terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A ENTREVISTA




Eu havia vendido alguns dos meus livros naquela noite e parei no bar do Lusitano para tomar umas cervejinhas que afinal, ninguém é de ferro, foi quando conheci Anne Rocha, uma cantor da noite. Ela bebia sozinha no balcão bem ao meu lado e olhava curiosamente para mim e para a pilha de livros dispostos no balcão de vidro. Quis saber se eu é que tinha escrito aqueles livros e eu respondi que sim, que era escritor. Pediu gentilmente para dar uma olhada neles e eu a deixei a vontade folheando um deles enquanto fui ao banheiro. Ao voltar de lá, ela me recebeu com um sorriso doce de bêbada e perguntou: “Quanto é que está vendendo?” Disse-lhe que custava R$10,00. Então ela disse: “Não posso levar hoje porque estou dura, mas você pode divulger esse seu livro na Rádio do Porto Hidroviário. Fala com o Saraiva, amigo meu que é loucutor, diz pra ele que você é escritor e que é amigo da Anne Rocha.” Então eu disse: “Poxa, que legal! É tudo de que mais preciso, ainda mais numa radio. Quando posso ir lá?” “Amanhã mesmo, as dez. Eu vou estar lá para te dar uma forcinha.” “Então eu irei.” E ficamos conversando um pouco mais até ela anunciar que já ia embora porque estava ficando pesada demais, então eu resolvi ofertar-lhe um livro de graca e prometi que iria ao compromisso pela manhã. Aí ela se foi cambaleante e sensual e eu fiquei lá, naquele balcão de vidro até umas certas horas.
É claro que não pude ir pela manhã porque bebi demais e acordei com uma puta ressaca e com o telefonema de Jordana: “Mário, vais aparecer hoje, mais tarde no Bar Castelinho? Preciso te mostrar uns textos novos que escrevi.” ”As cinco, ok?” Desliguei. Apesar de bastante atrasado, não perdi as esperanças da entrevista, de modo que arrisquei ir á tarde. As três em ponto, eu já estava atravessando a passarela do Porto Hidroviário atrás da tal rádio. A tarde declinava em calor, tédio e ressaca. Eu ainda havia vozes e tilintares de copos nos bares chacoalhando dentro da minha cabeça. Alguém me informou que o studio ficava na parte superior e eu então subi uns lances de escadas que me levaria á radio. Como era uma sexta feira, o movimento era bastante intenso na Praça de Alimentação do Porto. “Se aquela gente toda me ouvir vai ser muito legal.”Pensei alegremente enquanto passeava todo orgulhoso os meus olhos ao redor. Chegando no estudio dei logo de frente com o tal de Saraiva, o locutor. Um cara com uma cara de Amado Batista: um rosto Redondo e chato. Me lançou um meio sorriso amigável e pediu para que eu entrasse e sentasse enquanto anunciava a chegada de um barco que vinha de um interior desses qualquer. Quando pôde me dar um pouco de atenção, eu disse: “Sou um amigo da cantora Anne Rocha, ela canta na noite e divinamente bem, diga-se de passagem, (eu na verdade menti, nunca a vi cantar na vida até ali, mas clichezamente falando: “nessa vida, é preciso saber rolar os dados”.) ela me falou da rádio e do espaço que eu poderia ter para divulgar o meu livro. Sou um escritor.”Mostrei o livro para ele. Ele pegou o livro, olhou a capa - com quem se olha um objeto estranho - foi virando as páginas, até deter-se numa das linhas, foi aí que percebi que seu semblante foi ficando pesado demais a medida que ele aprofundava-se na leitura. Vi logo que o livro pareceu-lhe não agradar muito, dado a grave estética facial dele que se avolumava. Depois de um tempo, ele finalmente disse: “Mas isso aqui, meu camarada, é um livro pornográfico!” Obviamente que aquilo me pegou de surpresa. Me ajeitei melhor na cadeira e equilibrando melhor o riso, perguntei: “Livro pornográfico?” “Meu amigo, você fala aqui de vagina, pênis, cu e sei lá mais o quê e vem me dizer que não é pornográfico? Eu não vou divulgar isso aqui na minha rádio, não, cidadão.” “São apenas símbolos, metáforas, trata-se de um recurso estilístico muito usado pelos realistas mágicos.” Tentei inutilmente convencê-lo. “Mas olha isso aqui: (…) o pênis apontava em direção das estrelas, pois que gostava tanto da física quanto das palavras. “ E olhando sério para mim, disse: “O cara segurando um pênis, porra!” Aquilo – é claro – começava a ficar estranhamente engraçado. “Não há ninguém segurando um pênis, Saraiva (já estava ficando intimo do cara) o pênis tem articulação própria, assim como a vagina e também o cu, eles são membros despreendidos do corpo e portanto, tem