segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A VISITA


A VISITA

(...) Vivia de algum modo aqueles duros e doces dias sem leme algum; singrando os rios das dúvidas. Ceifando campos de espinhos. Olhando-me no espelho e não vendo mais o meu reflexo. Havia me tornado o doce vinho das incertezas baudelerianas descendo-me goela abaixo mesmo nas horas mais fustigantes e miseráveis daqueles dias. Eu havia me tornado o próprio puteiro. Odisseu preso no olho do ciclope.

Aí que um dia recebi a visita dela. Tolice era acreditar que ela nunca fosse me achar. Ao contrário das cadelas que ao meu ver são bem mais prudentes, sensatas e realistas, as mães acham que podem lamber seus filhotes a vida toda. O que é um grande engano. Mas aí então que eu acordei com batidas secas na porta e pus-me assustado no centro da cama vendo tudo girar em minha volta. Minha cabeça era um torno de fundição girando girando enquanto as batidas secas insistiam martelando o crânio. Olhei pra Alex que dormia feito um anjo ao meu lado como se nada daquilo estivesse acontecendo. Os olhos do sol penetraram vivos e pontiagudos pelo vão da janela semi-aberta derramando sua luz pelo chão do quarto. Levantei muito a contra gosto e fui ver quem era. Abri um palmo da porta e dei com rosto gordo de Dona Dalva que vinha anunciar a visita ilustre:
“Esta senhora esta lhe procurando!” Tomei um caralho de um susto quando a sombra d ela se colocou atrás de Dona Dalva. Pediu licença e foi entrando devagar, deslizando seu olhar lúgubre por todo o interior do quarto. Caminhou ate á janela e ali ficou por longos e torturantes minutos. Voltei a me sentar na cama ao lado de Alex que continuava dormindo. Não sei por quanto tempo reinou um silencio azedo e mordaz ali dentro. Deixei que ela puxasse primeiro o sabre da bainha e desse inicio a esgrima como sempre o fez. E foi exatamente o que aconteceu:
“Tal e qual o pai.” Disse ela finalmente.
“Que que tem ele?”
“Gostava de viver na lama com os porcos.” Respondeu ela. Sobreveio novamente o silencio carregado de azedume. Ela parecia um monte de escombros escorada na janela com seu olhar triste. O olhar triste das mães. Ouvi dali as primeiras portas de ferro dos bares erguendo-se preguiçosamente juntamente com os primeiros palavrões que já se acotovelavam pelas ruas estreitas da velha Mauá. Era o puteiro arreganhando-se nos primeiros acordes do dia.
Alex dessa vez se moveu um pouquinho só na cama e ¼ de suas coxas lisas e brancas escaparam furtivamente dos lençóis e ali se mantiveram expostas, e eu tive vontade de amá-lo outra vez, o dia inteiro. Tratei de cobri-las. Era bonito ver ele dormindo. Puro como um anjo: tão longe e tão perto das tempestades da vida. Ela tornou outra vez:
“Não sei por que puxaste tanto a teu pai. É tal e qual teu pai: escarrado carne e osso. Sim, porque teu pai nunca teve alma.”
“Não comece, porra!!” Segurei minha têmporas inchadas que pareciam duas maças explosivas.
“A verdade machuca, eu sei. Mas ela precisa ser dita, não é mesmo?”
“Como a senhora descobriu que eu estava aqui?” Desconversei.
“Farejei tuas coisas. Tuas porcarias escritas ainda estão espalhadas pela casa.” Fui ate a janela me aproximando dela. Olhamos a rua, calados. Examinei de perto seus olhos cobertos por películas de lágrimas e senti a mão gelada de um cadáver apertando meu coração. O quarto transformara-se numa enorme pupila borbulhante de tristeza.
“O que a senhora quer, mãe?”
“Ver como estás?”
“Estou bem.”
“Não sabes o mal que estás fazendo vivendo aqui. Isso aqui é só lama e dor. Volta pra tua casa.”
“Gosto daqui, mãe.”
“Vais enterrar o que te resta da juventude aqui, nesse buraco?”
“Escolha minha. Problema meu.”
“Toda escolha é um caminho sem volta. Lembras disso.”
“Lembrarei, mãe.”
Se virou lançando o olhar para Alex que dormia esparramado na cama, parecendo uma flor.
“Não tenho mais controle de ti. Acho que nunca tive. Sempre fizeste o que te deu na telha. Não soube te criar.”
“Sou grato a senhora.”
“Odeias tua mãe, é isso.”
‘Não odeio não.”
“Odeias sim. Sejamos franco um pro outro. Fui o diabo na tua vida assim como fostes o fardo na minha.”
“Então estamos quites.”
“Estamos. Esquecerei que tenho um filho.”
