quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

SUICIDAS


FOI HÁ MUITO TEM ATRÁS, quando ainda morava em Porto Velho. Cara Dura, Ezequiel, Fininho, Zé Doido e eu: minha geração perdida dos anos oitenta. Vivíamos sem esperanças, duros e cheios de tédio. Muito álcool, bolinhas, gotanergan, tonopan e optalidon. Havia também um tal de Benflogyn que a malandragem chamava de geléia; um tipo de remédio pra esquizofrênico e mulheres grávidas. Vinha em forma de drágeas ou xarope que misturado com cachaça dava mais lombra e deixava a gente doidão e moles como geleias. Depois vieram baratos mais pesados. O fato é que buscávamos a morte o tempo todo. Masa foi Zé Doido que naquela noite girou a roleta. Uma única bala no tambor de seis buracos como no filme do Franco Atirador que um dia vimos os cinco, chapadões, no Cine Lacerda que ficava no centrão sujo de Porto Velho. "Tem que ter colhão pra arriscar!" Zé Doido nos disse. Olhamos todos sérios pro trabuco sobre a mesa. Uma.45. Quando a mente enfraquece, a morte seduz, e a morte não costuma errar de porta, ainda mais quando se vive dando muita sopa. Naquela noite, cachaça Cocal e Gotanergan na veia que era pra dar mais coragem.
Feito o sorteio, Cara Dura o primeiro. Em seguida Ezequiel, eu o terceiro, Zé Doido o quarto e por último o Fininho. Alguém ali ia se foder. Zé Doido botou a bala no tambor, girou a roleta e deu a arma ao Cara Dura. As mãos dele tremiam pra caralho. Mas ele disparou, na cara dura. Fez um clic-seco-surdo nos ouvidos dele. De todos nós. "Uma porra! Tô fora!" Fininho arregou. Tinha só dezenove, muito novo, mas o excesso de picos na veia e cachaça Tatuzinho deixaram ele com aquela cara de velho. "Cagão do caralho!" Berrou Zé Doido. Foi expulso da roda e do grupo. O tambor girou novamente. Foia vez de Ezequiel e novamente aquele clic-seco-surdo e um sorrisão nervoso naquela sua cara de finado. "Toma! Tua vez!" Peguei o trabuco mas não tive forças de pressionar o gatilho até o fim. Era pesado e ele chegava até o meio e voltava. Uma, duas, três vezes tentei, na quarta Zé Doido tomou-o de minha mão- Dá aqui, sua bicha! - e tremendo apontou para sua cabeça. Disparou. Nada. Só o silencio e aquele cheiro escroto de morte. Girou o tambor sorrindo e devolveu a arma para mim. Era novembro. Não sei se chovia, mas isso não fazia diferença aquela altura. As estações dentro de nós eram sempre as mesmas: cheia e vazante se alternando. Peguei a arma,decidido. Na hora não se pensa em nada, só em uma vontade imensa de mandar tudo pra casa do caralho. Assim o fiz apertando bem os meus olhos e acionando o gatilho. Dessa vez até o fim. Senti a bala atravessando minha cabeça. Tudo explodindo; tudo acabando. Mas para minha decepção ou alívio, o projétil teimava em permanecer ali dentro. Eu continuava vivo, como os demais. Zé Doido pegou da arma outra vez e apontando para o alto, disparou. Aquela bala que seria para o Fininho fez um rombo medonho no telhado de zinco. Ficamos olhando um tempão para o tamanho do buraco que a bala fizera no telhado. Não sei quanto aos outros, mas aquele rombo no telhado de zinco me ajudou a ver o tamanho do buraco que eu havia cavado em meu peito; o quanto não tínhamos mesmo consciencia da morte. Foi quando decidi parar de vez com aquela porralouquice toda.
Hoje, sentado aqui e escrevendo essas linhas no silencio do meu quarto, penso de verdade o quanto a vida é irônica. Depois daquela noite suicida fracassada, cada um de nós tomou um rumo diferente na vida: Ezequiel virou pastor de Igreja. Zé Doido e Cara Dura entraram pro tráfico. Fininho morreu atropelado na rodovia três-um-nove (um mês depois daquele episódio da roleta). Quanto a mim, vim para Manaus e aqui descobri que a pena fazia algum sentido e decidi seguir vivendo. Girando agora uma outra roleta.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A VISITA