vida própria. Na verdade, estão em busca de uma identidade, de afirmação, pois que não dependem mais do conjunto humano. É disso que eu trato no livro: do desmembramento no sentido antropomórfico da vida.” “Meu amigo, isso aqui é uma radio de respeito, lá embaixo, veja bem, tem gente de família, crianças e eles não vão gostar do que vão ouvir. Isso é literatura pornográfica!” “Não, não é não, Saraiva, está sendo taxativo, isso é literatura universal.” “Se ainda trata-se das coisas da terra como os outros artistas que aqui estiveram, mas convenhamos, falar de vaginas e outros orifícios, isso aqui não rola na minha rádio não.” “Mas Saraiva, já tem gente demais escrevendo sobre as coisas da terra. Eu escrevo sobre outras coisas.” “Foi uma luta pra não tocar mais estes forrós de baixo calão pra moralizar esta radio, e aí vem você com esse seu livro.” “Tudo parecia se encerrar ali, quando de repente entrou um cara alto e bem vestido e interrompeu a conversa. Trazia consigo um cd da Marisa Monte e pediu para que o Saraiva tocasse. Ele ouviu um pouco da conversa e com polidez quis saber do que se tratava, tendo em vista a irritação estampada na cara do sósia do Amado Batista. “Este rapaz aqui quer divulgar um livro que ele escreveu, mas não tem condição, doutor.” DOUTOR? Olhei de relance pro cara e notei que ele usava um crachá da polícia Federal. Agora ferrou de vez. Certamente ele ia pensar o mesmo. O mundo estava perdido. A minha literatura estava perdida. Pensei exageradamente em tudo isso. Pareceu que eu estava vivendo os anos de chumbo. Um lance meio surreal mesmo. “Posso olhar?” Perguntou ele. “Sim, claro.” “O conteúdo é pornográfico.” Advertiu novamente, o Saraiva. “Do que se trata o teu livro mesmo?” Bom - aí me posicionei como um pugilista amador pronto para seu segundo round - é sobre um órgão sexual feminino que surge na testa de um cidadão aspirante a escritor, sendo que esse órgão fala, tem vontade própria, personalidade, e acaba transformando a vida pacata desse cidadão num completo absurdo, mas é claro que a novela não se trata apenas disso, mas também das relações humanas, da busca pela afirmação, do amor, de um cotidiano brutal a que todos nós incondicionalmente estamos inseridos.” “E o que há de errado nisso, Saraiva? Eu também tenho uma vagina na testa, você não?” Respirei com alívio me recostando na cadeira. Havia ganho um aliado. “Deixa que o leitor faça a sua própria interpretação. Nelson Rodrigues – e aí ele se estendeu um pouco mais – foi um escritor muito censurado em sua época porque achavam que o que ele escrevia eram textos pornográficos, no entanto, o que ele falava era tão somente da hipocrisia de uma sociedade. E ele está aí, depois de morto, é o cara mais lido na atualidade e eu particularmente adoro ler Nelson Rodrigues.” E virando-se para mim, perguntou: “Você já leu o Anjo Pornográfico?” “A biografia? Sim, já lí.” (e eu de fato lera. Também gosto de Nelson Rodrigues.) “Viu, Saraiva? Vê-se logo que o rapaz aqui tem leitura. Deixa o cara vender o seu peixe. Quanto custa o teu livro?” “R$10,00.” Sacou sua carteira com a insígnia da policia federal e retirou lá de dentro a quantia certa. “Assina aí: Tenente Álvaro.” Autografei o livro com uma satisfação e com uma alegria que não cabia dentro de mim. Fiquei imaginando a reação Indignada daquele loucutor com cara de Amado Batista. “Prontinho!” Entreguei o exemplar a ele. “Vou ler ainda hoje. E não esquenta não, ele vai divulgar o teu livro, não é Saraiva?” E aquele policial bom e sensato despediu-se dando uns tapinhas nas minhas costas. Saraiva virou-se para mim com uma cara de poucos amigos e disse: “Escuta Mário, eu vou divulgar o teu livro sem mencionar esses detalhes aqui escritos, embora eu confesse a você que não aprecio este tipo de literatura.” E pegou o microfone e divulgou o livro. Foi estranho e engraçado ouvir o meu nome e o nome do livro sendo anunciado no alto falante de uma rádio que tinha alcance nos arredores de toda a catedral da Igreja Matriz. Não rolou entrevista alguma, é claro, tampouco apareceu alguém no studio para ver o livro ou conhecer o seu autor. Mas que importancia tem? Deixei o lugar com a certeza de mais uma vitória e subi feliz e confiante como um gigante pequeno a avenida Eduardo Ribeiro em direção ao Bar Castelinho para comemorar com a poetinha Jordana que a esta altura certamente já me aguardava vestida de sol.