Fez novamente silencio rasgado apenas por um brega antigo e tanatico que gritava lá de baixo de um bar qualquer que a vida era uma fatalidade. Em seguida, ouvimos o velho e majestoso apito de um navio atracando no Rodway. Alex despertou finalmente e da cama se pôs a olhar confuso pra nós dois. Tinha os cabelos desgrenhados e os olhinhos bem vivos e claros. Do jeito que veio ao mundo levantou-se e caminhou cadencioso com sua pele de leite até o banheiro. Alex não tinha pudor nenhum. Encantava-me o despudor daquele menino; sua pele branca e suave de leite. Ela veio de lá outra vez:
“Ainda por cima tornastes um aliciador de menores. Quantos anos tem esse garoto?”
“Alex faz dezoito domingo que vem, mãe.”
“Não interessa. Ainda é um menino. Não sentes vergonha disso?”
“Gosto dele, mãe.
“Nunca te entenderei mesmo.”
“É bom que não entenda mesmo. Nem eu me entendo.”
“O que tu és afinal?”
“Sou o que sou.”
“Ninguém é o que é simplesmente.”
“Pois bem. A senhora ta é certa. Tento ser um pouco mais do que isso.”
“Vivendo aqui nesse pardieiro?”
“Vivendo aqui nesse pardieiro.”
“Não vais agüentar viver aqui por muito tempo. Vais morrer nesse lugar.”
“Todo homem traz dentro de si seu próprio aniquilamento.”
“Tu e as tuas filosofias que só te empurraram pra lama.”
Ouvimos o barulho de uma descarga e em seguida uns risinhos vindo do banheiro. Alex se divertia pra valer, o putinho.
“E o teu curso?”
“Não tenho mais curso.”
“Abandonaste a faculdade?”
“Um bando de merdas metidos a intelectuais que perderam o humor. É isso o que penso daquela gente toda.”
“E o que vai fazer da tua vida agora? Ser um escritor e viver de brisa?”
“Posso tentar...”
“Achas que pode, levando essa vida? Sem ajuda minha?”
“Acho que sim, sei lá. Se não der certo, viro cafetão de puta ou então farei michê nas ruas.” Mais risinhos do banheiro. Ainda se encontra um pouco de humor na ressaca. Do cais, O Lloyd soprava com mais força demonstrando vontade de ficar. Acendi meu cigarro todo amassado e pude então relaxar um pouco olhando da janela o movimento preguiçoso dos passantes. Cedo, as putas já negociavam seus corpos pelas portas dos bares. O sol tinha ficado mais escroto e já começava a cozinhar a neura de muita gente lá fora, inclusive a minha. Na porta do “Leviannas”, alguém pregava as palavras de Deus:
“Bendito são aqueles que guardam as palavras dessa profecia, pois o dia do juízo está bem próximo e toda podridão desse lugar, meus irmãos, arderá nas chamas do inferno.”
Dizia o pregador com as veias dele saltando do pescoço grosso e empapado de suor. Perto dali, um bêbado estirado derretia sob a marquise de um prédio antigo, enquanto um cão lambia-lhe o rosto. As horas arrastavam seus grilhões enquanto a presença dela no quarto era uma enorme mortalha cobrindo tudo.
“Vim aqui pra abrir teus olhos, mas teu coração se fechou pra tudo.” Sua voz soou dessa vez rancorosa atrás de mim. O som rancoroso de uma engrenagem velha. “Tornastes um egoísta. Não respeitastes a minha velhice e a minha cegueira.”
“Cegueira? A cegueira é pior que a morte.” Pensei. Minhas fobras estremeceram. Virei pra ela disfarçando o susto.
“Como assim, cegueira?”
“Tenho catarata, esqueceu? O médico me deu seis meses, e uma operação na minha idade é arriscado.”
É, ela ainda sabia mover bem as pedras de um xadrez. As pedras que sempre me venceram.
“Mas não te preocupas não, tenho setenta e pouco, o bastante pra ter visto tudo que não presta nessa vida. É só esperar agora a cegueira chegar. Mas o pior de tudo não é a cegueira que na minha porta bate, mas a ingratidão de um filho que nunca tive. Gerei um filho ingrato. Ficas com a vida que escolhestes pra ti. Quando eu atravessar aquela porta, esquece que tens mãe.”
Sucedeu um longo silencio entrecortado de angustia. Um coração estranho e clandestino socava-me o peito. Ela finalmente dera as costas e vi seus passos se arrastarem na direção da porta. Contei mentalmente até dez e então corri para o topo da escada onde ainda pude ver sua silhueta curva desaparecer no vão do nada e gritei:
“MÃE! TE AMO CARALHO!!”
Mas era um grito surdo, empalado dentro de mim.
Quando voltei pro quarto, Alex estava sentado no centro da cama me chamando com as mãos, e eu deitei em seu colo e ele me acariciou os cabelos, e ficou ali ouvindo sem nada dizer, meu interior chorando baixinho o dia todo. Melhor assim. Parecia que entendia minha dor. Assim como eu, ele tambem havia matado sua mãe...