A VISITA

(...) Vivia de algum modo aqueles duros e doces dias sem leme algum; singrando os rios das dúvidas. Ceifando campos de espinhos. Olhando-me no espelho e não vendo mais o meu reflexo. Havia me tornado o doce vinho das incertezas baudelerianas descendo-me goela abaixo mesmo nas horas mais fustigantes e miseráveis daqueles dias. Eu havia me tornado o próprio puteiro. Odisseu preso no olho do ciclope.

Aí que um dia recebi a visita dela. Tolice era acreditar que ela nunca fosse me achar. Ao contrário das cadelas que ao meu ver são bem mais prudentes, sensatas e realistas, as mães acham que podem lamber seus filhotes a vida toda. O que é um grande engano. Mas aí então que eu acordei com batidas secas na porta e pus-me assustado no centro da cama vendo tudo girar em minha volta. Minha cabeça era um torno de fundição girando girando enquanto as batidas secas insistiam martelando o crânio. Olhei pra Alex que dormia feito um anjo ao meu lado como se nada daquilo estivesse acontecendo. Os olhos do sol penetraram vivos e pontiagudos pelo vão da janela semi-aberta derramando sua luz pelo chão do quarto. Levantei muito a contra gosto e fui ver quem era. Abri um palmo da porta e dei com rosto gordo de Dona Dalva que vinha anunciar a visita ilustre:
“Esta senhora esta lhe procurando!” Tomei um caralho de um susto quando a sombra d ela se colocou atrás de Dona Dalva. Pediu licença e foi entrando devagar, deslizando seu olhar lúgubre por todo o interior do quarto. Caminhou ate á janela e ali ficou por longos e torturantes minutos. Voltei a me sentar na cama ao lado de Alex que continuava dormindo. Não sei por quanto tempo reinou um silencio azedo e mordaz ali dentro. Deixei que ela puxasse primeiro o sabre da bainha e desse inicio a esgrima como sempre o fez. E foi exatamente o que aconteceu:
“Tal e qual o pai.” Disse ela finalmente.
“Que que tem ele?”
“Gostava de viver na lama com os porcos.” Respondeu ela. Sobreveio novamente o silencio carregado de azedume. Ela parecia um monte de escombros escorada na janela com seu olhar triste. O olhar triste das mães. Ouvi dali as primeiras portas de ferro dos bares erguendo-se preguiçosamente juntamente com os primeiros palavrões que já se acotovelavam pelas ruas estreitas da velha Mauá. Era o puteiro arreganhando-se nos primeiros acordes do dia.
Alex dessa vez se moveu um pouquinho só na cama e ¼ de suas coxas lisas e brancas escaparam furtivamente dos lençóis e ali se mantiveram expostas, e eu tive vontade de amá-lo outra vez, o dia inteiro. Tratei de cobri-las. Era bonito ver ele dormindo. Puro como um anjo: tão longe e tão perto das tempestades da vida. Ela tornou outra vez:
“Não sei por que puxaste tanto a teu pai. É tal e qual teu pai: escarrado carne e osso. Sim, porque teu pai nunca teve alma.”
“Não comece, porra!!” Segurei minha têmporas inchadas que pareciam duas maças explosivas.
“A verdade machuca, eu sei. Mas ela precisa ser dita, não é mesmo?”
“Como a senhora descobriu que eu estava aqui?” Desconversei.
“Farejei tuas coisas. Tuas porcarias escritas ainda estão espalhadas pela casa.” Fui ate a janela me aproximando dela. Olhamos a rua, calados. Examinei de perto seus olhos cobertos por películas de lágrimas e senti a mão gelada de um cadáver apertando meu coração. O quarto transformara-se numa enorme pupila borbulhante de tristeza.
“O que a senhora quer, mãe?”
“Ver como estás?”
“Estou bem.”
“Não sabes o mal que estás fazendo vivendo aqui. Isso aqui é só lama e dor. Volta pra tua casa.”
“Gosto daqui, mãe.”
“Vais enterrar o que te resta da juventude aqui, nesse buraco?”
“Escolha minha. Problema meu.”
“Toda escolha é um caminho sem volta. Lembras disso.”
“Lembrarei, mãe.”
Se virou lançando o olhar para Alex que dormia esparramado na cama, parecendo uma flor.
“Não tenho mais controle de ti. Acho que nunca tive. Sempre fizeste o que te deu na telha. Não soube te criar.”
“Sou grato a senhora.”
“Odeias tua mãe, é isso.”
‘Não odeio não.”
“Odeias sim. Sejamos franco um pro outro. Fui o diabo na tua vida assim como fostes o fardo na minha.”
“Então estamos quites.”
“Estamos. Esquecerei que tenho um filho.”