domingo, 5 de dezembro de 2010

NOVELA - HYLDA

Dia 08 de dezembro, a partir das 10 hs, estréia nesse blog, o primeiro capitulo da novela HYLDA. Trata-se de uma novela futurista bem ao estilo noir. Granscy, o protagonista dessa estória, recebe misteriosamente do nada a missão de descobrir o paradeiro de um criminoso cuja profissão é vender pastéis envenenados e que, através deles, tenta exterminar toda a população de uma cidade. A busca de Granscy ganha proporçóes absurdas, levando-o também a busca de seu outro eu.

Imperdível!!!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O ANIVERSÁRIO



Naquela noite após o trabalho, fui abraçar Jordana, uma velha amiga escritora que fazia aniversário. Cheguei numa hora meio imprópria, pois que ela discutia com seu namorado: “porra, Jairo – vamos chamá-lo assim – quando andavas atrás de mim e eu te esnobava, ficávamos até tarde da noite bebendo, agora que te dou atenção e carinho queres ir cedo para casa. Hoje é o meu aniversário, porra!!” O cara dela lá caladäo, sem dizer nada. “As Folhas de Relva” de Whitman em seu colo. Um volumäo. Outro dia andava ele ás voltas com Pessoa. O cara até que lia. Pedia uma cerveja. Brindamos. Ela pareceu contente em me ver, mas seus olhos estavam tristes. Era seu aniversário e alguém queria apagar sua vela. Quando ele foi ao banheiro, ela virou seu copo e então me disse: “É justo, Mário? No dia do meu aniversário cismou em ir cedo para casa.” “Deixa ele ir, você fica. Vamos beber até os nossos fígados gritarem.” Ela fez um esforcinho e sorriu. Na outra mesa, uns aprendizes de junkies bebiam e discutiam alto. Havia uma aura pesada demais naquele bar. Senti isso. Bom, ele voltou do banheiro decidido mesmo em ir embora. Comecei a folhear as Relvas de Whitman pra disfarçar enquanto eles discutiam. Ele queria mesmo azedar o vatapá. Ai chegou o Carcamano, outro amigo meu, muito popular por ali e que também escrevia uns troços interessantes. Não lembro como chegamos até Bucowsky, só sei que ele insistia em nos dizer que o alterego do escritor era mais canalha que o seu criador. Literatura americana demais na mesa. Mas os olhinhos dela se acenderam. É que ela havia se tornado recentemente uma leitora voraz de Bucowsky. “Me explica isso melhor!” Perguntou ela ao Carcamano. O cara dela levantou-se imperativo e ela escureceu como uma folha. “70% dos leitores de Bucowsky são mulheres, sabiam?” Disse eu. “Sério?” Espantou-se ela. “Sério.” Sério nada. Inventei aquilo que era pra chamar sua atenção e vê-la sorrir em seu aniversário. Os aniversários são geralmente deprimentes, acho que é por isso que Deus não faz aniversário. Pensei este absurdo. Aquilo ali tava ficando azedo demais. Foi então que os aprendizes de junkies da mesa vizinha resolveram se engalfinhar e o bar veio abaixo. O troço foi feio porque vi um deles sangrando pelo nariz e gritando, “Porra! Ele torceu meu nariz com o meu alicate! Ele torceu meu nariz com o meu alicate!”