Em memória de minha mãe Eunice...
07/10/1929/ 17/09/2009

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

MINHA PRIMEIRA TATUAGE M


Enquanto não penso em um novo conto para postar aqui, gostaria de partilhar uma experiencia boba com voces.
Só agora, aos trinta e poucos anos, depois da morte de minha mãe, é que decidi usar uma tatuagem. Sempre fui louco por tatuagens, e sentia imensa inveja quando eu via amigas ou amigos meus, tatuados. Só que nunca pude usar por respeito aos meus pais – mas precisamente por minha mãe que nunca aprovou a idéia. “Coisa de vagabundo, meu filho!” Era o que ela alegava, e eu, é claro, acatava por respeito a ela. Mesmo depois de estar trabalhando, de ter assumido de certa maneira minha independência financeira, nunca pude usar, sequer mencionar a idéia de vir um dia usar uma tatuagem. Era o mesmo que dizer a ela que um dia possuiria uma moto. Era o mesmo que matá-la por dentro. E vê-la sofrer, era tudo que eu menos queria. Por isso, respeitei a sua decisão, até este ano, quando ela veio a falecer em 22 de setembro. Não vou mentir que me sinto hoje, depois de seu desaparecimento, absolutamente feliz e livre. Embora saiba que nunca se é feliz quando se perde alguém que se ama profundamente. Tampouco se é livre, pois que liberdade, segundo o filósofo Sartre, não existe. Mas me permito realizar conscientemente, as coisas que sempre quis fazer. Como por exemplo, usar finalmente uma tatuagem. E foi isso que fiz, além de assumir meu lado feminino. A moto, ainda não sei, quem sabe um dia...
A sensação provocada pelas agulhinhas mergulhando na tua carne, é uma sensação gostosa, embora dolorida. Uma dorzinha que se prolongou por meia hora, o tempo que durou o trabalho. Nesse intervalo, para me distrair e esquecer um pouco a dorzinha incômoda, tentei conversar com o tatuador, um moreno bem simpático, porém, fechado e econômico nas palavras. O que tornou nossa conversa um tanto trivial, monologada, mas que de certa maneira, ajudou o tempo passar rápido e superar as dorzinhas inconvenientes da agulha. Finalmente olhei no espelho e vi em minhas costas, a figura de uma linda borboleta sobrevoando a inicial do meu nome “M”. Foi o Desenho que escolhi. Nada chamativo, monumental, mas algo bem discreto e sensível, como esse rapaz o é.
Saí do estúdio saltitante e feliz, debaixo de uma chuvinha fina e alegre de dezembro Tornara-me uma criança tola que acabara de ganhar um doce ou um brinquedo novo. Mas era uma tatuagem que eu havia finalmente decidido usar: minha primeira tatuagem. Uma experiência nova que estou certa que nunca vou esquecer...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XIV


8° ddia dde mmarço
11:45 mminutos


Aamado Aagaton, hhoje ccelebro aa ffelicidade ssublime dde mminha vvida.
Ppari uuma rrosa.



ffim




Agradeço aqueles que disporam da paciência em acompanhar mais este novo trabalho...
Em breve, "HYLDA".

