mas sem muita sorte. Aonde quer que eu me escondesse, ele me achava e aí todo aquele inferno se repetia. Não aguentava mais. Estava cansada, doente e cada vez mais ficava difícil conseguir um freguês. Por tudo isso tomei uma decisão: naquela noite o dinheiro que arranjasse seria pra comprar uma passagem e sumir dali pra bem longe dele. Longe o bastante para que ele jamais pudesse me encontrar. Dei sorte logo ao chegar no Natureza. Um homem velho e gordo me chamou para a mesa dele. Bebemos, conversamos, nos divertimos um bocado. Lá pelas tantas fomos para o quarto. O sujeito mal conseguia se manter em pé de tão bêbado que estava. Mas tinha que aturar ele, pois que em sua carteira estava o dinheiro que compraria minha liberdade. Aí então entramos no quarto, e logo ele se atirou de braços na cama que tombou com seu peso. Peguei ele pelo meio e sacudi ele várias vezes. Nada. O infeliz tinha mesmo apagado de vez. De pronto, retirei da carteira dele todo o seu dinheiro. Fiquei espantada comigo mesma, pois que não senti nem um pingo de remorso ou arrependimento em fazer aquilo. É,meu irmão, a vida acaba ensinando a gente a não ter respeito ou escrúpulo por ninguém. Naquele momento eu só pensava em mim. Estava preocupada apenas em fugir daquele inferno. Coloquei todo o dinheiro na minha bolsa e saí fora dali. Fui direto pra casa. Jesuíno ainda não havia chegado. Como de costume ele só deveria voltar da farra pela manhã. Enquanto arrumava numa valise minhas roupas, sentei na cama e comecei a sonhar acordada. Já até me via em outros lugares, andando livre, sorrindo; vivendo outra vida. Uma vida mais decente. Sem medo, sem remorsos, sem ódio, sem culpas. De repente, fortes batidas na porta apagaram da minha mente todo aquele sonho e me trouxeram de volta pra realidade. E a realidade era brutal, desumana e tinha um nome: Jesuíno Marabá. É, só podia ser ele, e pelas pancadas na porta, estava muito bêbado. Pé ante pé caminhei até á porta e olhei pelo buraco da fechadura. Do outro lado, o desalmado. Antes que eu pudesse esconder o dinheiro e pensar em alguma coisa, ele arrebentou a porta com um ponta pé e entrou casa á dentro. Tentei ainda gritar por socorro, mas meu grito foi calado com um murro certeiro que me atirou no chão. O teto começou a girar e minha visão foi escurecendo e aí então eu desmaiei. Apaguei mesmo. Só depois de muito tempo foi que retornei. Meu corpo todo dolorido. Olhei minha bolsa aberta no chão. Todo o dinheiro havia sumido. Fui até o espelho e só então pude ver meu rosto desfigurado. Gotas de sangue ainda escorriam por uma brecha que se abriu na minha testa e o sangue pingava na pia. O meu olho roxo inteiramente fechado. Ahh, amaldiçoei o dia em que o conheci. Amaldiçoei também todos os dias em que fui obrigada a viver com ele. Queria ver ele morto. Precisava colocar um ponto final naquela situação.Queria minha liberdade e não tinha outro jeito a não ser matar Jesuíno.
Olhei novamente no espelho o meu rosto desfigurado e comecei a imaginar um plano. Não aguentava mais. Tudo se repetiria. Ele tinha levado todo o meu dinheiro e voltaria mais tarde totalmente bêbado e me espancaria até a morte. Não me sujeitaria mais aquilo lá, não. Quando a noite chegou, não
conseguia dormir. O ferimento voltou a sangrar. Estava diante do espelho ajeitando o curativo quando ele retornou. Não disse nada. Foi direto para o quarto e se deitou calado. Como de costume, estava de porre. Esperei algum tempo até se firmar no sono e aí então fui até a cozinha, apanhei um facão bem amolado e voltei para o quarto onde ele dormia. Sim, o desgraçado dormia tranquilo como se nada tivesse acontecido. Sentei na beira da cama e contemplei seu corpo nu da cintura pra cima. Me certifiquei se ele estava mesmo dormindo. Então juntei toda minha força que ainda me restava e enterrei fundo o facão em seu peito. Jesuíno pro meu espanto, abriu os olhos e numa reação repetina, o maldito me agarrou pelo pescoço e começou a me estrangular. Seu corpo pesado desabou sobre o meu e fomos para os dois no chão do quarto. Seus olhos arregalados enquanto me estrangulava. Pensei que ia morrer. Mas logo, toda aquela força descomunal foi esmorecendo. Suas garras se desprenderam do meu pescoço e caíram pesadamente no chão como um fardo de farinha. Me arrastei pra bem longe dele e me pus de pé. Chutei várias vezes seu corpo, e como não se mexia, constatei que estivesse morto. Não me dando por satisfeita, peguei um garrafão de álcool e despejei por sobre o corpo do condenado e ateei fogo. A alma daquele demônio ainda vai arder por muito tempo nas profundezas do inferno!"