Mudamos para um outro bar. Neste outro bar tocava Caetano e ela ainda insistia para ele ficar. Em vão. Ele entregou os molhos das chaves da casa e deixou o lugar. Ficamos ali olhando ele se afastar e sumir. Ela foi escurecendo devagar. Então me veio esta frase tola á cabeça: “quando os homens partem, suas mulheres ficam negras como as folhas.” “que nada!” Jordana virou-se para nós estalando os dedos como uma cigana: “Vamos beber até os nossos fígados gritarem!”E ficamos ali os três bebendo e conversando. Ela nos disse que começaria um trabalho novo como garçonete num bar vip e que estava bastante animada. Falou de sua última crônica e de alguns poemas novos que havia escrito e também nos contou pela enésima vez o episódio engraçado com o francês voador, um gringo que ela havia conhecido e que despencara do terceiro andar da janela de um bar hotel no centro. Rimos um bocado. “Por que não escreves sobre isso?” Sugeri. Ela então pediu um papel e uma caneta e dessa vez rabiscou alguma coisa:
O francês voador
Conheci o tal francês no antigo Macintosh.Bebemos e cheiramos um bocado. Lá pelas tantas, secamos os nossos copos e subimos para o quarto onde o fedorento estava hospedado. Essa história de que francês não gosta de tomar banho não é mentira não, o cara era fedorento mesmo, mas estava bancando o rock todo. Me deitei na cama e me espreguicei bem gostoso como uma gata e pus-me a sua espera. Ele lá, sentado na janela do quarto, noiadão. Foi tudo muito rápido, assim, entre um fechar e abrir dos olhos e ele não tava mais lá, o porra do francês. Havia despencado dali e eu não pude fazer nada, a não ser rir, caí na risada porque entre o riso e a tragédia acho que ainda prefiro o riso e portanto eu apenas ri, ri e ri, vendo ele lá estatalado, mas vivo. Foi um custo tirá-lo de lá, o francês era gordo e fedia muito.
Na manhã seguinte, o gerente nos cobrou o prejuízo e alguma explicação. Não colou não a história de que uma toalha molhada havia caído dalí e feito um estrago daqueles. Saímos bem cedo, eu e o francês para comprar telhas novas. Nossas cabeças ainda giravam pesadas e o sol espocava dentro de nossas íris dilatadas...”
“Só um esboço. Nada sério.” Ela disse. “Gostei.” Guardei com carinho o escrito no bolso. Voltamos a conversar sobre variadas coisas, mas depois os assuntos se esvaziaram como os nossos copos e como os nossos bolsos e ela ficou muito triste e pensativa. Apagou seu último cigarro nas botas novas e pretas de Carcamano e nos disse que já ia embora. “Tá cedo minha querida.” Não disse nada. Levantou-se e partiu atravessando a rua com seus passos lânguidos de bêbada abatida. Combativa, ainda esguivava-se da morte e das armadilhas do amor. “Cara, vou reescrever o primeiro capítulo do "Á mesa com os escarnenecedores". Não ficou legal. Sinto isso. Ando bebendo pouco ou estou com a porra do bloqueio.” Falou Carcamano querendo animar a mesa e a noite, mas já não seria a mesma coisa. Vendo ela partir, foi as minha vez de escurecer. Sabe, certas amizades são mesmo pra valer. De repente me dou conta dessa amizade que é verdadeira e paternal. Não sei bem explicar. Acho até que não precisa não. Gosto dela e de quase tudo que escreve. Acho bem original. Como ela o é. No fundo não quer provar nada a ninguém. O suficiente para eu admirá-la ainda mais. O engraçado é que ela nunca soube disso. Talvez agora saiba.
Jordana partiu num taxi sem um aceno sequer, deixando para trás seu aroma de sonhos e a lembrança de um aniversário.