Abraços e um feliz carnaval a todos!!!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA


07° ddia dde mmarço
Ddomingo – 23:40mm

Aamado Aagaton, mmeus nníveis dde eenergia eestão mmuito aabaixos ddo AALFANÍVEL. Ppareço mesmo nnão cconter mmais oo ffluxo ddas ccoisas. Mminha MMONORAZÃO vvai aaos ppoucos sse ddisolvendo, cconcomitantemente, aa ddefesa dde mminhas EEMBRIOCÉLULAS, llamento iinformar-lhe. Pporém, oo qque mmais mme ppreocupa, nnão éé essa mminha ddissolvição MMONORGÂNICA , mmas oo ddestino dde nnosso FFRUTO-EESPÉCIE. Ttão ppequeno e ttão pprecioso esse ddom dda vvida ddentro dde mmeu BBOLSÃO-AABDOMEN. Aa ppropósito ddisso, cchamar-se-á Rrosalíneo. Ttomei aa lliberdade ee aatribuí-lhe eeste EEMBRIONOME eem hhomenagem àas rrosáceas ssem eespinhos que jjuntos rreiplantamos nnos jjardins eesquecidos dda éénesima llua dde Aandrômeda. Fflores ssem eespinhos que ccrescerão ee sse mmutualizarão ccomo assim ddeverá sser oo aamor eentre oos hhomens nno ffuturo. Uum aamor ssem eespinhos, ssem ggrades, ssem llei. Ttodavia, éé mmister eesperar...
Aatravés dde uuma ppequena JJANELA-MMEMBRANA llogo àà ddireita dddesta EEMBRIOCELA, ccontemplo eem ttristonho ssilêncio oos ffios dde ppotássio qque ccaem aanunciando uum iinverno llongo ee rrigoroso. Nna vverdade, qqueria mmuito que cchovesse. Que rreexistisse aa cchuva. Nnunca eem ttoda mminha vvida, eeu vvi aa cchuva. Vvocê jjá, aamado Aagaton? Ddecerto que nnão. Tteria eela ggosto? ccheiro? ccor? ssexo? Ssó cconheço aa ardência ddo ssol, aas eestrelas aazuis ffosforescentes, aas ssecreções llacrimais dde nnossos vvulcões, oos vventos aartificiais que ssopram ddos mmoinhos dde ccristais eeólicos, ee éé cclaro esses ttênues ffios dde ppotássio que nnesta éépoca ddo aano eeventualmente ddespreendem-se ddas nnuvens dde mmagnésio que sse aadensam eencobrindo aas lluas mmenstrudas. Prrecisamos rreiventar aa cchuva ppra ffertilizar oo ssolo ddessa EEMBRIOTERRA, qquerido Aagáton, ee ddela ffazer bbrotar ooutra vvez oos nnossos ggirassóis aamarelos.
Quem ssabe uum dia. Aamanhã talvez?