Fez novamente silencio rasgado apenas por um brega antigo e tanatico que gritava lá de baixo de um bar qualquer que a vida era uma fatalidade. Em seguida, ouvimos o velho e majestoso apito de um navio atracando no Rodway. Alex despertou finalmente e da cama se pôs a olhar confuso pra nós dois. Tinha os cabelos desgrenhados e os olhinhos bem vivos e claros. Do jeito que veio ao mundo levantou-se e caminhou cadencioso com sua pele de leite até o banheiro. Alex não tinha pudor nenhum. Encantava-me o despudor daquele menino; sua pele branca e suave de leite. Ela veio de lá outra vez:
“Ainda por cima tornastes um aliciador de menores. Quantos anos tem esse garoto?”
“Alex faz dezoito domingo que vem, mãe.”
“Não interessa. Ainda é um menino. Não sentes vergonha disso?”
“Gosto dele, mãe.
“Nunca te entenderei mesmo.”
“É bom que não entenda mesmo. Nem eu me entendo.”
“O que tu és afinal?”
“Sou o que sou.”
“Ninguém é o que é simplesmente.”
“Pois bem. A senhora ta é certa. Tento ser um pouco mais do que isso.”
“Vivendo aqui nesse pardieiro?”
“Vivendo aqui nesse pardieiro.”
“Não vais agüentar viver aqui por muito tempo. Vais morrer nesse lugar.”
“Todo homem traz dentro de si seu próprio aniquilamento.”
“Tu e as tuas filosofias que só te empurraram pra lama.”
Ouvimos o barulho de uma descarga e em seguida uns risinhos vindo do banheiro. Alex se divertia pra valer, o putinho.
“E o teu curso?”
“Não tenho mais curso.”
“Abandonaste a faculdade?”
“Um bando de merdas metidos a intelectuais que perderam o humor. É isso o que penso daquela gente toda.”
“E o que vai fazer da tua vida agora? Ser um escritor e viver de brisa?”
“Posso tentar...”
“Achas que pode, levando essa vida? Sem ajuda minha?”
“Acho que sim, sei lá. Se não der certo, viro cafetão de puta ou então farei michê nas ruas.” Mais risinhos do banheiro. Ainda se encontra um pouco de humor na ressaca. Do cais, O Lloyd soprava com mais força demonstrando vontade de ficar. Acendi meu cigarro todo amassado e pude então relaxar um pouco olhando da janela o movimento preguiçoso dos passantes. Cedo, as putas já negociavam seus corpos pelas portas dos bares. O sol tinha ficado mais escroto e já começava a cozinhar a neura de muita gente lá fora, inclusive a minha. Na porta do “Leviannas”, alguém pregava as palavras de Deus:
“Bendito são aqueles que guardam as palavras dessa profecia, pois o dia do juízo está bem próximo e toda podridão desse lugar, meus irmãos, arderá nas chamas do inferno.”
Dizia o pregador com as veias dele saltando do pescoço grosso e empapado de suor. Perto dali, um bêbado estirado derretia sob a marquise de um prédio antigo, enquanto um cão lambia-lhe o rosto. As horas arrastavam seus grilhões enquanto a presença dela no quarto era uma enorme mortalha cobrindo tudo.
“Vim aqui pra abrir teus olhos, mas teu coração se fechou pra tudo.” Sua voz soou dessa vez rancorosa atrás de mim. O som rancoroso de uma engrenagem velha. “Tornastes um egoísta. Não respeitastes a minha velhice e a minha cegueira.”
“Cegueira? A cegueira é pior que a morte.” Pensei. Minhas fobras estremeceram. Virei pra ela disfarçando o susto.
“Como assim, cegueira?”
“Tenho catarata, esqueceu? O médico me deu seis meses, e uma operação na minha idade é arriscado.”
É, ela ainda sabia mover bem as pedras de um xadrez. As pedras que sempre me venceram.
“Mas não te preocupas não, tenho setenta e pouco, o bastante pra ter visto tudo que não presta nessa vida. É só esperar agora a cegueira chegar. Mas o pior de tudo não é a cegueira que na minha porta bate, mas a ingratidão de um filho que nunca tive. Gerei um filho ingrato. Ficas com a vida que escolhestes pra ti. Quando eu atravessar aquela porta, esquece que tens mãe.”
Sucedeu um longo silencio entrecortado de angustia. Um coração estranho e clandestino socava-me o peito. Ela finalmente dera as costas e vi seus passos se arrastarem na direção da porta. Contei mentalmente até dez e então corri para o topo da escada onde ainda pude ver sua silhueta curva desaparecer no vão do nada e gritei:
“MÃE! TE AMO CARALHO!!”
Mas era um grito surdo, empalado dentro de mim.
Quando voltei pro quarto, Alex estava sentado no centro da cama me chamando com as mãos, e eu deitei em seu colo e ele me acariciou os cabelos, e ficou ali ouvindo sem nada dizer, meu interior chorando baixinho o dia todo. Melhor assim. Parecia que entendia minha dor. Assim como eu, ele tambem havia matado sua mãe...