(para Jalna Gordiano)

RETORNANDO

Saudações a todos!! Estou de volta com as minhas postagens neste blog. Fiquei um tempo ausente, de maneira que peço sinceras desculpas aos meus leitores.
abraços, e aguardem textos novos que virão!!

segunda-feira, 22 de março de 2010

O EVANGELHO DE PASSOLINI


Revendo Passolini, ele é sem dúvida, dentro da safra dos neo-realistas italianos, juntamente com De Sica “O Ladrão de Bicicletas” e Etore Scola “Belos Sujos e Malditos”, o meu cineasta favorito. Senão, o melhor. Dentre os muitos filmes que dirigiu e que assisti, tais como, “Teorema”, “120 Dias de Sodoma”, “Mamma Roma”, “Desajuste Social” e etc, “Decameron” e o “O Evangelho Segundo Mateus”, são os meus prediletos. Mas precisamente este segundo o qual recentemente tive a sorte de encontrar numa liquidação nas Lojas Americanas e a gora faz parte da minha videoteca.
O Evangelho Segundo Mateus, embalado pela trilha clássica de Bach, Mozart e Procovief, é simplesmente soberbo. As imagens são de um lirismo e simbologias únicas. Não há nada de polêmico no filme, com exceção de um Cristo que nos é mostrado dentro de uma visão Marxista e despojada e cuja imagem irada contradiz com a visão comumente parcimoniosa e meiga de um Cristo sempre disposto a tudo tolerar. Os sermões desse Cristo irascível são inflamados e seu temperamento raivoso é constantemente sujeito a descontroles, como é mostrado numa das cenas em que sua expressão mais clara está na forma exaltada com que ele reage ao estado corrompido em que encontra Jerusalém.
As ações milagrosas realizadas por este Cristo são mostradas de forma simples e não dentro de um tom épico e mistificador como estamos costumados a ver Wollydianamente. O milagre aqui não precisa ser justificado, posto que milagre é milagre, você acredita nele ou não, e seu filme se relaciona integralmente com este ponto. O filme não discute aqui o milagre, apenas o expõe de maneira simples e poética.
Passolini fez um filme muito mais sobre a literariedade de Cristo do que propriamente a sua vida ou seu calvário. Ao contrário de ser um filme sobre flagelações e violência a La Mel Gibson, Passolini buscou a leveza poética para traduzir a beleza singela e a mágica do cinema.

O Evangelho Segundo Mateus, é mais um filme que recomendo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

COMO MORREM OS ESCRITORES EM MANAUS


COMO MORREM OS ESCRITORES EM MANAUS

(Por Marcos Ney para o zinejornal A GASTRITE 2.Edição)