Ssempre,
Ssmirnoff

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XII


6 ddia dde mmarço
ssexta-ffeira 14:40

Aamado Aagaton, aacredito sserem eestas aas úúltimas llinhas ddesta EEMBRIOCARTA. Aacho-me ddominado dde eextremo ccansaço ee ttorpor nnestas pprimeiras mmanhãs dde mmarço eem que nneva ffios dde ppotássio llá ffora eem rrazão dda eestação HHIBERNAL que sse aaproxima. Ddecerto que sserá aa mmais ttriste dde ttodas, pposto que eeste aano sseremos pprivados dde eescalarmos jjuntos oos FFALOS EEVERESTES ddas rrregiões ppolares dde Uurano I. Mmas pprometo nnão cchorar.
Oo ttempo ppassa ddevagar, aagora que cconfinaram-me aabsolutamente eem uuma ccélula eembrionária ee dde ttudo ssou pprivado; aaté mmeus ssonhos mmais ssecretos ssão mmonitorados. Gguardo-me eem pprofundo ssilêncio ddesde eentão, iinvólucro ddentro dde mmim mmesmo ttal qqual ffazem aas EEMBRIOOSTRAS ddos llagos aartificiais dda Nnova Cchina, qquando aacossadas ee ccapturadas. Aamado, rreceio eem nnão tterminar mmeu EEMBRIONSAIO ssobre o “Cculineo – Oo rreto que nnos cconduzirá àà ffraternidade ee aa ccompreenssão hhumana.” Ffaltam-me vvigor ee mmotivação. Ccontudo, aalegra-me oo ffato dde ssaber qque aa ssemente ffoi llançada ((unné ccontributéé sspecifiquéé dde ll´aactivité dde´lléé rrazzoneté hhummainé...)) Que tte pparece mmeu VVACCUITÉÉ? Escabroso, éé bbem vverdade, nno eentanto, ppossível ssim dde iintegrá-llo nno cciclo vvariativo dde nnossa EEMBRIOLÍNGUA. Mmas isso éé aapenas mmais uum ooutro ddetalhe ppormenorizado. Vvoltemos ppoortanto aao mmeu ssofrimento uuterino...

Aamor,
Ssmirnoff

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XI


3° ddia dde mmarço
Qquarta-ffeira 20:50

Qquerido Aagaton, hhoje ccompus uum EEMBRIOPOEMA:

“Mmil hhomens nnus eem ccomunhão
Nnuma llinda aalcova dde eestrelas.
Ddançando ee ccantando
Eeu vvou aatravessando aa
Eenésima llua dda vvida.
Aamo, rrio, aabraço, pprocrio;
Aaninha-sse nnos áátomos
Aa ssemente dda pperfeição...

Qqualquer qque sseja oo rresultado ddessa eentrevista dde nnatureza iinquisitória, aamado Aagaton, sserei dde aalgum mmodo ttransferido aa uuma ooutra bbase ggeostacionária uuterina ee ssubmetido ddessa vvez áá uum ttribunal dde eesfera mmaior oonde ccertamente sserei jjulgado ee ccondenado. Aaqui nnão sse ttem – ee jjá mme iinteirei ddisso - qqualquer cconhecimento dde aalgum ccaso dde aabsolvição rreal, ee ttodo eempenho nnesse ssentido sseria aabsolutamente eestéril, dde mmodo qque nnão hhá ppossibilidade aalguma dde nutrir eesperanças eem sse oobter aalgum bbeneficio aa mmeu ffavor. Aa llei éé mmesmo ddura ee iinflexível. Ppassível dde ccrime, pportanto. Llembra-se dde Oorgônio ee dde ssuas ppartículas ccósmicas ddos qquais ssempre ddependeram ee vvão ddepender aa lliberdade ee oo ppoder oorgásmico ddos iindividúos, ee ppor cconta ddisso eele ffoi ppreso ee ccondenado? Ccom eefeito, nnão aatribuo nnehuma ssiginificação dde oordem rrelevante nno que ttangencia aa nnatureza dde mminha ddetenção ee dde mmeu jjulgamento ddescabido nnesta hhabitação eembrionária, ssenão ttornar ppública uuma eevidente ssituação dde pprofunda hhumilhação ee iinjustiça. Ddeliberadamente éé isso.