Em memória de minha mãe Eunice...
07/10/1929/ 17/09/2009

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

MINHA PRIMEIRA TATUAGE M


Enquanto não penso em um novo conto para postar aqui, gostaria de partilhar uma experiencia boba com voces.
Só agora, aos trinta e poucos anos, depois da morte de minha mãe, é que decidi usar uma tatuagem. Sempre fui louco por tatuagens, e sentia imensa inveja quando eu via amigas ou amigos meus, tatuados. Só que nunca pude usar por respeito aos meus pais – mas precisamente por minha mãe que nunca aprovou a idéia. “Coisa de vagabundo, meu filho!” Era o que ela alegava, e eu, é claro, acatava por respeito a ela. Mesmo depois de estar trabalhando, de ter assumido de certa maneira minha independência financeira, nunca pude usar, sequer mencionar a idéia de vir um dia usar uma tatuagem. Era o mesmo que dizer a ela que um dia possuiria uma moto. Era o mesmo que matá-la por dentro. E vê-la sofrer, era tudo que eu menos queria. Por isso, respeitei a sua decisão, até este ano, quando ela veio a falecer em 22 de setembro. Não vou mentir que me sinto hoje, depois de seu desaparecimento, absolutamente feliz e livre. Embora saiba que nunca se é feliz quando se perde alguém que se ama profundamente. Tampouco se é livre, pois que liberdade, segundo o filósofo Sartre, não existe. Mas me permito realizar conscientemente, as coisas que sempre quis fazer. Como por exemplo, usar finalmente uma tatuagem. E foi isso que fiz, além de assumir meu lado feminino. A moto, ainda não sei, quem sabe um dia...
A sensação provocada pelas agulhinhas mergulhando na tua carne, é uma sensação gostosa, embora dolorida. Uma dorzinha que se prolongou por meia hora, o tempo que durou o trabalho. Nesse intervalo, para me distrair e esquecer um pouco a dorzinha incômoda, tentei conversar com o tatuador, um moreno bem simpático, porém, fechado e econômico nas palavras. O que tornou nossa conversa um tanto trivial, monologada, mas que de certa maneira, ajudou o tempo passar rápido e superar as dorzinhas inconvenientes da agulha. Finalmente olhei no espelho e vi em minhas costas, a figura de uma linda borboleta sobrevoando a inicial do meu nome “M”. Foi o Desenho que escolhi. Nada chamativo, monumental, mas algo bem discreto e sensível, como esse rapaz o é.
Saí do estúdio saltitante e feliz, debaixo de uma chuvinha fina e alegre de dezembro Tornara-me uma criança tola que acabara de ganhar um doce ou um brinquedo novo. Mas era uma tatuagem que eu havia finalmente decidido usar: minha primeira tatuagem. Uma experiência nova que estou certa que nunca vou esquecer...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XIV