Tatuou o jaraqui no bucho. Vomitou os peixes de papel borrando a boca. O jornal sujado pelo fel e escama mancheteiava o grito: como morrem os escritores em Manaus? Podem cair mil tucanos à direita e mil sapos à esquerda que não cairá uma lágrima dos olhos da Zuele. Quem chorou a morte de Luíz Libertino, assassinado pelo esquecimento lá na Avenida das Torres? Manaus já nasceu póstuma com essa miséria de conhecimento. Um povo tão dócil que está sendo embrutecido pela espinhatez dessa classe média estúpida. O último livro de poemas dessa cidade foi o Obtuário de Tanatos, escrito por mim. Vivemos para rirmos de nós. Um riso transforma o rosto numa flor. Hoje é dia da colheita das rosas cinzas. O mundo médio será o primeiro a ser ceifado. O que tem escrito por atrás das letras escondidas? Por que os imortais morrem? A academia está com suas cátedras vazias. O carpinteiro se aposentou. Depois de escrever á Beça, morre-se de gripe H1N1. A Astride morreu de gastrite. Narciso viveu sua vida pela metade olhando um lobo no espelho. O teatro dessa cidade virou uma árvore sem natal. Teatro abobadado de piscas-piscas piscando a idiotice do povo e a estupidez do governo. Vão se apagar. Somos governados por ladrões de energia. Engrácio morreu de graça sem “Os pingos nos iis.” Quem ouviu o grito do poeta que se jogou da varanda do cais privatizado? O contista em sua obra: O Estatuto do lerdo, exclamou: “A partir de agora o leso deixará de ser abestado!” Os novos escritores da velha Manaus vivem da Sirrose. Olhem em volta de Manaus, milhares de igrejas evangélicas transformando-se no Teatro da periferia, teatro da orgia, da mentira dita de verdades; as galeras, os assassinatos, o tráfico de idéias, a política, a policia rondando ostensivamente em busca de uns trocados, um juiz bêbado no dia do juízo, o gay grávido batendo no marido, a fábrica de clonagem, o ônibus lotado, o estudante sem carteira, o jornal que não consegue ser lido em dez minutos porque não consegue ser escrito em cinco. O único bar de intelectuais anacrônicos é o bar do Armando. A floresta é grande demais pra sumir. Precisamos nos destruir antes que o carbono nos apague. A folha cai da árvore mais alta na perspectiva do chão. Vai caindo, caindo, caindo, esbarrando-se em outras folhas longas, longas, largas, secas, vivas, mortas, vai caindo até alcançar a terra que também cai, não se sabe pra onde. Eu que escrevi o Sindicato dos Inválidos, caio com os que estão caindo. Nos encontramos nas quedas. Editando a Revista Sirrose com Márcio Santana, Max Caracol, Virgilio Simões, Nira Martins, Farrapo, Victor Hugo, Vagner, Jalna Gordiano, Amarildo Maciel, vivenciei a escrita como existência. Criamos mundos, eus, realidades... Alegro-me em ver os livretos do Adriano Furtado (O Desenhista Voador, Fala mas Faz, Formicida, dentre outros...). O zine Ampulheta de Ayub e Sâmila, e agora o zinejornal A Gastrite, editada por Márcio Santana. Morre-se um escritor. Nascem dez. Essa é a chantagem físiofilosófica da miséria baré que nos assola há milhares de tempos. Não precisamos de territórios. O espaço é universal, sem fronteiras. O que importa é o evento. O agora.

segunda-feira, 15 de março de 2010

PITOCO - PARTE III


não tivesse sido o maçarico que cospe fogo azulado, não tinha entregado o Chocolate, não. Nem com nojo. Pancadas fortes na porta. A casa cercadinha. Zefa Parideira é quem vai atender. Um talo de rosto sofrido no vão da porta. Quem nunca a viu, não lhe dá vinte anos. Ficou velha de parir. É o que dizem os olhos e as bocas.

"Cade o Chocolate?"
"Não mora mais aqui não, Esmeraldino."
"Mora sim que sabemos!" Adentram à força o velho barraco. Malandro arisco, Esmeraldino. O alcançam pulando a janela. Camiseta no ombro; sandália de dedo no pé. O arrastam para a rua. Sob a aderencia do sol, nuca grossa de guariba, empapada de suor. Não carece ver o rosto não. Pra que? Ladrão não tem rosto mesmo. Ahh, bandido, dessa feita não tem jogo não, reina o Cabo Mariano.A boca salivando de ódio. A manduquinha sacoleja pros lados com os bofetões do soldado. A tudo espia da porta, Zefa Parideira. Sua pele é negra e surda. Pariu quinze, sim senhor. Todos nascidos tortos de banda pro crime. Com exceção do caçula que ainda tinha conserto, mas a cobra engoliu. Vê agora calada, a ultima cria, o efetivo levar. Este não volta nunca mais. Pretume no peito de mãe. A bocarra detras se fecha. Não tivesse sido o maçarico que cospe fogo azulado, não tinha entregado o amigo mesmo não. Nem com nojo!
Atravessa correndo a ruazinha até onde finda o asfalto. Volta pra casa, moleque! Grita á janela o Cabo Mariano. Aí entçao ele pára. Depressinha, elas já se vão longe, subindo a Rio Alto; sumindo, sumindo na poeira do asfalto...
Domingo. Calor de doido mesmo. Pitoco cobre os olhos com o braço. Nesga de nuvem pedindo clemencia ao sol.