Ssempre seu,
Ssmirnoff

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE X


01 ddia dde mmarço
Ssegunda-ffeira- 12:45mm


LLEILAH: Ssr. Ssmirnoff, cconfere??
SSMIRNOFF:Cconfere.
LEILAH: Eentão vvamos llogo aao pponto, Ssr.Ssmirnoff. Oo ssenhor ssabe ppor qque Mmonorrazão eencontra-sse aaqui, eem nnossa ccolônia dde fférias??
SSMIRNOFF: Ddesconfio. Mmas ggostaria dde tter ccerteza.
LEILAH: Oo ssenhor eestá ggrávido.
SSMIRNOFF: Éé oo que pparece...
LEILAH: Aa ssua ggravidez ccontraria oos pprincipios dda llei oorgânica, aalém ddo que, eestá eescrevendo uum EEMBRIOENSAIO dde ccaráter cconspiratório.
SSMIRNOFF: Ccomo assim?
LEILAH: Eem sseu EEMBRIOENSAIO, Ssr.Ssmirnoff, oo ssenhor sse ddeclara aa ffavor dda ggravidez eentre oos hhomens aatravés ddo pprocesso eextra-uuterino. Pprocede?

((Ttosses))

SSMIRNOFF: Ppauto mmeu EEMBRIOENSAIO nna lliberdade ee nna ddefesa dda vvida.
LEILAH: Rromântico, mas nnnão éé oo que pparece, Sr.Ssmirnoff, llevando eem cconta oo aalto iindice dde mmortalidade PPÓS-FFETAL, rresultante ddessa eexperiencia ddesastrosa. Oo que mme ddiz?

((Ppiscam-lhe ssérias ddemais as ppálpebras))

SSMIRNOFF: Eestão nnos bboicotando aas ddosagens nnecessárias dda HHORMONOFÊMEA ee aalterando sseu CCICLO-CCLOGÊNICO-HHORMONO-MMENSTRUAL, oo que cconfigura-sse uuma ssabotagem.
LEILAH: Nnão hhá ccomo! Mmas eeste nnão éé oo pponto.
SSMIRNOFF: Ee qqual éé oo pponto?
LEILAH: Aa ssubversão dda Llei Nnatural.
SSMIRNOFF: Nnão eestamos ssubvertendo nnada aalém ddo que jjá ffoi ssubvertido.
LEILAH: Oo ssenhor eestá mme eentrebelando, Ssr.Ssmirnoff?

((Oolha bbem ppro sseu rrosto ttriangular))

SSMIRNOFF: Nnão, nnão eestou.
LEILAH: Ssr. Ssmirnoff, oo ssenhor ppertence àà aalguma rrede cconspiratória?
SSMIRNOFF: Iisto éé uuma ppergunta oo uuma aafirmação?
LEILAH: Nnão mme eentrebele, Ssr. Ssminorf, llimite-sse aapenas àà ssua rresposta.
SSMIRNOFF: Nnão, nnão ppertenço.
LEILAH: Mmas llouva oou ppresa qqualquer aação ddestes aanti-ggrupos qque ccontemplam aa vviolação ddo ccódigo ggenético, ppois nnão?
SSMIRNOFF: Llouvo oo nnovo. Ttudo aaquilo que ccontemple oo ddireito aa vvida ee lliberdade dde eescolha. Aafirmo ee aatesto!
LEILAH: Mmesmo que vvenha ccustar aa vvida ddessas ppessoinhas? Vvolto aa iindagar.
SSMIRNOFF: Ppessoinhas...?
LEILAH: Ssr.Ssmirnoff!!
SSMIRNOFF: Aa ggravidez eextra-uuterina éé uum EEMBRIOFATO iirrevogável, mmoça!
LEILAH: Mmodere oo ttratamento, Ssr Ssmirnoff! Aaqui ssou uuma ggestora. Ttrate-mme ccomo ttal.
SSMIRNOFF: Ddesculpe.
LEILAH: Ssr. Ssmirnoff, eem sseu EEMBRIOENSAIO, oo ssenhor ttorna cclaro que ppretende ffundar uuma nnova ccolônia ccom bbase nna rrecriação dda eespécie. Qque eespécie éé eessa, Ssr.Ssmirnof?
SSMIRNOFF: Uuma eespécie em eevolução.
LEILAH: Rrefere-sse aaos hhomens, pportanto.
SSMIRNOFF: Uuma eespécie eem evolução.
LEILAH: Nnão mme eentrebele, Srs. Ssmirnoff. oo Ssr. eestá eentrebelando aa mmim ee aao EENTREBELADOR àà mmesa, nnão eesqueça.
SSMIRNOFF: É iiso, ggestora. Uuma ccolônia dde hhomens.
LEILAH: Uum rretorno aa uuma ssociedade ppatriarcal, éé isso?
SSMIRNOFF: Uuma ssociedade livre e ppróspera.
LEILAH: Mmas oo Ssr. hhá de cconvir, Ssr. Ssmnirnoff, que oos hhomens ffalharam, eentão ppor quê aa ttentativa ttola dde rrecriar aa eespécie?
SSMIRNOFF: Ccom bbase eem que aa moça... aa ggestora, mme pperdoe, aafirma iisto?
LEILAH: Aao que aaconteceu ààs ooutras ccolonias nno ppassado. Vvocês ddestruiram ttodas eelas. Nnão ssouberram ggestá-llas. Fforram eegoistas ee aambiciosos ddemais.
SSMIRNOFF: Hhá uum ennorme eequivoco nno que aafirma, ggestora.
EENTREBELADOR: TTENTATIVA DDE EENTREBELAÇÃO!1 TTENTATIVA DDE EENTREBELAÇÃO!!