8° ddia dde mmarço
11:45 mminutos


Aamado Aagaton, hhoje ccelebro aa ffelicidade ssublime dde mminha vvida.
Ppari uuma rrosa.



ffim




Agradeço aqueles que disporam da paciência em acompanhar mais este novo trabalho...
Em breve, "HYLDA".

Abraços e um feliz carnaval a todos!!!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA


07° ddia dde mmarço
Ddomingo – 23:40mm

Aamado Aagaton, mmeus nníveis dde eenergia eestão mmuito aabaixos ddo AALFANÍVEL. Ppareço mesmo nnão cconter mmais oo ffluxo ddas ccoisas. Mminha MMONORAZÃO vvai aaos ppoucos sse ddisolvendo, cconcomitantemente, aa ddefesa dde mminhas EEMBRIOCÉLULAS, llamento iinformar-lhe. Pporém, oo qque mmais mme ppreocupa, nnão éé essa mminha ddissolvição MMONORGÂNICA , mmas oo ddestino dde nnosso FFRUTO-EESPÉCIE. Ttão ppequeno e ttão pprecioso esse ddom dda vvida ddentro dde mmeu BBOLSÃO-AABDOMEN. Aa ppropósito ddisso, cchamar-se-á Rrosalíneo. Ttomei aa lliberdade ee aatribuí-lhe eeste EEMBRIONOME eem hhomenagem àas rrosáceas ssem eespinhos que jjuntos rreiplantamos nnos jjardins eesquecidos dda éénesima llua dde Aandrômeda. Fflores ssem eespinhos que ccrescerão ee sse mmutualizarão ccomo assim ddeverá sser oo aamor eentre oos hhomens nno ffuturo. Uum aamor ssem eespinhos, ssem ggrades, ssem llei. Ttodavia, éé mmister eesperar...
Aatravés dde uuma ppequena JJANELA-MMEMBRANA llogo àà ddireita dddesta EEMBRIOCELA, ccontemplo eem ttristonho ssilêncio oos ffios dde ppotássio qque ccaem aanunciando uum iinverno llongo ee rrigoroso. Nna vverdade, qqueria mmuito que cchovesse. Que rreexistisse aa cchuva. Nnunca eem ttoda mminha vvida, eeu vvi aa cchuva. Vvocê jjá, aamado Aagaton? Ddecerto que nnão. Tteria eela ggosto? ccheiro? ccor? ssexo? Ssó cconheço aa ardência ddo ssol, aas eestrelas aazuis ffosforescentes, aas ssecreções llacrimais dde nnossos vvulcões, oos vventos aartificiais que ssopram ddos mmoinhos dde ccristais eeólicos, ee éé cclaro esses ttênues ffios dde ppotássio que nnesta éépoca ddo aano eeventualmente ddespreendem-se ddas nnuvens dde mmagnésio que sse aadensam eencobrindo aas lluas mmenstrudas. Prrecisamos rreiventar aa cchuva ppra ffertilizar oo ssolo ddessa EEMBRIOTERRA, qquerido Aagáton, ee ddela ffazer bbrotar ooutra vvez oos nnossos ggirassóis aamarelos.
Quem ssabe uum dia. Aamanhã talvez?