zona portuária de Manaus
Jesuíno me obrigou a acompanhar ele. Me trouxe para cá e aqui me fez de puta. Se tornou meu cafetão. Passei a sustentar ele e quando eu chegava em casa sem dinheiro, ele me espancava. O desgraçado batia em mim por qualquer motivo. Fugi dele muitas vezes, mas sem muita sorte. Aonde quer que eu me escondesse, ele me achava e aí todo aquele inferno se repetia. Não aguentava mais. Estava cansada, doente e cada vez mais ficava difícil conseguir um freguês. Por tudo isso tomei uma decisão: naquela noite o dinheiro que arranjasse seria pra comprar uma passagem e sumir dali pra bem longe dele. Longe o bastante para que ele jamais pudesse me encontrar. Dei sorte logo ao chegar no Natureza. Um homem velho e gordo me chamou para a mesa dele. Bebemos, conversamos, nos divertimos um bocado. Lá pelas tantas fomos para o quarto. O sujeito mal conseguia se manter em pé de tão bêbado que estava. Mas tinha que aturar ele, pois que em sua carteira estava o dinheiro que compraria minha liberdade. Aí então entramos no quarto, e logo ele se atirou de braços na cama que tombou com seu peso. Peguei ele pelo meio e sacudi ele várias vezes. Nada. O infeliz tinha mesmo apagado de vez. De pronto, retirei da carteira dele todo o seu dinheiro. Fiquei espantada comigo mesma, pois que não senti nem um pingo de remorso ou arrependimento em fazer aquilo. É,meu irmão, a vida acaba ensinando a gente a não ter respeito ou escrúpulo por ninguém. Naquele momento eu só pensava em mim. Estava preocupada apenas em fugir daquele inferno. Coloquei todo o dinheiro na minha bolsa e saí fora dali. Fui direto pra casa. Jesuíno ainda não havia chegado. Como de costume ele só deveria voltar da farra pela manhã. Enquanto arrumava numa valise minhas roupas, sentei na cama e comecei a sonhar acordada. Já até me via em outros lugares, andando livre, sorrindo; vivendo outra vida. Uma vida mais decente. Sem medo, sem remorsos, sem ódio, sem culpas. De repente, fortes batidas na porta apagaram da minha mente todo aquele sonho e me trouxeram de volta pra realidade. E a realidade era brutal, desumana e tinha um nome: Jesuíno Marabá. É, só podia ser ele, e pelas pancadas na porta, estava muito bêbado. Pé ante pé caminhei até á porta e olhei pelo buraco da fechadura. Do outro lado, o desalmado. Antes que eu pudesse esconder o dinheiro e pensar em alguma coisa, ele arrebentou a porta com um ponta pé e entrou casa á dentro. Tentei ainda gritar por socorro, mas meu grito foi calado com um murro certeiro que me atirou no chão. O teto começou a girar e minha visão foi escurecendo e aí então eu desmaiei. Apaguei mesmo. Só depois de muito tempo foi que retornei. Meu corpo todo dolorido. Olhei minha bolsa aberta no chão. Todo o dinheiro havia sumido. Fui até o espelho e só então pude ver meu rosto desfigurado. Gotas de sangue ainda escorriam por uma brecha que se abriu na minha testa e o sangue pingava na pia. O meu olho roxo inteiramente fechado. Ahh, amaldiçoei o dia em que o conheci. Amaldiçoei também todos os dias em que fui obrigada a viver com ele. Queria ver ele morto. Precisava colocar um ponto final naquela situação.Queria minha liberdade e não tinha outro jeito a não ser matar Jesuíno.
Olhei novamente no espelho o meu rosto desfigurado e comecei a imaginar um plano. Não aguentava mais. Tudo se repetiria. Ele tinha levado todo o meu dinheiro e voltaria mais tarde totalmente bêbado e me espancaria até a morte. Não me sujeitaria mais aquilo lá, não. Quando a noite chegou, não
conseguia dormir. O ferimento voltou a sangrar. Estava diante do espelho ajeitando o curativo quando ele retornou. Não disse nada. Foi direto para o quarto e se deitou calado. Como de costume, estava de porre. Esperei algum tempo até se firmar no sono e aí então fui até a cozinha, apanhei um facão bem amolado e voltei para o quarto onde ele dormia. Sim, o desgraçado dormia tranquilo como se nada tivesse acontecido. Sentei na beira da cama e contemplei seu corpo nu da cintura pra cima. Me certifiquei se ele estava mesmo dormindo. Então juntei toda minha força que ainda me restava e enterrei fundo o facão em seu peito. Jesuíno pro meu espanto, abriu os olhos e numa reação repetina, o maldito me agarrou pelo pescoço e começou a me estrangular. Seu corpo pesado desabou sobre o meu e fomos para os dois no chão do quarto. Seus olhos arregalados enquanto me estrangulava. Pensei que ia morrer. Mas logo, toda aquela força descomunal foi esmorecendo. Suas garras se desprenderam do meu pescoço e caíram pesadamente no chão como um fardo de farinha. Me arrastei pra bem longe dele e me pus de pé. Chutei várias vezes seu corpo, e como não se mexia, constatei que estivesse morto. Não me dando por satisfeita, peguei um garrafão de álcool e despejei por sobre o corpo do condenado e ateei fogo. A alma daquele demônio ainda vai arder por muito tempo nas profundezas do inferno!"
zona portuária de Manaus
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