(( Ggestora aaponta ppro EENTREBELHO))

LEILAH: Ssabe oo que isso ssignifica, ppois nnão Sr.Smmirnoff?
SSMIRNOFF: Ppenso que ssim. Ddesculpe!
LEILAH: Pporventura, Ssr.Ssmirnoff, aacredita que ppode sser Ddeus? Aa ppropósito Ssr. Ssmirnoff, oo ssenhor aacredita NNELE? Oo que ppensa de Ddeus?
SSMIRNOFF: Ssou uum ggeneticista, ee pportanto aafirmo-llhe que Ddeus ffoi uuma ppolitica mal ddesenvolvida nneste EEMBRIOSFÉRIO. Ddai a MMONORRAZÃO dde ssua eextinção; tter sse ttransformado eem mmoeda dde ttroca.
LEILAH: Ddeus ddeixou dde eexistir ppara oo ssenhor, ssuponho.
SSMIRNOFF: Pperfeitamente, sse é isso que a ssenhora aalmeja ssaber.
LEILAH: Oo ssenhor éé eegoista, Ssr. Ssmirnoff?
SSMIRNOFF Ppor que nnão aacredito eem Ddeus?
LEILAH: Nnão mme eentrebele!
SSMIRNOFF: Aabreviarei, portanto. Oo eegoismo cconduz sse nnão àà iimortalidade, ee aaqui sobremaneira nnão mme rrefiro somente àà iimortalidade dda aalma oou aa qqualquer ooutro ssobrefluxo, mmas oo qque ppreescreve àà ttodos oos sseres, oo ddireito dde aamar ee pprocriar qque éé uum ddireito nnatural ee qque ttambém sse aaplica àà nnós. Dde mmodo qque aaqui, nnão ffaço uuso dde eentrebelações ccomo eevidentemente vvirá ssupor aa ggestora ee oo EENTTREBELADOR aao ffinal ddesta eentrevista. Eem ssuma, ssou uum eegoísta ssim.
LLEILAH: Oo Ssr.ccomo ggeneticista mme eenvergonha ee eenvergonha aa ssua cclasse, Ssr. Ssmirnoff.
((Assentimento dda eespinha ddorsal))

LLEILAH: Mmas eeste nnão éé oo pponto. Aa nnatureza dde ssuas aafirmações lleva-me aa ccrer que – aalém éé cclaro, ddas pprovas ffisicas-eevidentes – aa aacusação que ppesa-llhe nnos oombros, vvalida aas nnossas ssuspeitas ee cconvições. Dde mmodo qque, aapós aas cconclusões ddessa eentrevista, o Ssr. sserá eencaminhado àà ccomissão dde EMBRIOÉTICA oonde sserá jjulgado ppor uuma eesfera mmaior ee, cconforme ffor, sserá ccondenado oou aabsolvido, ssendo eesta úúltima, llamento iinforma-llhe, ppouco pprovável que aaconteça.


((FFIM DDA TTRANSCRIÇÃO))