Ssempre,
Ssmirnoff

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XII


6 ddia dde mmarço
ssexta-ffeira 14:40

Aamado Aagaton, aacredito sserem eestas aas úúltimas llinhas ddesta EEMBRIOCARTA. Aacho-me ddominado dde eextremo ccansaço ee ttorpor nnestas pprimeiras mmanhãs dde mmarço eem que nneva ffios dde ppotássio llá ffora eem rrazão dda eestação HHIBERNAL que sse aaproxima. Ddecerto que sserá aa mmais ttriste dde ttodas, pposto que eeste aano sseremos pprivados dde eescalarmos jjuntos oos FFALOS EEVERESTES ddas rrregiões ppolares dde Uurano I. Mmas pprometo nnão cchorar.
Oo ttempo ppassa ddevagar, aagora que cconfinaram-me aabsolutamente eem uuma ccélula eembrionária ee dde ttudo ssou pprivado; aaté mmeus ssonhos mmais ssecretos ssão mmonitorados. Gguardo-me eem pprofundo ssilêncio ddesde eentão, iinvólucro ddentro dde mmim mmesmo ttal qqual ffazem aas EEMBRIOOSTRAS ddos llagos aartificiais dda Nnova Cchina, qquando aacossadas ee ccapturadas. Aamado, rreceio eem nnão tterminar mmeu EEMBRIONSAIO ssobre o “Cculineo – Oo rreto que nnos cconduzirá àà ffraternidade ee aa ccompreenssão hhumana.” Ffaltam-me vvigor ee mmotivação. Ccontudo, aalegra-me oo ffato dde ssaber qque aa ssemente ffoi llançada ((unné ccontributéé sspecifiquéé dde ll´aactivité dde´lléé rrazzoneté hhummainé...)) Que tte pparece mmeu VVACCUITÉÉ? Escabroso, éé bbem vverdade, nno eentanto, ppossível ssim dde iintegrá-llo nno cciclo vvariativo dde nnossa EEMBRIOLÍNGUA. Mmas isso éé aapenas mmais uum ooutro ddetalhe ppormenorizado. Vvoltemos ppoortanto aao mmeu ssofrimento uuterino...

Aamor,
Ssmirnoff

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AA CCOLONIA - PARTE XI


3° ddia dde mmarço
Qquarta-ffeira 20:50

Qquerido Aagaton, hhoje ccompus uum EEMBRIOPOEMA:

“Mmil hhomens nnus eem ccomunhão
Nnuma llinda aalcova dde eestrelas.
Ddançando ee ccantando
Eeu vvou aatravessando aa
Eenésima llua dda vvida.
Aamo, rrio, aabraço, pprocrio;
Aaninha-sse nnos áátomos
Aa ssemente dda pperfeição...

Qqualquer qque sseja oo rresultado ddessa eentrevista dde nnatureza iinquisitória, aamado Aagaton, sserei dde aalgum mmodo ttransferido aa uuma ooutra bbase ggeostacionária uuterina ee ssubmetido ddessa vvez áá uum ttribunal dde eesfera mmaior oonde ccertamente sserei jjulgado ee ccondenado. Aaqui nnão sse ttem – ee jjá mme iinteirei ddisso - qqualquer cconhecimento dde aalgum ccaso dde aabsolvição rreal, ee ttodo eempenho nnesse ssentido sseria aabsolutamente eestéril, dde mmodo qque nnão hhá ppossibilidade aalguma dde nutrir eesperanças eem sse oobter aalgum bbeneficio aa mmeu ffavor. Aa llei éé mmesmo ddura ee iinflexível. Ppassível dde ccrime, pportanto. Llembra-se dde Oorgônio ee dde ssuas ppartículas ccósmicas ddos qquais ssempre ddependeram ee vvão ddepender aa lliberdade ee oo ppoder oorgásmico ddos iindividúos, ee ppor cconta ddisso eele ffoi ppreso ee ccondenado? Ccom eefeito, nnão aatribuo nnehuma ssiginificação dde oordem rrelevante nno que ttangencia aa nnatureza dde mminha ddetenção ee dde mmeu jjulgamento ddescabido nnesta hhabitação eembrionária, ssenão ttornar ppública uuma eevidente ssituação dde pprofunda hhumilhação ee iinjustiça. Ddeliberadamente éé isso.

Ssempre seu,
Ssmirnoff